O advogado da Waymo Charles Verhoeven anunciou, nesta sexta-feira (9) que a empresa de carros autônomos chegou a um acordo em seu processo contra o Uber por causa de um suposto uso de segredos comerciais roubados, dando um fim repentino a uma batalha legal de um ano.

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Empresa-mãe do Google, a Alphabet, que é dona da Waymo, vai receber uma participação maior no Uber sob os termos do acordo, reveleram ao Gizmodo fontes próximas do acerto. A Alphabet vai receber 0,34% do patrimônio líquido do Uber, porcentagem avaliada em cerca de US$ 245 milhões (para efeito de comparação, o Uber ofereceu aproximadamente US$ 600 milhões em capital próprio para comprar a Otto, startup de caminhões autônomos que supostamente levou os segredos comerciais da Waymo para o Uber).

A Waymo também concordou em não ir atrás de suas alegações restantes de segredos comerciais contra o Uber. A empresa tinha uma lista de mais de 100 supostos segredos comerciais, oito dos quais estavam nesse julgamento.

O Uber tem planos de fazer sua abertura de capital em 2019, e o Google já é um investidor gigante, então deixar o julgamento de lado agora pode garantir ao Google um pagamento mais rápido já que o Uber terá sua oferta pública inicial. Mesmo que o júri nesse caso tivesse alcançado um veredito, esperava-se que o caso se arrastasse em novos recursos — e, potencialmente, em novos julgamentos, conforme a Waymo prosseguisse com sua lista de segredos comerciais.

“Chegamos a um acordo com o Uber que acreditamos que vá proteger a propriedade intelectual da Waymo agora e no futuro. Estamos comprometidos a trabalhar com o Uber para garantir que cada empresa desenvolva sua própria tecnologia”, disse um porta-voz da Waymo, em um comunicado. “Isso inclui um acordo para garantir que qualquer informação confidencial da Waymo não esteja sendo incorporada em hardwares e softwares do Uber Advanced Technologies Group. Sempre acreditamos que a concorrência deva ser abastecida por inovação nos laboratórios e nas estradas e não vemos a hora de trazer carros totalmente autônomos para o mundo.”

A Waymo havia apresentado maior parte de seu caso em uma corte federal em São Francisco nesta semana, embora ainda tivesse que se aprofundar nos detalhes de seus supostos segredos comerciais roubados. A empresa havia marcado a presença de testemunhas de ambas as empresas nesta sexta-feira (9) para discutir os detalhes de sua tecnologia — mas essas testemunhas nunca chegaram ao tribunal.

No segundo trimestre do ano passado, o Uber reprojetou seu sistema LIDAR, o Fui, e parte do acordo inclui disposições para que a Waymo garanta que sua tecnologia não esteja sendo usada.

O Uber manteve, desde a abertura do processo, sua posição de que nenhum dos segredos comerciais da Waymo haviam chegado a seus servidores e que não estava usando a tecnologia da outra empresa.

Mas as negociações do Uber para adquirir a Otto foram um outro escândalo particular que o novo CEO da empresa, Dara Khosrowshahi, teve que limpar. O ex-CEO do Uber Travis Kalanick teve reuniões constantes com a equipe da Otto antes de a empresa ser oficialmente formada, e as investigações apropriadas feitas pelo Uber sobre a Otto pareciam projetadas para cementar o acordo.

“Nosso único objetivo era contratar os cientistas e engenheiros mais talentosos para ajudar a levar a empresas e nossas cidades a um futuro sem motoristas”, disse Kalanick em um comunicado. “As evidências no julgamento esmagadoramente provara isso, e se o julgamento prosseguisse até sua conclusão, está claro que o Uber teria prevalecido. Sigo orgulho das contribuições criticamente importantes que o Uber ATG teve para o futuro da empresa e não vejo a hora de seus esforços inspirados se tornarem uma realidade nas estradas de cidades ao redor do mundo.”

Investigadores forenses encontraram arquivos confidenciais da Waymo em dispositivos pertencentes ao co-fundador da Otto Anthony Levandowski, ex-funcionário da Waymo, mas Kalanick foi em frente com o acordo mesmo assim. Bill Gurley, investidor e ex-membro da diretoria do Uber, testemunhou no tribunal nesta semana que Kalanick o fez acreditar que um relatório responsável não tinha trazido nenhum resultado alarmante — quando, na verdade, Levandowski havia discutido destruir discos rígidos com informações da Waymo e até mesmo excluiu arquivos de seu computador durante uma entrevista com os investigadores de diligência prévia (a Waymo ainda está em um processo de arbitragem confidencial contra Levandowski por usar dados internos para perseguir funcionários da Waymo).

Abaixo, a carta que Khosrowshahi liberou após o acordo:

Meu trabalho como CEO do Uber é definir o curso do futuro da empresa: inovar e crescer responsavelmente, assim como reconhecer e corrigir erros do passado. Ao fazê-lo, eu quero expressar arrependimento pelas ações que me fizeram escrever essa carta.

Aos nossos amigos da Alphabet: somos parceiros, você é um importante investidor do Uber, e compartilhamos uma profunda crença no poder da tecnologia para mudar as vidas das pessoas para o melhor. Claro, também somos concorrentes. E embora não vamos concordar em tudo daqui pra frente, concordamos que a aquisição da Otto pelo Uber poderia e deveria ter sido tratada de forma diferente.

Aos nossos empregados, em particular as grandes e talentosas pessoas do Uber Advanced Technologies Group: sua paixão e comprometimento me inspiram a trazer os veículos autônomos à vida. No ano passado, vocês foram distraídos de sua missão. Por isso, eu sinto muito.

Não há dúvidas de que a tecnologia de direção autônoma é crucial para o futuro do transporte — um futuro no qual o Uber pretende desempenhar um papel importante. Através dessa lente, a aquisição da Otto fez sentido comercialmente.

Mas a perspectiva de que uma dupla de funcionários da Waymo possa ter, inapropriadamente, solicitado que outros se juntassem à Otto e que eles possam potencialmente ter partido com arquivos do Google em sua posse, em retrospecto, levanta algumas sérias perguntas.

Para ser claro, embora não acreditemos que quaisquer segredos comerciais tenham chegado da Waymo para o Uber ou que o Uber tenha usado qualquer informação proprietária da Waymo em sua tecnologia de direção autônoma, estamos tomando providências com a Waymo para garantir que nosso LIDAR e software representem apenas nosso bom trabalho.

Embora eu não possa apagar o passado, posso me comprometer, em nome de cada funcionário do Uber, que vamos aprender a partir disso, e isso vai dar informações para nossas ações daqui pra frente. Eu disse à Alphabet que as pessoas incríveis do Uber ATG estão focadas em garantir que nosso desenvolvimento represente o melhor da inovação e experiência do Uber em tecnologia de direção autônoma.

Conforme mudamos a maneira como operamos e colocamos integridade no núcleo de cada decisão que tomamos, estamos ansiosos pela grande corrida para construir o futuro. Acreditamos que essa corrida deva ser justa — e uma cujos os vencedores finais sejam as pessoas e nosso ambiente.

Imagem do topo: Getty