Um processo movido no ano passado contra o conselho de diretores da Alphabet com alegações de encobertar assédio sexual finalmente chegou ao fim. É um decisão que, como um advogado de um dos requerentes disse, “mudará fundamentalmente” como opera a companhia dona do Google — e, se tudo der certo, também mudará a forma como funcionários sênior operam.

De forma simplificada, a empresa concordou em reavaliar suas políticas, facilitando que funcionários possam denunciar casos de assédio e criando formas de evitar casos como os ocorridos no passado.

Um pouco de contexto

Vale relembrar um pouco o que aconteceu: em 2018, o New York Times publicou uma reportagem expondo detalhes de como o conselho de diretores recompensou altos funcionários da empresa, mesmo depois de serem acusados de assédio sexual.

O exemplo mais notório foi o de Andy Rubin, um dos criadores do Android e ex-vice-presidente sênior da plataforma no Google. Ele supostamente traiu sua esposa com funcionárias do Google. Em pelo menos um caso, houve pressão por relação sexual. Esta decisão, entre outras, faria com que ele fosse demitido. De fato, ele deixou a empresa, mas saiu com US$ 90 milhões de bônus.

Dois anos após o caso de Rubin ter sido varrido para debaixo do tapete, um funcionário do Google — no caso o chefe de buscas, Amit Singhal — foi forçado a deixar a companhia após alegações de assédio.

Além de não divulgar o motivo de sua saída, o Google pagou a Singhal dezenas de milhares de dólares como parte de seu pacote de saída. Quando as alegações contra ele se tornaram conhecidas, Singhal — que trabalhava como engenheiro na Uber — negou, mas a empresa de soluções de transporte o demitiu mesmo assim um mês após sua contratação ter sido anunciada.

Os funcionários do Google de várias partes do mundo reagiram às notícias desses pacotes de saída generosos com bastante raiva. Milhares de trabalhadores de 20 escritórios internacionais, inclusive no Brasil, deixaram de trabalhar por um tempo para protestar contra a tradição do conselho de pagar grandes quantias para assediadores, além da política obrigatória de arbitragem e as regras que impediam funcionários do Google de tornarem públicas essas histórias — tudo teria que ser resolvido a portas fechadas, dentro da própria empresa.

Os protestos e ondas de cobertura negativa que ocorreu na época levaram o Google a permitir que vítimas de assédio no local de trabalho pudessem se queixarem contra seus supostos abusadores na justiça.

Acionistas processaram a empresa

Estas mudanças não impediram um processo de acionistas da própria companhia contra o conselho de diretores. Eles alegaram que a gigante da tecnologia “violou seus deveres fiduciários” ao pagar estas altas quantias para executivos acusados de abuso e, posteriormente, ao se recusar a admitir que esses acobertamentos estavam ocorrendo.

“A participação ativa dos réus nesta cultura — que permitiram que eles priorizassem seus próprios interesses, e estes executivos poderosos da companhia, sobre suas obrigações legais — causou significativos danos à empresa”, diz o processo, antes de explicar que a repercussão negativa do caso fez com que as ações da companhia caíssem mais de 10%.

Agora, a Alphabet concordou em resolver este caso gastando bastante dinheiro. No entanto, como nota o New York Times, este acordo incomum não direciona o dinheiro para o bolso de acionistas. Em vez disso, a empresa investirá US$ 310 milhões na contratação e retenção de “talentos historicamente sub-representados” na próxima década.

Paralelamente, a vice-presidente de operações do Google, Eileen Naughton, anunciou em um blog post que a empresa vai reformular a maneira como lidar com essas denúncias no futuro, até mesmo criando um novo conselho consultivo para supervisionar essas questões.

“Nos últimos anos, temos adotado uma postura mais dura em relação a condutas inadequadas e temos trabalhado para fornecer melhor suporte às pessoas que as denunciam. Proteger nosso local de trabalho e cultura significa acertar as duas coisas e, nos últimos anos, temos trabalhado muito para definir e manter padrões mais elevados para toda a empresa”, escreveu Naughton. “Os últimos anos envolveram muita introspecção e trabalho para garantir que estamos oferecendo um local de trabalho para garantir que estamos oferecendo um local de trabalho seguro e inclusivo para todos os funcionários.”

“Sou grata a todos, especialmente nossos funcionários e acionistas, por nos fornecer feedback e por nos certificar de que a maneira como lidamos com essas questões vitais seja melhor hoje do que era no passado”, acrescentou ela. O Google já havia mostrado sua gratidão aos funcionários com feedback sobre questões vitais — mandando para o olho da rua.

O post explica que a Alphabet também vai expandir suas políticas anteriores que retinham indenizações rescisórias de pessoas que foram demitidas por “qualquer forma de má conduta”, acrescentando que a empresa “expandirá a proibição para qualquer pessoa que seja objeto de uma investigação pendente por conduta sexual imprópria ou retaliação”. Também está estipulado no acordo a formação de um conselho de diversidade, equidade e inclusão, dirigido em grande parte por especialistas externos.

Talvez o melhor resultado do acordo, no entanto, seja que o padrão de longa data de arbitragem forçada para casos de assédio, retaliação e discriminação tenha sido oficialmente retirado do manual de todas as muitas propriedades da Alphabet — não só o Google.

No fim das contas, terminou tudo bem para o Google. A quantia de US$ 310 milhões em uma década é uma ninharia para uma empresa que fatura US$ 46 bilhões anualmente. E como Daisuke Wakabayashi, repórter do New York Times e autor da primeira reportagem sobre o assunto, observou no Twitter, Larry Page “nunca teve que responder” por mandar Rubin embora com uma grande quantia de dinheiro. Ele provavelmente nunca o fará. Pelo menos há processos semelhantes ainda pendentes contra a Alphabet, tanto federalmente quanto no estado de Delaware, nos EUA.