O texto a seguir é de Fabro Steibel, diretor executivo do ITS Rio. O Instituto de Tecnologia e Sociedade é uma associação civil sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento de pesquisas e projetos sobre o impacto social, jurídico, cultural e político das tecnologias de informação e comunicação.

Você faz um uso pesado da rede? Caso a forma de contratação dos planos de banda larga fixa seja alterada, conforme querem as operadoras, com a inserção de franquias, você pode se preparar para pagar mais. Mas então se você é um usuário light, será que os novos planos serão, de fato, vantajosos? Tentamos esclarecer como a venda de banda larga fixa “por quilo” pode afetar seu bolso (e não matar a fome).

>>> Por que somos contra as franquias no serviço de banda larga fixa
>>> Tem muito mais em jogo que o Netflix de fim de semana na franquia de banda larga

Contratar um plano de banda larga fixa com franquia de dados quer dizer que serão vendidos gigabytes de conexão por pacote, além da conhecida limitação por velocidade. É o mesmo modelo de negócio do pulso telefônico, do SMS e do selo da carta. É vender internet por quilo, a preço de ouro.

Quando a franquia se esgotar, sua internet será cortada. Imagine que você está no meio de uma operação bancária que não pode ser concluída. Ou no meio da leitura de um artigo, ou do envio de um e-mail. No caso de essa proposta ser de fato implementada, você teria que esperar o próximo mês para concluir essas ações, ou ter que sair de casa pra ir ao banco, à biblioteca ou ir aos correios para mandar sua carta.

Internet como artigo de luxo

Sabemos como é viver no mundo de internet com limite de franquia. É só olhar o seu celular. Quem viaja para o exterior com um smartphone pode contratar e trata os 10 megabytes de roaming internacional como artigo de luxo. Quem tem conta pré-paga, consome no conta-gotas o que foi pago, para não ter apagão de conexão no fim do mês.

Se essa proposta seguir, estaremos a caminho da internet da cabine de avião. Se você tem uma internet de primeira classe, sua rede é ilimitada. Mas se viaja de classe econômica, como a grande maioria de nós, aperte os cintos, a internet pode cair. A internet do programa Gold e Diamante vai custar caro, para todos. E internet não é artigo de luxo, é um recurso globalmente compartilhado e fundamental para o desenvolvimento da cidadania de acordo com o Marco Civil da Internet.

Atualmente, a contratação de internet funciona como um sistema bancário. Se todos os correntistas sacam dinheiro ao mesmo tempo, o banco quebra. Mas se todos depositam e retiram dinheiro aos poucos, o sistema é sustentável.

As operadoras de telecomunicação argumentam que, com a chegada do streaming, do Netflix e do YouTube, o saque médio dos usuários no dia a dia aumentou. Faltam estudos para aprofundar essa análise. Mas ninguém esperou os estudos para anunciar que a era da internet ilimitada tinha acabado, certo? Então será que precisamos mesmo de outro modelo de negócio?

O sistema financeiro, para se proteger de uma quebra, criou mecanismos para monitorar a sua “rede” e evitar esse tipo de situação. Se queremos uma internet cada vez mais estável, temos que pensar em formas de gerenciar esse tráfego de forma transparente, em que as empresas de telecomunicações e os usuários possam ter uma visão mais precisa dos limites da rede.

Banda Larga nas Escolas

Devemos nos lembrar sempre das escolas – principalmente das públicas, que já hoje em dia precisam lidar com uma internet lenta e de baixa qualidade. A maioria das escolas públicas no Brasil tem internet apenas para uso administrativo, com limite de 2 Mbps. Poucas têm o mínimo de internet para distribuir para estudantes em sala de aula, 10 Mbps que seja.

Iniciativas como o Programa Banda Larga nas Escolas (PBLE) ou o recém-lançado Brasil Inteligente são louváveis. Mas elas sofrem resistência das empresas de telecomunicação quando é necessário aumentar as metas ou melhorar o monitoramento da entrega do serviço. Vale do Silício, Tel Aviv e Coréia do Sul são lugares em que a internet ilimitada beneficiou a livre iniciativa e a inovação. Daí decorre a importância de os organismos públicos verem o acesso universal à internet como estratégico, sob o risco do Brasil ficar para trás no bonde da inovação mundial.

O Brasil está concorrendo com o resto do mundo na disputa de um mercado ainda em formação. Para termos mais exemplos nacionais de aplicativos de sucesso, ou mesmo empresas que se dedicam à economia digital, que desenvolvem software e outros modelos de negócio inovadores, precisamos de uma internet melhor e mais barata.

Caso contrário, essas empresas vão entrar em desvantagem na disputa global e seremos engolidos por outras iniciativas de países com ecossistemas mais favoráveis à inovação, com internet ilimitada e barata.

O futuro da inovação, do conhecimento e da cidadania é fragilizado com a banda larga fixa vendida por quantidade, por quilo. Vem aí a Internet das Coisas, a blockchain, a realidade virtual. A Economia Digital vai movimentar o mundo. E é justamente nesse momento de transição econômica que querem voltar a vender a internet como se vendem selos, ou frutas na feira. É um retrocesso que custa caro quando se coloca na balança.