Abandonar a carne não é fácil. Falo isso por experiência própria: comi um bolonhesa no almoço ontem e depois ainda mandei para dentro algumas asas de frango. Mas, infelizmente, a indústria de carne é uma fonte crescente de poluição de carbono, e continuar a permitir que seu consumo continue crescendo pode gastar uma grande parte do limite mundial de carbono até 2030. Então, bem, precisamos parar com aquele churrasco com a galera.

Cientistas de todo o mundo estão pedindo aos países de renda média e alta para estabelecer um prazo-limite para o crescimento da indústria de carne. Em uma carta publicada no Lancet Planetary Health Journal na quarta-feira (11), os pesquisadores destacam o papel que a indústria pecuária deve desempenhar para cumprir as promessas estabelecidas no Acordo de Paris, que está sendo discutido pelos líderes mundiais em Madri no momento.

No Acordo de Paris, os governos concordarem em limitar o aquecimento global a não mais de 2°C e mantê-lo abaixo de 1,5°C, se possível. Para fazer isso, o mundo precisará reduzir as emissões rapidamente nesta década. Isso significa abandonar os negócios a que estamos habituados.

E para o setor pecuário será crucial nisso. As emissões provenientes da criação de animais correspondem a 14,5% de toda a poluição de gases de efeito estufa no mundo. O consumo de carne aumentou globalmente, com a China contribuindo para grande parte do crescimento mais recente (assim como o Brasil, em menor grau). Se o mundo continuar nesse caminho, as emissões do gado consumirão quase metade do limite mundial de carbono até 2030.

É por isso que a carta pede aos líderes governamentais de países de renda média e alta, como os EUA e a China, que estabeleçam um cronograma para o “limite do gado”, um ponto a partir do qual a produção de certas espécies de animais não poderia aumentar.

A partir daí, os países precisam reduzir as emissões desse setor, identificando as maiores fontes, as empresas que utilizam mais terras, ou ambas. O que pode ser mais desafiador, no entanto, é descobrir como mudar o setor de alimentos da carne e buscar alimentos mais ecológicos. Estou falando de feijão, frutas, legumes e sementes.

Esse tipo de transformação social não será simples, mas os autores argumentam que é necessário. Isso não significa parar de vez de comer hambúrguer. Esta carta não está tentando envergonhar publicamente os consumidores por suas escolhas nas refeições. É sobre mudanças sistêmicas, disse ao Gizmodo a autora Helen Harwatt, cientista social ambiental do Programa de Direito e Política Animal da Universidade de Harvard.

“Acho que [ações individuais] ajudarão a mudar os mercados, geralmente via sinalização, e isso é uma ação positiva”, escreveu ela, “mas para alcançar uma transformação profunda da agricultura, precisamos de mudanças no nível do sistema, e isso exige que os formuladores de políticas ajam”.

Os especialistas em clima têm dado mais e mais atenção a esse setor em particular e já começam a imaginar como seria uma dieta em um planeta mais quente. Empresas de fast-food como Dunkin Donuts e Burger King estão até incorporando “carnes” feitas de proteína vegetal em seus menus, mostrando que essa também é uma decisão de negócios, além de uma questão ambiental.

A realidade é, porém, que precisamos fazer mais do que mudar o que compramos no supermercado ou comer no café da manhã. Quem está no poder precisa fazer a transição do setor agrícola para um modelo mais sustentável que não use grandes extensões de solo, nem envie a poluição para as cursos d’água ​​e muito menos emita gases nocivos do efeito estufa.

Caso contrário, corremos o risco de ter que enfrentar “[consequências] potencialmente catastróficas, dependendo de quanto a temperatura subir, como os ecossistemas vão reagir a esse aumento e como essas duas coisas vão interagir entre si”, disse Harwatt. Em resumo, estaremos lascados se os líderes não se empenharem nessa tarefa.