Pesquisadores chineses clonaram cinco macacos geneticamente modificados com uma série de sintomas de doenças genéticas, de acordo com dois periódicos científicos publicados nesta quarta-feira (23).

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Os pesquisadores dizem que querem usar os macacos editados geneticamente para pesquisa biomédica; basicamente, eles esperam que modificar os primatas doentes reduza o número total de macacos usados em pesquisa em todo o mundo. Mas seu experimento é um campo minado de dilemas éticos — e faz você se perguntar se os benefícios potenciais para a ciência são suficientes para fazer valerem a pena todos os danos a esses macacos.

Os pesquisadores começaram usando CRISPR-Cas9 para alterar o DNA de um macaco doador. O CRISPR-Cas9 é a ferramenta de edição de genes frequentemente discutida, derivada de bactérias, que combina sequências repetidas de DNA e uma enzima de corte de DNA para personalizar sequências de DNA. Especialistas e a imprensa a anunciaram como um avanço importante devido à rapidez e ao baixo custo com que pode alterar o DNA, mas pesquisas recentes mostraram que ela pode causar mais efeitos indesejados do que se pensava anteriormente.

Neste experimento, os pesquisadores desligaram um gene chamado BMAL-1, que é parcialmente responsável pelo ritmo circadiano. Macacos com esse gene desligado demonstram aumento de ansiedade e depressão, redução do tempo de sono e até mesmo “comportamentos parecidos com a esquizofrenia”, de acordo com um comunicado da Science China Press. A interrupção do ritmo circadiano tem sido até mesmo ligada ao diabetes e ao câncer.

Em seguida, a equipe transferiu os núcleos das células de tecidos do macaco doador para um óvulo, a fim de criar os clones. O resultado foi cinco macacos clonados, todos eles exibindo sintomas da doença genética introduzida no macaco doador. Os cientistas descreveram os seus resultados em um par de artigos publicado na National Science Review.

Mas por quê? Os pesquisadores esperavam gerar organismos modelo personalizados mais próximos dos humanos, com o objetivo de compreender e encontrar curas potenciais para doenças genéticas, incluindo doenças do cérebro, câncer e outras condições, disse em um comunicado Hung-Chun Chang, autor sênior e investigador do Instituto de Neurociência da Academia Chinesa de Ciências. Ao criarem animais idênticos, talvez pudessem localizar causas e curas mais rapidamente.

Essa pesquisa reúne uma série de questões éticas em um único pacote, desde os direitos dos animais em torno da clonagem até a edição genética. Como a bioética Carolyn Neuhaus, do Hastings Center, resumiu em sua reação ao anúncio: “Uau, isto é bizarro”.

“Está muito claro que esses macacos são vistos como ferramentas”, explicou. A equipe de cientistas por trás do novo anúncio exalta o sofrimento dos macacos — ansiedade, depressão e “comportamentos esquizofrênicos” — como um sucesso. Ela apontou que os pesquisadores não tinham hipóteses científicas ou tratamento que estivessem tentando provar ou refutar e que, em vez disso, eles estavam basicamente apenas tentando ver o que aconteceria se eles modificassem um gene crucial. É como apagar um arquivo criptografado da pasta do sistema do seu computador só para ver o que vai acontecer.

Além disso, esses macacos podem parecer estar mostrando comportamentos que parecem análogos a doenças humanas, mas a comparação entre macacos e humanos termina em algum momento. É possível que desligar o gene BMAL-1 tenha efeitos diferentes em humanos. E, por fim, o DNA idêntico dos macacos pode ser uma fraqueza. Os humanos exibem muitas diferenças genéticas, portanto, uma cura que funciona para macacos idênticos pode não funcionar quando apresentada aos genomas humanos muito mais bagunçados.

Isso não quer dizer que não devemos editar geneticamente macacos, disse Neuhaus. Porém, diz ela, “se eu estivesse em um comitê de ética, hesitaria muito em aprovar (essa pesquisa), por causa da incrível quantidade de danos aos animais. Eu esperaria que os cientistas que estão propondo essa pesquisa tivessem respostas muito boas para perguntas muito difíceis sobre seus métodos e os benefícios esperados de sua pesquisa”.

O Gizmodo entrou em contato com Chang para falar sobre esses questionamentos éticos, mas ele não respondeu até o momento da publicação desta nota. Atualizaremos se tivermos alguma resposta.

As coisas estão avançando rapidamente nos campos da clonagem e da edição genética. Cientistas chineses (incluindo alguns pesquisadores por trás desse próprio trabalho) anunciaram o nascimento dos primeiros macacos clonados quase um ano atrás, e acenamos para a possibilidade de que esse possa ser o uso potencial dos macacos clonados. A técnica CRISPR já está sendo usada em pessoas, e o cientista chinês He Jiankui recentemente alegou ter produzido os primeiros bebês humanos geneticamente modificados, desencadeando a revolta de vários cientistas. O governo chinês afirmou que Jiankui infringiu a lei.

Os cientistas já estão discutindo a ética da edição genética em humanos, e alguns cautelosamente concordaram que é “moralmente permissível” modificar geneticamente bebês em alguns casos. Novas tecnologias sempre trazem consigo questões éticas, mas o princípio de que os potenciais benefícios devam pesar mais que os prejuízos não é novo. Nesse caso mais recente, não está nada claro se a pesquisa atende esse requisito básico.