O preço do bitcoin foi ladeira a baixo, despencando mais de 7% no início da sexta-feira (24). Não, dessa vez, não tem nada a ver com um tweet de Elon Musk ou algo do tipo. O culpado é um documento assinado pelo Banco Central da China e outras 10 entidades governamentais, que anunciou o banimento de criptomoedas no país. Basicamente, o que o governo fez é tornar ilegais as transações envolvendo bitcoins e derivados. Isso afeta tanto o comércio como a própria a venda de tokens.

O argumento para justificar a proibição? O uso de bitcoins (e a volatilidade de preço característica da moeda) estaria aumentando a ocorrência de uma série de crimes financeiros, como “lavagem de dinheiro, enriquecimento ilegal, fraudes, esquemas de pirâmide e outras atividades ilegais”, nas palavras do BC chin:ês.

Já faz tempo que a vida de entusiastas da criptomoeda no país vinha sendo dificultada pelo governo. A primeira ofensiva pesada contra o setor veio ainda em 2013. Foi quando o país proibiu instituições financeiras chinesas de lidar com transações de bitcoin. Em 2017, a China passou a impedir corretoras de criptoativos de atuar em seu território. Desde então, ficou mais difícil, também, trocar bitcoins por dinheiro convencional.

Depois dessa série de proibições, autoridades chinesas passaram a fechar o cerco também contra as mineradoras de criptomoedas. O argumento, aqui, é a necessidade pela redução de emissão de carbono. Os supercomputadores usados para minerar criptomoedas, afinal, consomem energia como ninguém. E a China, sozinha, já chegou a concentrar 75% da capacidade global de mineração da moeda digital em 2019. Emabril de 2021, esse total já havia despencado para 46%.

Províncias mais pobres e distantes do centro econômico do país, como Xinjiang, Sichuan e Yunnan e a Mongólia Interior (que é parte da China, apesar do nome) se tornaram centros desse trabalho. Tudo porque, por lá, os custos da energia são bem mais baratos. O problema é que a matriz energética chinesa é muito poluente. 57% da energia consumida no país vem de usinas a carvão — altamente poluentes. A crise de energia já vem afetando a distribuição ao setor industrial do país.

Outro obstáculo estão nas metas ambientais. A China tem planos de reduzir suas emissões de carbono em 65% até 2030 – em comparação aos níveis de 2005. Até 2060, o objetivo é zerar de vez, com a China compensando tudo o que emite. Para que isso permaneça sendo uma possibilidade, era natural que bitcoins e outras criptomoedas se tornassem os vilões mais óbvios.

A partir de maio de 2021, teve início um verdadeiro êxodo de mineradores. Vários deles desligaram suas estações na China e passaram a migrar para países vizinhos, como o Cazaquistão. Em junho deste ano, um golpe ainda mais certeiro veio. O Banco Central chinês passou a obrigar bancos e outras instituições financeiras a pararem de processar transferências com moedas digitais.

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O comércio de criptomoedas foi oficialmente proibido na China desde 2019, mas continuou de forma clandestina no ambiente on-line e por meio de bolsas estrangeiras. Com a proibição anunciada nesta sexta-feira, cidadãos também não poderão acessar o serviço dessa maneira.

Apesar de os argumentos do Estado chinês sempre focarem nos riscos crimes e fraudes (possibilitados pelo anonimato que a blockchain dá aos usuários), esse papo não cola para muita gente. O que os defensores da economia descentralizada argumentam é que o uso das criptomoedas e outras formas alternativas de pagamento fogem do controle estatal, ameaçando a soberania do Estado chinês. Aplicativos e serviços financeiros privados não permitem que o governo fiscalize tão de perto as transações (e os dados) de seus cidadãos.

As motivações práticas por trás do banimento, assim, seriam nada além de “desculpas” para justificar a retomada do controle. Soma-se tudo isso ao fato de a China estar testando e planejando o lançamento de uma criptomoeda nacional nos próximos meses — que, sem dúvidas, teria sua vida facilitada com as concorrentes fora do caminho.