Arqueólogos na Grã-Bretanha descobriram evidências de galinhas e lebres marrons que foram enterradas totalmente intactas e com muito cuidado nos séculos. Esses restos mortais antecedem o período romano. É mais uma evidência de que esses animais, que acabariam se tornando alimentos básicos importantes, já foram associados a deuses.

Quando as primeiras galinhas e lebres marrons chegaram à Grã-Bretanha, entre 2.300 e 2.200 anos atrás, elas não foram trazidas como alimento. Pelo contrário: elas eram tratadas como objetos espirituais, de acordo com uma pesquisa liderada por Naomi Sykes, da Universidade de Exeter. Este projeto de pesquisa, que também envolve cientistas das Universidades de Leicester e Oxford, é uma investigação sobre como os animais, incluindo galinhas e coelhos, eram associados às festividades da Páscoa.

Inicialmente, “eles não eram liberados na natureza ou criados em fazendas, pelo menos não por várias centenas de anos”, disse Sykes ao Gizmodo, acrescentando que galinhas e lebres marrons foram introduzidas como “espécies exóticas especiais”. Somente mais tarde, durante o período romano que se seguiu, o caráter de novidade destes animais tinha se esgotado e eles foram vistos como refeições saborosas para serem servidas no jantar.

As datas de radiocarbono recém-coletadas de espécimes enterrados mostram que lebres marrons e galinhas foram inicialmente trazidas para a Grã-Bretanha durante a Idade do Ferro, entre os séculos 5 e 3 a.C. Mais tarde, durante o período romano (43 d.C. a 410 d.C), coelhos foram introduzidos na Grã-Bretanha e galinhas e lebres marrons começaram a ser criados e comidos, disse Sykes.

A análise de vários espécimes encontrados nas fortalezas de colinas e nos centros de grandes colônias da Idade do Ferro mostrou que os britânicos enterravam suas galinhas e lebres com cuidado.

“Acreditamos que eles foram enterrados com cuidado porque, na Idade do Ferro, encontramos esqueletos completos — isso é incomum, a menos que os animais tenham sido cuidadosamente enterrados”, disse Sykes ao Gizmodo. “Normalmente encontramos ossos desarticulados.”

É um bom caso em que as evidências arqueológicas combinam com registros históricos.

Em seu relato das Guerras Gálicas, o imperador romano Júlio César fez uma anotação sobre esse comportamento, escrevendo que os “bretões consideram contrário à lei divina comer lebre, galinha ou ganso. Eles os criam, no entanto, para sua própria diversão e prazer. ” Anos mais tarde, o historiador romano Dião Cássio descreveu as ações da rainha Boadiceia, que liderou uma revolta contra os invasores romanos em 60/61 dC. Apelando a Andraste, a deusa guerreira da Grã-Bretanha celta, Boadiceia soltou uma lebre viva na esperança de obter uma vitória divinamente ordenada.

Em um comunicado da Universidade de Exeter, Sykes descreveu o fascínio dos primeiros britânicos por esses animais agora mundanos:

A ideia de que galinhas e lebres inicialmente tinham associações religiosas não é surpreendente, pois estudos transculturais mostraram que coisas e animais exóticos geralmente recebem status sobrenatural. Relatos históricos sugerem que galinhas e lebres eram muito especiais para serem comidas e, em vez disso, foram associadas a divindades — galinhas com um deus da Idade do Ferro semelhante a Mercúrio e lebres com uma deusa lebre desconhecida. A associação religiosa de lebres e galinhas resistiu a todo o período romano.

No fim das contas, no entanto, à medida que o período romano progredia, os bretões começaram a se deliciar com esses animais. Como Sykes explicou ao Gizmodo, muito disso tinha a ver com o grande tamanho do rebanho de gado.

“Quando uma espécie é rara, é vista como especial, mas à medida que o número cresce, elas se tornam mais comuns e mundanas. Como diz o ditado, ‘familiaridade gera desprezo'”, disse ela.

Mas esses novos hábitos alimentares foram interrompidos quando os romanos saíram da Grã-Bretanha em 410 d.C. — um movimento que causou uma turbulência econômica substancial. As populações de galinhas e lebres marrons despencaram, enquanto os coelhos desapareceram completamente, segundo os pesquisadores.

Mais uma vez, tornou-se tabu comer esses animais, mas as coisas mudaram devido a São Bento, que no século 6 tornou ilegal consumir animais de quatro patas durante períodos de jejum, incluindo a Quaresma. Com o tempo, essa prática tornaria comum o consumo de galinhas e ovos na época medieval. Quanto aos coelhos, eles voltaram à moda durante o século 13, mas sua associação com a Páscoa não aconteceu até o século 19 e o período vitoriano.

Esta pesquisa é interessante porque fornece insights sobre as mentes dos bretões antigos, que tiveram uma resposta aparentemente razoável à introdução de novas criaturas. Optar por não comer um organismo desconhecido parece uma abordagem perfeitamente sensata.

Sykes e seus colegas publicarão esta pesquisa em uma revista e ela será revisada por pares nos próximos meses.