A Missão Hope, dos Emirados Árabes Unidos, tinha lançamento previsto para sexta-feira (17), mas ele foi adiado novamente devido ao mau tempo. Esta é a primeira tentativa árabe de chegar ao Planeta Vermelho. Veja como os Emirados Árabes Unidos se esforçarão para fazer história.

A sonda Hope, ou Al Amal, deveria ser lançada na terça-feira (14) a partir do Centro Espacial Tanegashima, no Japão, mas o mau tempo adiou o lançamento para sexta-feira, 17 de julho. Não deu de novo, e a partida foi adiada para uma data futura a ser determinada.

A sonda espacial de 1.350 kg — essencialmente um satélite meteorológico marciano — será levada ao espaço e depois rumo a Marte no topo de um foguete Mitsubishi Heavy Industries H-2A.

A Hope, que entrará em órbita em torno de Marte em fevereiro de 2021, será usada para estudar a atmosfera e o clima do planeta. Supondo que tudo corra bem, isso marcará a primeira missão árabe em Marte, ou em qualquer outro planeta.

A Emirates Mars Mission (EMM) é uma das três missões agendadas para o Planeta Vermelho durante a janela de lançamento, que está agora aberta. As outras são o rover Perseverance da NASA, que deve ser lançado daqui a duas semanas, e o módulo de pouso chinês Tianwen-1. A missão ExoMars, da Europa e da Rússia, teve que ser adiada devido a atrasos técnicos e à pandemia da COVID-19.

Essa janela de lançamento acontece uma vez a cada 26 meses e oferece a rota mais direta da Terra para o Planeta Vermelho.

Aqui estão cinco coisas a saber sobre esta missão histórica.

Feito nos Emirados Árabes Unidos — mas com uma pequena ajuda dos amigos

Em desenvolvimento desde 2013, o projeto Hope foi planejado, gerenciado e implementado por uma equipe do país, com supervisão e financiamento provenientes da Agência Espacial dos Emirados Árabes Unidos, de acordo com o Arab News.

O projeto custou cerca de US$ 200 milhões para ser construído, incluindo despesas de lançamento contratadas pela Mitsubishi Heavy Industries. É um preço bastante modesto, considerando os US$ 670 milhões que a NASA desembolsou para construir a espaçonave MAVEN, uma missão comparável que foi lançada com destino a Marte em 2013. Ainda assim, nada se compara à Missão Mars Orbiter da Índia, com seu preço notavelmente baixo de US$ 74 milhões.

O satélite Hope durante o desenvolvimento. Imagem: Agência Espacial dos Emirados Árabes Unidos

Os Emirados Árabes Unidos nunca haviam embarcado em um projeto como esse antes. Por isso, foram espertos e procuraram conhecimento de instituições dos EUA, incluindo o Laboratório de Física Atmosférica e Espacial (LASP) da Universidade do Colorado em Boulder, que havia trabalhado anteriormente na missão MAVEN. Como a BBC relata, os engenheiros dos Emirados e dos EUA colaboraram no projeto e fabricação da espaçonave.

“Uma coisa é dizer a alguém como andar de bicicleta, mas você só entende direito como se faz ao fazer. Bem, com uma espaçonave é a mesma coisa”, disse à BBC Brett Landin, engenheiro de sistemas sênior do LASP. “Eu poderia ensinar a você o processo para abastecer uma espaçonave, mas até que você coloque uma roupa de escape e transfira 800 kg de combustível de foguete altamente volátil dos tanques de armazenamento para a espaçonave, você não sabe de verdade como é isso.”

Bom, eu acho que é isso aí.

Um ponto de orgulho nacional

A Missão Emirates Hope coincidirá com o 50º aniversário dos Emirados como nação, o que provavelmente não é coincidência.

Em entrevista à SpaceflightNow, Omran Sharaf, gerente de projetos da EMM, disse que “a identidade da missão não tem a ver somente com os Emirados Árabes Unidos, mas também com o mundo árabe”.

A missão “deve inspirar os jovens árabes e enviar uma mensagem de esperança para eles, e uma mensagem que basicamente diz que, se um país como os Emirados Árabes Unidos consegue chegar a Marte em menos de 50 anos, então vocês podem fazer muito mais com a história que você tem, com o talento humano que você tem”, afirmou.

Uma expedição árabe a Marte indubitavelmente despertará um renovado sentimento de orgulho nacional, mas a missão, espera-se, também “inspirará as futuras gerações árabes a buscar a ciência espacial”, segundo o site da EMM. Além disso, uma “economia sustentável e preparada para o futuro é uma economia baseada no conhecimento”, escreve a Agência Espacial dos Emirados Árabes Unidos.

O investimento nos campos de STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), e na tecnologia espacial em particular, é uma jogada inteligente para os Emirados Árabes Unidos, especialmente considerando a queda nos preços do petróleo.

Uma órbita única para fazer ciência

Uma vez em Marte, Hope entrará em uma órbita equatorial única, acima do Planeta Vermelho. Movendo-se na mesma direção que a rotação do planeta, a sonda completará uma órbita única a cada 55 horas. Isso permitirá que os instrumentos da sonda olhem para um único alvo por períodos prolongados.

A jornada para Marte. Imagem: Agência Espacial dos Emirados Árabes Unidos

“O desejo de ver todos os terrenos a qualquer hora do dia acabou tornando a órbita muito grande e elíptica”, disse à BBC o cientista do LASP David Brain. “Ao fazer essas escolhas, poderemos, por exemplo, sobrevoar o Olympus Mons (o maior vulcão do Sistema Solar) à medida que ele se move em diferentes momentos do dia. E, em outras vezes, deixaremos Marte girar embaixo de nós”, diz Brain.

“Obteremos imagens de disco completas de Marte, mas nossa câmera possui filtros, por isso faremos pesquisas científicas com essas imagens — obtendo visualizações globais com diferentes lentes, explicando de outra forma.”

Opa, novas imagens do Olympus Mons? Mal podemos esperar.

O “primeiro satélite meteorológico de Marte”

Uma vez em órbita, a Hope estudará a atmosfera marciana em escala global. Os dados coletados pela sonda serão usados ​​para rastrear as mudanças influenciadas pelas estações do ano e à medida que o dia marciano se transforma em noite.

A sonda também será usada para estudar o hidrogênio e o oxigênio do planeta, que estão em processo de lixiviação para o espaço, ainda que em pequenas quantidades. A Hope estudará os padrões climáticos na atmosfera baixa e média para descobrir por que isso ocorre.

O satélite também deve responder perguntas sobre a história antiga de Marte e como este planeta, uma vez úmido e coberto por uma atmosfera espessa, tornou-se o local frio, seco e desolado de hoje.

Sendo um satélite climático, a sonda melhorará nosso entendimento sobre condições climáticas severas em Marte, incluindo torres de poeira gigantes e tempestades globais de poeira que aparecem de tempos em tempos, como a que encerrou a missão Opportunity em 2018.

“Somos o primeiro satélite climático de Marte”, explicou Sarah al-Amiri, vice-gerente de projetos da missão Hope, durante um webinar em junho. “As missões passadas apenas estudaram esporadicamente as condições atmosféricas, observando locais específicos em momentos específicos. É como se eu dissesse para você estudar a Terra em diferentes momentos do dia no Alasca, Londres e Emirados Árabes Unidos, e então pedisse para você formar uma imagem completa do tempo e do clima do planeta”, disse ela.

Em um nível conceitual mais amplo, o satélite Hope ajudará os cientistas que tentam avaliar a capacidade anterior ou atual do planeta de oferecer condições para a existência de vida. Além de refinar nosso senso de Marte como um sistema geológico, a sonda preparará os cientistas para uma futura missão tripulada ao Planeta Vermelho, de acordo com a Agência Espacial dos Emirados Árabes Unidos.

Três ferramentas para o trabalho

Para cumprir esses objetivos ambiciosos, a sonda Hope está equipada com três instrumentos científicos principais: uma câmera, um espectrômetro infravermelho e um espectrômetro ultravioleta.

Instrumentos da sonda Hope. Imagem: Agência Espacial dos Emirados Árabes Unidos

A câmera, chamada Emirates eXploration Imager (EXI), captura imagens de Marte em alta resolução, mede a profundidade do gelo de água na atmosfera e estuda a camada de ozônio marciano, entre outras coisas.

O espectrômetro infravermelho da Emirates Mars (EMIRS) fará a varredura da atmosfera marciana mais baixa na faixa de infravermelho, permitindo observações de poeira, nuvens de gelo e vapor de água. Este instrumento também pode medir a temperatura da superfície e da atmosfera baixa.

O espectrômetro ultravioleta Marte da Emirates (EMUS) será usado para medir a distribuição de monóxido de carbono, oxigênio e hidrogênio em várias altitudes e nas estações marcianas. Com esses dados, os cientistas compilarão um mapa tridimensional, mostrando a distribuição de oxigênio e hidrogênio na atmosfera.

A Hope deve melhorar drasticamente nossa compreensão do Planeta Vermelho, mas teremos que esperar até o início do próximo ano para que os dados comecem a chegar. Boa sorte para os Emirados Árabes Unidos enquanto a equipe se prepara para este lançamento histórico.