Arqueólogos na Alemanha descobriram cerca de 400 artefatos que remontam a um massacre nazista em que centenas de trabalhadores forçados foram executados durante as fases finais da Segunda Guerra Mundial.

Os últimos estágios da Segunda Guerra Mundial na Europa englobaram algumas das piores atrocidades vistas durante todo o conflito, incluindo um episódio sombrio em que tropas alemãs foram ordenadas a atirar em 208 prisioneiros poloneses e soviéticos entre 20 e 23 de março de 1945. Os massacres ocorreram em três locais distintos na floresta de Arnsberg, em Vestefália, na Alemanha, todos eles sujeitos a uma nova investigação arqueológica liderada pela Landschaftsverband Westfalen-Lippe (LWL).

Entre as centenas de artefatos descobertos estavam sapatos, botões, um estojo de óculos, uma bíblia e uma gaita — as escassas mas provavelmente preciosas posses dos trabalhadores forçados. As descobertas “não só testemunham as últimas horas de vida dos assassinados, mas também fornecem informações sobre o curso dos atos cruéis”, de acordo com um comunicado de imprensa da LWL. Os resultados do trabalho foram apresentados em uma entrevista coletiva realizada em Warstein, no início do mês, conforme noticiado na Deutsche Welle.

O local do massacre perto de Suttrop logo após ter sido descoberto pelas forças aliadas em 1945. Um soldado americano pode ser visto de pé, de guarda, no canto direito. Imagem: Arquivos Nacionais e Administração de Documentos, Washington

Os soldados e oficiais alemães que cometeram o massacre eram membros da Divisão de Represálias, um nome que fala por si. Com o resultado da guerra quase certo, e enquanto as forças alemãs estavam se retirando em duas grandes frentes, a liderança nazista trabalhou ativamente para evitar que o maior número possível de prisioneiros de guerra e trabalhadores forçados caísse nas mãos dos Aliados, além de tentar encobrir os vários crimes cometidos pelos nazistas durante a guerra. O regime de Hitler usou mais de 13 milhões de estrangeiros como trabalhadores forçados durante o conflito de seis anos.

Durante o massacre na floresta de Arnsberg, em março de 1945, membros das Waffen-SS e do exército alemão (o Wehrmacht), sob ordens de Hans Kammler, general das Waffen-SS, executaram sumariamente 208 poloneses e soviéticos fora dos campos de concentração e prisões, segundo a LWL, que o descreveu como “um dos maiores crimes nas fases finais da guerra na Alemanha”. A guerra na Europa terminou menos de dois meses depois, em 8 de maio de 1945. Até hoje, apenas 14 das vítimas foram identificadas.

Dois dos três locais foram descobertos pelas tropas americanas logo após o massacre. Os cadáveres foram exumados e alinhados, e membros das comunidades vizinhas foram levados ao local e forçados a testemunhar as atrocidades nazistas, relatou a LWL. Os corpos foram então enterrados no Cemitério Fulmecke, em Meschede. O terceiro local só foi descoberto em 1946, quando um informante anônimo alertou as forças de ocupação britânicas. Esses restos mortais foram exumados e enterrados ao lado das outras vítimas do massacre no mesmo cemitério em 1947.

Esses relatos históricos estão bem documentados, mas sabe-se menos sobre as vítimas em si. O trabalho recente nos três locais, que começou no ano passado e terminou em janeiro passado, está lançando uma nova luz sobre esse triste episódio e seus envolvidos.

Joias, pérolas, sapatos e tigelas encontradas em Warstein-Langenback. Imagem: LWL/Thomas Poggel

“As inspeções com detectores de metais e as escavações arqueológicas seguintes … forneceram mais informações sobre as cenas do crime, com um grande número de descobertas”, disse o arqueólogo da LWL Manuel Zeiler, em um comunicado de imprensa. “Essas pesquisas interdisciplinares e sistemáticas têm sido únicas em até agora em cenas de crime nazistas na Alemanha.”

Um dos três locais está em Langenbach, perto da cidade de Warstein. Lá, 71 pessoas foram mortas, incluindo 60 mulheres, uma criança e dez homens. Sob um falso pretexto, os trabalhadores foram levados para a orla da floresta e instruídos a deixar temporariamente seus pertences na beira da estrada. Eles foram então levados para a floresta e fuzilados. As roupas dos trabalhadores foram distribuídas aos cidadãos alemães próximos, e seu dinheiro foi embolsado pela Divisão de Represálias. Durante as escavações, os arqueólogos encontraram o que não foi levado — um livro de oração, um dicionário polonês, sapatos, peças de roupa, botões coloridos e contas de costura. Alguns objetos de cozinha, como utensílios, panelas e talheres, também foram encontrados.

Como o comunicado de imprensa da LWL também apontou, os arqueólogos descobriram ainda sinais dos próprios criminosos:

Os estojos de cartuchos encontrados provam que os trabalhadores forçados foram levados para uma encosta de um riacho e abatidos lá. No entanto, alguns dos projéteis também foram espalhados na floresta ao redor, o que significa que alguns dos trabalhadores forçados aparentemente tentaram escapar e foram executados. Os assassinos também deixaram para trás pás com as quais enterraram cadáveres e pertences.

Em um segundo local de massacre, em Suttrop, perto de Warstein, os alemães fizeram um trabalho melhor cobrindo seus rastros, mas os pesquisadores ainda conseguiram encontrar cerca de 50 itens. Como uma artimanha, os trabalhos forçados foram convidados a cavar trincheiras em forma de ziguezague para o exército, mas na realidade eles estavam cavando suas sepulturas. Os 57 trabalhadores foram instruídos a entrar nas trincheiras, onde foram fuzilados e enterrados.

Alguns dos artefatos descobertos no local de Meschede. Imagem: LWL/Thomas Poggel

No terceiro local, em Eversberg, perto da cidade de Meschede, foram encontrados uma gaita, um estojo de óculos, moedas soviéticas, um pente e uma colher. Os soldados alemães usaram granadas para explodir um poço, dentro do qual os trabalhadores foram baleados. Mais tarde, seus corpos foram escondidos sob um cercado de vacas, sendo descobertos em 1946 após a denúncia do informante.

“A LWL assume conscientemente uma responsabilidade social com sua pesquisa”, disse o diretor do órgão, Matthias Löb, em um comunicado. “Temos vivido a banalização e a crescente negação dos crimes da Segunda Guerra Mundial e da ditadura nazista há vários anos, mas os assassinatos são um exemplo dessa parte da nossa história que temos que enfrentar.”

De fato, o trabalho arqueológico que remonta à Segunda Guerra Mundial nunca pareceu tão urgente. Descobertas como essa servem como um lembrete sombrio do que nunca mais deveria acontecer.

[Landschaftsverband Westfalen-Lippe via DW]