A União Europeia sugeriu que as plataformas digitais e as empresas de telecomunicações tomem algumas medidas para “assegurar o bom funcionamento da internet” durante a crise da COVID-19, doença causada pelo coronavírus.

Foi isso o que disse Thierry Breton, um dos comissários da União Europeia responsável por políticas digitais, conforme reportagem do Financial Times. Uma dessas ações seria reduzir a qualidade da transmissão, oferecendo apenas conteúdo em “Standard Definition” (ou SD) em vez de materiais em Alta Definição (ou HD).

A recomendação ao redor do mundo para tentar conter a propagação do coronavírus é ficar em casa e, para aqueles que podem, trabalhar remotamente. Aulas também foram suspensas e, segundo a Unesco, mais da metade dos estudantes do planeta estão longe das salas de aula.

São medidas para tentar “achatar a curva de transmissão”, essencial para que o sistema de saúde consiga absorver os doentes mais graves. Na outra ponta, mais gente em casa significa um uso mais intenso da internet e, portanto, uma possível sobrecarga da infraestrutura.

Em tempos de streaming – sites como YouTube, Netflix, Twitch e outros – o consumo de banda larga pode ser bastante pesado. Por enquanto, não há impactos – mas já existe uma tentativa de conter os gargalos.

A preocupação é de que as conexões domésticas de banda larga, que foram projetadas para lidar apenas com o aumento do tráfego noturno, possam não ser capazes de lidar com o tráfego intenso durante um dia inteiro – seja porque as pessoas estão fazendo videoconferências para trabalhar, estudar ou por estarem consumindo bastante entretenimento.

Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, disse na quarta-feira (18) que a companhia percebeu “picos” no uso de alguns serviços, como as chamadas via WhatsApp e Messenger.

A União Europeia possui uma lei de neutralidade da internet que proíbe a distinção de capacidade de banda larga para determinados usos, como o de entretenimento. Apesar disso, executivos de empresas de telecomunicações do continente acreditam que exista espaço para cooperação entre todos – principalmente entre as plataformas e eles.

Em vários países, inclusive no Brasil, algumas plataformas liberaram conteúdos gratuitos durante a crise da COVID-19. Canais de TV fechada estão fazendo transmissões gratuitas pela internet, por exemplo.

De acordo com o Financial Times, houve um aumento de três vezes no uso da videoconferência na Itália, um dos países europeus que mais tem sofrido com a doença. Somando isso ao aumento no streaming e em jogos, o tráfego de dados de banda larga residencial e móvel subiu 75%, segundo a Telecom Italia. No Reino Unido, foi registrado um aumento de 30% nas ligações telefônicas.

Dados da empresa de testes de velocidade Ookla mostram que as velocidades de banda larga na China e na Itália se saíram bem durante os picos, mas as redes móveis tiveram dificuldades.

John Graham, diretor de tecnologia da Cloudflare, empresa de infraestrutura da web, disse que, embora os padrões de acesso à internet tenham mudado, ainda não houve uma desaceleração global significativa. “Parece que há capacidade suficiente. Nada que indique que isso causará um problema”, disse ao FT.

A Netflix acenou positivamente para as declarações do comissário da União Europeia, mas se esquivou da possibilidade de diminuir a qualidade do streaming. “O comissário Breton tem razão em destacar a importância de garantir que a internet continue funcionando sem problemas durante esse período crítico”, disse a empresa. “Focamos na eficiência da rede por muitos anos, incluindo o fornecimento gratuito de nosso serviço de conexão aberta para empresas de telecomunicações”.

Um tempo após o pedido da União Europeia, a Netflix disse à BBC que reduziria a qualidade dos vídeos por 30 dias para não sobrecarregar as operadoras. A empresa de streaming disse que faria isso reduzindo o consumo de dados em 25%, e que os consumidores ainda continuariam a assistir vídeos com boa qualidade.

Atualizado às 18h15 de 19/3 com notícia de que a Netflix reduziria a qualidade de vídeo na Europa