O sucesso da vida selvagem na zona de exclusão de Chernobyl já foi bem documentada, inclusive com a série Our Planet, disponível na Netflix. Novas pesquisas mostram que a vida selvagem está experimentando um florescimento semelhante na zona de exclusão de Fukushima, no Japão. Não importa o quanto os humanos estraguem o planeta, a natureza parece encontrar uma maneira de se recuperar assim que saímos do caminho.

Em 2011, um terremoto e um tsunami fizeram a usina nuclear de Fukushima derreter e levaram o governo japonês a evacuar uma área quase do tamanho de Los Angeles enquanto a radiação se espalhava pela região. Essa área acabou sendo dividida em três zonas: uma onde as pessoas podem voltar a viver, uma onde algumas áreas são seguras e uma zona restrita, insegura para a habitação humana devido aos altos níveis de radiação.

Essa separação ajudou a estruturar a vida humana após o desastre, mas também deu aos pesquisadores uma chance sem precedentes de ver como a vida selvagem reagiu às mudanças na habitação e na radiação humanas. Grande parte do trabalho sobre como a radiação de Fukushima afetou os animais se concentrou em indivíduos ou pequenos grupos, além de ter analisado os impactos moleculares da radiação. Mas o novo estudo divulgado na última segunda-feira (6) na Frontiers in Ecology and the Environment analisou o nível populacional da vida selvagem usando 120 armadilhas fotográficas nas três zonas.

No final, 14 câmeras falharam, mas os pesquisadores ainda coletaram mais de 267 mil imagens em dois períodos de 60 dias. Isso permitiu uma visão sem precedentes dos animais que passeavam pelo território de Fukushima. As imagens que eles capturaram mostra a notável propensão da vida para encontrar uma forma de vencer. Um vídeo em timelapse de alguns dos lugares mostra javalis, macacos e até uma raposa passeando com um coelho na boca.

As criaturas mais comumente encontradas em qualquer zona eram javalis (não confundir com porcos selvagens); sua população na zona de exclusão era o dobro da zona onde os humanos eram restritos e três vezes a da zona em que os humanos vivem.

A maioria das espécies tinha populações mais altas nas zonas de exclusão e restritas a humanos, as com maior radiação. As principais exceções eram cães-guaxinins e os seraus japoneses, uma espécie caprina que lembra uma cabra, cada um com populações maiores na zona habitada.

“Com o tempo, algumas espécies de animais silvestres responderam favoravelmente à ausência de seres humanos, mesmo na presença de altos níveis de radiação, resultando em uma reconfiguração das zonas de evacuação”, disse ao Gizmodo Thomas Hinton, radioecologista do Instituto de Radioatividade Ambiental da Universidade de Fukushima que trabalhou no estudo.

O fato de que os animais prefiram viver com radioatividade do que próximo a humanos talvez diga alguma coisa sobre nós. Brincadeiras à parte, porém, os resultados mostram que a vida selvagem é capaz de prosperar em lugares de onde os seres humanos se retiraram.

O estudo observa que os dados das armadilhas fotográficas não revelaram anormalidades no nível da população para nenhuma das espécies estudadas, embora outras conclusões tenham mostrado que a radiação de Fukushima causou efeitos à saude, com danos no DNA de minhocas e no declínio de reprodutividade de açores, espécie de ave de rapina muito comum no Hemisfério Norte.

Os seres humanos exerceram uma pressão esmagadora sobre os animais em todo o mundo, desde a Amazônia, onde os incêndios são usados para limpar a terra, até a Austrália, onde a crise climática provocou uma onda gigante de mortes.

Essas pressões crescentes nos colocam no início da sexta extinção em massa devido a atividades humanas. Isso por si só deveria nos fazer pensar, já que só os primeiros impactos de uma extinção catastrófica já serão suficientes para tornar a vida na Terra mais difícil para nós.

Nunca ficou tão claro que precisamos reservar espaço para a vida selvagem, e deixá-la prosperar é uma maneira de fazer isso. Em Fukushima, isso tem sido uma reutilização não intencional, mas mostra o que pode acontecer em um tempo relativamente curto e sugere que mais planejamento pode gerar um programa para voltar a tornar o local selvagem ainda mais bem-sucedido. Nós só precisamos agir juntos o mais rápido possível.

“Os seres humanos são o câncer na natureza”, disse Hinton. “Nossa presença sempre em expansão tem impactos discerníveis em muitas espécies selvagens. A natureza, no entanto, é resistente e, se o estresse da presença humana persistente for reduzido, muitas populações de animais selvagens estão prestes a se recuperar e aumentar em número.”