A China e a Wikipedia sempre tiveram um relacionamento conturbado, e parece que as autoridades estão começando a perceber que, se não permitirem o acesso ao site, terão que fazer a própria enciclopédia online. E o líder desse novo projeto diz que “o objetivo não é alcançá-los, mas ultrapassá-los”.

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Da reportagem do South China Morning Post:

“A Chinese Encyclopaedia não é um livro, é a Muralha da China da cultura”, disse Yang Muzhi, editor-chefe do projeto e presidente da Associação Chinesa de Distribuição de Livros e Periódicos. O comentário foi realizado para cientistas num encontro na sede da Academia China de Ciências em Pequim, no dia 12 de abril, de acordo com uma reportagem publicada no site da academia no dia seguinte.

Esse novo projeto online será a terceira edição da Chinese Encyclopaedia e, de longe, sua maior versão até o momento. Mais de 20 mil autores de universidades e institutos de pesquisa estão trabalhando para armazenar publicações de mais de 300 mil artigos relacionados a mais de 100 disciplinas. A expectativa é que o produto final tenha o dobro do tamanho da Encyclopedia Brittanica e o mesmo nível da Wikipedia em língua chinesa, que atualmente possui 938 mil itens.

O problema da Wikipedia da China apresenta um paradoxo de um país que tem a ambição de estar no pioneirismo da tecnologia e ciência, mas ainda quer manter controle sobre as informações às quais seus cidadãos possuem acesso. O comentário de Yang que afirma que sua enciclopédia será uma “Muralha da China da cultura” ecoa a sensação da “Grande Barreira” que limita as áreas da web em que os chineses são permitidos utilizar.

As limitações à Wikipedia flutuam na China dependendo do atual clima político, bem como de alterações que o próprio site realiza. Em 2015, a Wikipedia mudou para o protocolo criptografado HTTPS, tornando mais difícil para o governo chinês bloquear páginas individuais. As autoridades então bloquearam apenas a versão em idioma chinês do site e depois todas as versões. De acordo com o South China Morning Post, atualmente “o acesso à Wikipedia é irregular no país […] A maioria dos itens sobre ciência e tecnologia podem ser lidos, mas uma pesquisa por palavras-chave sensíveis como “Dalai Lama” e “Xi Jinping” resultarão na perda de conexão com o servidor”.

Sites como o Baidu Baike e Baike.com são wikis de enciclopédia online privados, que aceitam conteúdo gerado por usuários, mas que também censuram conteúdos que violam a regulamentação governamental. Isso fez com que muitos cidadãos chineses considerassem esses serviços apenas como outro braço da mídia estatal.

Não parece que o novo projeto será uma wiki, de primeiro momento. Mas é interessante que as autoridades estejam acordando para a necessidade de uma fonte de informações fácil e exata. Pesquisadores dizem que o projeto foi iniciado em 2011, mas a decisão da Encyclopaedia Britannica de cessar a publicação de sua versão impressa causou dúvidas na viabilidade do desenvolvimento da enciclopédia nos modelos antigos. Isso levou a uma maior abertura em relação às abordagens do século XXI. O professor Huang Annian, historiador que hoje está nos Estados Unidos e um dos acadêmicos envolvidos no projeto, escreveu uma carta para o conselho editorial, insistindo sobre a necessidade de se avançar, afirmando que o “antigo quadro político” deve ser abandonado.

Como editor-chefe, Yang terá que defender a liberalização da censura e possivelmente permitir contribuições de outras pessoas caso ele queira alcançar seu objetivo. No ano passado, ele argumentou num jornal local que a Wikipedia seria uma competidora forte. “Os leitores consideram que o serviço tem autoridade, é preciso e se intitula como uma ‘enciclopédia livre, que qualquer pessoa pode editar’, o que é algo bastante enfeitiçado.”

Por enquanto, Yang aponta para a alta qualidade da sua equipe de autores como um argumento de venda. É bem provável que os líderes da Wikipedia não estejam muito preocupados com o novo rival, no entanto. E se a verdadeira enciclopédia livre tem inspirado mais informações abertas, sua missão está sendo muito bem realizada.

[South China Morning Post via Vice News]

Imagem do topo: Getty, Wikipedia