Depois do desastroso experimento da Microsoft com inteligência artificial, um novo estudo mostra como softwares de reconhecimento e categorização de imagens podem aprender tendências preconceituosas e estereótipos de gênero.

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Vicente Ordóñez, professor de ciência da computação na Universidade da Virgínia, notou um padrão no software de reconhecimento de imagens que estava construindo: ao ver uma imagem de cozinha, por exemplo, o software automaticamente a associava a mulheres, mesmo em casos em que um homem aparecia na fotografia. Para avaliar se estavam alimentando o software com tendências de gênero, Ordóñez e sua equipe testaram duas grandes coletâneas de imagens para qualificar suas suspeitas com a ferramenta..

As coletâneas de imagens usadas no teste foram lançadas para ajudar softwares a melhor entender o conteúdo de fotografias. Um desses catálogos é o ImSitu, criado pela Universidade de Washington, e o outro chama-se COCO, coordenado por Microsoft, Facebook e a startup MightyAI. Cada coleção possui mais de 100 mil imagens de cenas complexas catalogadas com descrições.

Depois da avaliação, a equipe chegou à conclusão de que a atitude tendenciosa do programa de reconhecimento começa quando há a necessidade de associar objetos ao tipo de ambiente que eles pertencem. Mas não só isso: existe também um problema com as imagens disponibilizadas pelos catálogos de imagens que alimentam o software. “Mais de 45% e 37% dos verbos e objetos, respectivamente, apresentaram viés de gênero numa proporção de dois para um”, conclui a pesquisa.

Ambos os catálogos possuem um maior número de imagens de homens do que mulheres, e, além disso, objetos e atividades presentes nas figuras também apresentam vieses de gênero. A base da COCO, por exemplo, faz uma associação maior entre mulheres e utensílios de cozinha, como colheres e garfos, enquanto equipamentos de esporte, como pranchas de snowboard e raquetes de tênis, têm uma associação maior com homens.

O exemplo mais marcante disso, presente no artigo de Ordóñez, é a foto de um homem cozinhando que foi classificado como uma mulher, devido ao programa associar cozinha com mulheres. Como resultado, a equipe avalia que máquinas de aprendizado não apenas replicaram esses preconceitos de gênero, mas o ampliaram.

Na quarta coluna, a imagem de um homem cozinhando é classificada como uma mulher pela ferramenta. (Imagem: Vicente Ordóñez)

Mark Yatskar, pesquisador do Instituto Allen para a Inteligência Artificial que trabalhou com Ordóñez na pesquisa, explica ao Wired que isso tende a piorar. “Isso pode não apenas reforçar preconceitos sociais, mas fazê-los ainda piores”, diz. Conforme a inteligência artificial fica mais complexa, também ficam os riscos. Yatskar sugere que, no futuro, ao ver alguém na cozinha e não saber o que fazer, um robô que auxilia nos cuidados da casa pode oferecer uma cerveja a um homem e, no caso de uma mulher, ajudá-la a lavar a louça.

Ordóñez e sua equipe encontraram uma maneira de neutralizar este problema, mas ele requer que um pesquisador procure por possíveis avaliações tendenciosas e quais as correções que a ferramenta deve fazer. Eric Horvitz, diretor da Microsoft Research, espera que outros adotem medidas iguais às de Ordóñez. “Eu e a Microsoft como um todo celebramos os esforços em identificar e resolver essas tendências e vieses”, diz.

Os perigos dessas tendências para ferramentas de reconhecimento não ficam apenas nas questões de gênero, mas também nas de raça, como aconteceu com o Google em 2015 – O Google Fotos catalogou a fotografia de um casal negro como “gorilas”.

A empresa prometeu tomar providências e avaliou que há “claramente muito trabalho pela frente com classificação de imagem, e nós estamos avaliando como evitar que erros como esse aconteçam no futuro”, como aponta o Nexo.

O reconhecimento de imagens ainda é problemático, mas não é a única ferramenta de aprendizado que pode aprender errado: ano passado, a Microsoft teve uma grande dor de cabeça com a inteligência artificial Tay. Programado para agir como uma adolescente, o chatbot usava “conversas casuais e divertidas” para interagir e aprender com humanos. A ideia original era que ela oferecesse comentários honestos sobre fotos, contasse piadas, informasse o seu horóscopo do dia, entre outros. Quanto mais ela conversasse com você, mais ela aprenderia e mais esperta ficaria.

Porém, como a internet é um lugar terrível, a adolescente virtual passou a publicar comentários racistas, antissemitas, sexistas e algumas outras coisas sem noção, como dizer que o holocausto foi inventado, apoiar a construção de um muro entre o México e os EUA e dizer que Hitler estava certo.

A Microsoft precisou se desculpar publicamente, e a ferramenta foi descontinuada, mas fica a lição que é melhor avaliar bem do que se trata o conteúdo que você usará para alimentar o seu software de aprendizado.

Imagem de topo: Christiaan Colen/Flickr

[WiredNexo]