Mesmo para os melhores entre nós, correr uma maratona pode ser infernal. Mas para um homem de 37 anos que disputou sua primeira ultramaratona de 160 km na Califórnia, a experiência se tornou um pesadelo quando ele vomitou tanto que fez um buraco em seu esôfago.

Este estranho caso médico foi publicado em agosto no periódico BMJ Case Reports, embora a revista tenha considerado oportuno destacá-lo esta semana como parte dos casos “mais leves” reportados antes das festas de fim de ano.

De acordo com o relatório, o homem estava correndo na Western States 100, a sua primeira ultramaratona. Após 112 km de prova, ele e seu parceiro deram entrada em uma estação de ajuda. Mas logo depois que eles partiram, o parceiro voltou sozinho para solicitar ajuda. A menos de algumas centenas de metros à frente da estação, o homem havia tentado tomar uma pílula anti-inflamatória não esteróide, mas imediatamente sentiu vontade de vomitar e cuspir a pílula.

Depois de vomitar, sentiu uma dor no peito tão intensa que ele ficou preocupado que tivesse quebrado uma costela. Durante sua viagem para a sala de emergência via ambulância, ele foi tratado como se pudesse ter tido um ataque cardíaco.

“Este foi um dos casos mais sérios que já tive de lidar trabalhando nesse tipo de evento”, disse ao Gizmodo Andrew Pasternak, um dos autores do estudo de caso, que é médico no Silver Sage Center for Family Medicine em Reno, Nevada (EUA), que estava trabalhando na estação de ajuda naquele dia.

Após doze horas e depois de uma tomografia computadorizada, os médicos entenderam melhor o que havia acontecido com o homem. Seu esôfago se abriu espontaneamente, uma condição rara chamada síndrome de Boerhaave.

Embora a maioria dos casos de Boerhaave ocorra em pessoas idosas com riscos pré-existentes, como fumar, o vômito do homem aparentemente pressionou muito o esôfago para que isso ocorresse. Os autores não sabem ao certo por que tomar a pílula provocou o vômito, mas sabe-se que a corrida de longa distância tende a causar estragos no sistema gastrointestinal. Este é, no entanto, o primeiro caso de Boerhaave ligado à ultramaratona — pelo menos não acharam outras ocorrências do tipo em eventos como esse.

“Nós achamos que foi uma completa aberração”, disse ele. “Por que a pílula ficou presa [no esôfago] naquele dia durante aquele momento da corrida — isso poderia ter sido relacionado a algum estresse vivido durante a corrida? Talvez”.

Quando a condição foi descrita pela primeira vez por Hermann Boerhaave no início do século 18, ela foi tachada como universalmente fatal. Mas avanços médicos e cirúrgicos tornaram muito mais possível sobreviver, principalmente se for diagnosticado precocemente. Assim, embora o homem precisou de cirurgia e hospitalização por mais de um mês, o buraco se curou. E de acordo com Pasternak, o homem se recuperou o suficiente para tentar correr a Western States 100 em 2020.

“Toda a experiência me deu uma nova perspectiva sobre a vida e a importância da saúde, e aprendi a apreciar as pequenas coisas da vida”, escreveu o homem em um relatório de acompanhamento.

A lesão bizarra obviamente não é um grande risco para a saúde dos corredores. Mas Pasternak — e o próprio corredor — observam que tomar analgésicos antes ou depois de uma corrida não é recomendado para corridas de longas distâncias, já que eles podem prejudicar seus rins e intestinos. Um estudo ligou o uso desses medicamentos ao vazamento intestinal e inflamação, inclusive com corredores da Western States 100; o levantamento também não encontrou o efeito desses medicamentos na redução da dor muscular.

Se você precisar tomar algum analgésico durante a corrida, Pasternak disse, “assegure-se de tomar com um pouco água e, se possível, diminua o ritmo para engolir”.