Uma nova pesquisa divulgada nesta sexta-feira (4) é a primeira evidência a dar embasamento para uma vacina contra COVID-19 que está sendo desenvolvida por cientistas russos. Dois testes clínicos iniciais sugerem que a vacina é tolerada com segurança e pode criar uma resposta imunobiológica ao coronavírus nas pessoas. Mas, como acontece com outros candidatos experimentais, ainda não se sabe se a vacina será realmente eficaz, apesar de já ter sido aprovada pelo governo russo.

A pesquisa foi publicada no Lancet, detalhando dois ensaios da vacina. Batizada de Sputnik V pela Rússia, ela é uma vacina de adenovírus recombinante.

Essas vacinas são feitas de adenovírus — um grupo comum de vírus que podem causar resfriado nas pessoas —  geneticamente modificados para transportar uma parte específica do germe contra o qual você deseja que o corpo seja imunizado, conhecido como antígeno.

O vírus é neutralizado para não causar doença ou se replicar nas células, mas ainda é capaz de infectar e entregar seu pacote germinativo às células, fazendo com que elas produzam o antígeno estranho como resultado.

Esse sequestro de células geralmente faz com que o sistema imunológico entre em ação. Todo o processo visa treinar o sistema imunológico para lembrar qualquer outro patógeno com as características que o adenovírus imita (o coronavírus, neste caso), prevenindo ou enfraquecendo quaisquer infecções reais que possam vir depois.

A Sputnik V é carregada com dois vetores adenovírus, destinados a diminuir o risco de uma resposta imunológica que pode deixar alguém doente, de acordo com os pesquisadores.

Os dois ensaios, envolvendo 38 voluntários saudáveis cada, foram um estudo de combinação de fase 1 e fase 2. Eles testaram versões da Sputnik V que eram mantidas congeladas ou liofilizadas antes do uso.

Na primeira fase, 9 voluntários receberam a vacina com apenas um dos dois vetores de adenovírus para testar sua segurança. Depois que os cientistas descartaram quaisquer preocupações sérias de segurança no primeiro grupo, eles inscreveram mais 20 pessoas na fase 2, em que a vacina completa de duas partes foi dada, com doses de 21 dias de intervalo. No total, o estudo durou 42 dias. A vacina foi administrada por injeção na parte superior do braço.

Nos testes, nenhuma das vacinas pareceu estar relacionada com efeitos adversos graves. Ela também pareceu induzir uma resposta de anticorpos ao coronavírus, conhecido como SARS-CoV-2, em todos os voluntários, bem como uma resposta de células T, outra parte importante do sistema imunológico que lembra as infecções anteriores. Os efeitos colaterais incluem febre, fadiga, dor de cabeça e dor no local da injeção.

Os resultados sugerem que a “vacina é segura, bem tolerada e induz fortes respostas imunes humorais e celulares em 100% dos participantes saudáveis”, escreveram os autores.

Uma crítica aos testes clínicos da Sputnik V é que não foram feitos testes com um grupo de controle. Basicamente, quando se faz ensaios do tipo, um grupo de pessoas recebe placebo (uma substância sem ação) em vez do medicamento em si. Isso costuma servir para os cientistas checarem a eficácia da medicação.

Ter pelo menos alguns dados por trás da Sputnik V é certamente uma coisa boa, dado que nada havia sido apresentado até agora. Também é verdade que as vacinas baseadas em adenovírus têm sido estudadas há décadas e geralmente são consideradas seguras para uso em pessoas.

Mas elas nunca foram muito bem sucedidas após os primeiros testes: apenas uma vacina — para o ebola — obteve aprovação em todo o mundo até o momento. Isso torna a aprovação da Sputnik V pela Rússia no mês passado, aparentemente com base nesses dados iniciais, ainda mais presunçosa.

Apesar da repercussão feita pelo país no anúncio da Sputnik V, o cronograma de quando a vacina poderá ser disponibilizada para residentes na Rússia ou em outros lugares (países como a Índia e alguns estados brasileiros estão em negociações para produzir e possivelmente distribuir a Sputnik V) ainda é muito incerto.

A Rússia já foi direto para a fase 3 da Sputnik V, que é o último estágio da pesquisa clínica necessária antes que um tratamento ou medicamento receba uma aprovação do governo.

Por mais encorajadora que esta pesquisa possa ser, ainda não é a solução que o mundo está esperando ansiosamente, pelo menos por enquanto.