Cientistas descobriram na Lagoa da Pampulha, em Minas Gerais, um vírus enigmático que possui genes praticamente irreconhecíveis. Os pesquisadores, entre eles diversos brasileiros, o batizaram como Yaravirus brasiliensis, em homenagem à sereia do folclore brasileiro também conhecida como mãe-d’água.

O Yaravírus, que não representa riscos aos humanos, tem mais de 90% de seu DNA “inédito”. Ou seja, muitos dos seus genes não foram descritos em base de dados científicas utilizadas para comparações genéticas.

A descoberta foi feita enquanto os líderes da pesquisa Jônatas Abrahão, virologista da Universidade Federal de Minas Gerias, e Bernard La Scola, da Universidade Aix-Marseille na França, procuravam por vírus gigantes – um tipo de vírus que tem o tamanho de uma bactéria e que possui grande código genético.

Esses vírus gigantes só foram descobertos neste século e têm a capacidade de sintetizar proteínas e, portanto, realizar reparos em seus DNA, além de fazer a replicação, transcrição e tradução dos genes. Antes dessa descoberta, pensava-se que os vírus não eram seres vivos e que só eram capazes apenas de infectar seus hospedeiros.

O pré-artigo, publicado no bioRxiv, explica que os cientistas compararam o genoma do Yaravírus com mais de 8.500 genes conhecimentos e que só surgiram seis resultados similares. Apesar disso, os genes não tinham códons comumente utilizados — as três letras do RNA ou DNA que estudamos no ensino médio, que são as instruções para fazer proteínas.

Para encontrar esses vírus, os pesquisadores isolaram partículas virais de dezenas de amostras de tecidos de humanos e de outros animais e as examinaram para cadeias circulares de genoma.

O grupo confirmou que o DNA pertencia a um vírus ao procurar um gene que codifica a capsíde, o invólucro dos vírus formado por proteínas e que protege e facilita sua proliferação, além de proteger o ácido nucléico.

Estas sequências de genes são muitas vezes irreconhecíveis, mas um dos pesquisadores, Michael Tisza, desenvolveu um programa de computador capaz de prever quais os genes que mais provavelmente codificariam a capsíde.

Alguns genes do Yaravírus se parecem com os de um vírus gigante, mas ainda não está claro como eles poderiam estar relacionados. Os cientistas ainda estão investigando outros aspectos do estilo de vida do novo vírus, que pode até inaugurar uma nova categoria.

Há dois anos, Abrahão e La Scola ajudaram a descobrir o Tupanvirus, um vírus gigante encontrado em habitats aquáticos.

“A quantidade de proteínas desconhecidas que compõem as partículas do Yaravírus reflete a variabilidade existente no mundo viral e quanto potencial de novos genomas virais ainda estão por descobrir”, dizem os autores no pré-artigo.

Os novos estudos têm implicações além de descobrir quais vírus causam doenças. Alguns vírus que vivem no corpo humano podem ajudar a nos manter saudáveis, e outros são essenciais para manter os ecossistemas funcionando, ajudando a reciclar nutrientes essenciais.

[Science, bioRxiv]