A Lua, nosso satélite natural, já foi e tem sido alvo de ambiciosas missões espaciais. Desde a primeira, a missão Apollo em 1969 até hoje, algumas questões ainda não têm resposta. Por esse motivo, o novo estudo publicado na revista Science Advances levanta uma discussão importante sobre se a Lua já teve um campo magnético ao longo da sua história de 4,53 bilhões de anos. 

Essa discussão é importante porque o campo magnético é o que protege a Terra da radiação vinda do Sol, por exemplo. No caso da Lua, no entanto, não há hoje um campo que a proteja. 

Com as primeiras pesquisas, acreditava-se que a Lua tinha um campo magnético tão forte ou até mais forte do que o campo magnético da Terra há cerca de 3,7 bilhões de anos, como explicou John Tarduno, professor de geofísica e reitor de pesquisa em Artes, Ciências e Engenharia na Universidade de Rochester.

O debate agora está contrapondo essa ideia, já que cientistas da Universidade de Rochester e uma equipe de outras instituições, relatam suas descobertas baseadas nas amostras coletadas durante a missão Apollo. Tarduno esclarece que a Lua tem um núcleo muito pequeno e seria difícil ter um campo magnético dessa forma. 

Os cientistas chegaram a essa conclusão quando submeteram as partes lunares coletadas a uma sessão de lasers de dióxido de carbono (CO2), que aqueceram por pouco tempo, o que foi determinante para evitar que houvesse alteração – Tarduno pontua os portadores magnéticos são muito suscetíveis a modificações. A partir disso, eles utilizaram um aparelho supersensível chamado magnetômetros que mede a direção e intensidade do campo magnético. 

Em algumas das partes coletadas havia sinais de magnetização, mas os pesquisadores atribuíram aos impactos causados por objetos como cometas e meteoritos. Outras amostras tinham grande potencial para a magnetização na presença de um campo magnético, mas não deram sinais. Os astrônomos entenderam então, que a Lua nunca teve um campo magnético de longa duração.

Tarduno disse que se houvesse um campo magnético, todas as amostras que estudaram deveriam ter adquirido magnetização. 

O campo magnético

O professor de geofísica é um grande estudioso do paleomagnetismo, a ciência que estuda o campo magnético das rochas. A Terra possui um campo magnético que tem origem de seu imenso núcleo. Funciona assim: um dos metais em abundância, o ferro em forma de líquido superaquecido dá origem a várias correntes elétricas, o que impulsiona um fenômeno chamado geodínamo. A partir disso, uma camada de força ao redor do planeta – o campo magnético – é gerada, e apesar de invisível, é vital para a nossa sobrevivência. 

No caso da Lua, o líquido presente no pequeno núcleo é insuficiente para conduzir um campo magnético dessa intensidade. Sem essa camada de proteção, o satélite estaria vulnerável a ventos solares, fluxo de partículas ionizadas impulsionadas por buracos no Sol. 

Isso explicaria a abundância de alguns elementos inconstantes como carbono, hidrogênio, água e hélio 3, um isótopo de hélio que não está presente em grandes quantidades na Terra. Tarduno fala que os dados da pesquisa indicam que há um limite para as estimativas de hélio 3, e que a grande quantidade encontrada na sua é muito maior do que o previsto anteriormente. 

Outro ponto da nova descoberta é que a falta de um campo magnético pode trazer registro das radiações solares anteriores, o que ajudaria os cientistas a entender melhor a progressão do Sol. 

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Tarduno também direciona sua pesquisa para base da futura missão lunar Artemis III, que levará humanos à Lua em 2024. De acordo com o professor. “com base em nossa pesquisa, os cientistas podem pensar com mais propriedade sobre o próximo conjunto de experimentos lunares a serem realizados”.

Entender a origem desses elementos abundantes na Lua também seria positivo para a vida na Terra, já que o hélio 3 é utilizado para em combustíveis – visto por alguns como a ‘energia limpa’ que tanto precisamos. A visionária China já está na corrida espacial por esse elemento. 

[Scientific American Brasil]