Pesquisadores dizem ter encontrado uma maneira de criar células de gordura mais úteis usando a técnica de edição de genes conhecida como Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas (CRISPR, na sigla em inglês). Em um novo estudo divulgado na última quarta-feira (26), os cientistas encontraram evidências em ratos de laboratório de que estas células modificadas podem ajudar o corpo a queimar calorias mais rapidamente, além de prevenir a obesidade e outros problemas metabólicos. Isso em comparação com as células de gordura mais comuns encontradas no corpo humano.Mas as descobertas ainda estão longe de serem aplicadas em seres humanos.

Yu-Hua Tseng, pesquisadora especializada em diabetes que atua na Escola de Medicina de Harvard, tem estudado há anos a formação das células de gordura, focando na diferença entre as chamadas células de gordura branca e marrom (a cor marrom vem de uma maior concentração de mitocôndrias, que possuem muito ferro). O principal objetivo das células de gordura branca é armazenar energia dos alimentos, enquanto as células marrons são usadas como uma forma de manter a temperatura do corpo estável, em especial no frio.



Cientistas como a pesquisadora Tseng mostraram que as células de gordura marrom, em comparação com as células brancas, são melhores em quebrar os nutrientes que processam. Contudo, a maior parte da gordura do corpo é branca, não marrom, e muitas pessoas possuem uma superabundância de gordura corporal, levando a problemas de saúde como obesidade e diabetes tipo 2. Como resultado, Tseng e sua equipe teorizam que, se encontrarmos uma maneira segura de tornar os glóbulos brancos de gordura mais marrons, isso deve ajudar a tratar ou prevenir a obesidade.

Neste novo estudo, publicado na Science Translational Medicine, Tseng e os demais cientistas parecem ter identificado uma alternativa para solucionar o problema. Com a ajuda de CRISPR, eles fizeram alterações nos glóbulos brancos precursores da gordura humana. As mudanças permitiram que as células de gordura branca expressassem uma proteína chamada termogenina (ou proteína desacopladora 1, no inglês Uncoupling Protein 1), que geralmente é produzida pelas células marrons e considerada a chave para sua capacidade aprimorada de queimar energia.

Em seguida, os pesquisadores transplantaram essas células humanas marrons – de codinome HUMBLE – em ratos obesos alimentados com uma dieta rica em gordura. Um segundo grupo de ratos recebeu glóbulos brancos por transplante. E um terceiro e último grupo de camundongos teve células de gordura marrom transplantadas. A partir daí, os três grupos passaram a ser comparados.

Tseng e sua equipe descobriram que os ratos do primeiro grupo, que receberam as células HUMBLE, se saíram melhor do que os ratos com células de gordura branca, o grupo dois, e dos ratos com células de gordura marrom, do terceiro grupo. A estrutura interna das células HUMBLE também se assemelhou às células de gordura marrom, principalmente no que diz respeito às mitocôndrias.

“Estas células são capazes de limpar sua glicose muito mais rápido e responder melhor à insulina. E em termos de ganho de peso, podem ganhar menos gordura em comparação com os ratos que não receberam as células. Tudo isso significa uma melhora no metabolismo dos camundongos”, disse Tseng em entrevista por telefone.

Próximos passos

Esses experimentos são uma prova teórica para pesquisadores como Tseng, e não algo que será testado em humanos em ensaios clínicos nos próximos meses. Só agora estamos começando a ver os primeiros ensaios da técnica CRISPR em pessoas com câncer e distrofia muscular, embora os resultados até agora tenham sido encorajadores.

Existem limitações inerentes à abordagem que Tseng e sua equipe usaram neste estudo. Por exemplo, os ratos foram imunocomprometidos para garantir que as células humanas seriam aceitas sem nenhum problema. As células também foram cultivadas a partir de linhagens celulares de apenas duas pessoas. É possível que um sistema imunológico nativo possa afetar o funcionamento das células HUMBLE, da mesma maneira que aconteceria na coleta dessas células em um grande número de pessoas.

No entanto, ao criar as células com sucesso e estudar como elas tornaram os ratos mais saudáveis, Tseng afirma que chegaremos muito mais perto de encontrar uma maneira eficaz de ajudar as pessoas a reduzir ou prevenir a obesidade. Isso pode acontecer pela engenharia genética ou por meio de uma droga que pode imitar seus efeitos nas células de gordura branca. Enquanto isso, neste estudo a equipe de cientistas encontrou evidências de que as células HUMBLE aumentam a produção de óxido nítrico no sangue, que por sua vez pode ativar as células de gordura marrom nativas em outras partes do corpo (em outra pesquisa, a produção reduzida de óxido nítrico foi associada a obesidade).

Além de estudar as células HUMBLE em laboratório, Tseng procura colaborar com pesquisadores e médicos de outras áreas. “Para podermos aplicar essa técnica aos pacientes algum dia, precisamos de uma equipe com experiência diversificada. E certamente não posso fazer isso sozinha. Espero que, eventualmente, nosso estudo possa beneficiar os pacientes”, concluiu.