Muito antes do lançamento dos descolados veículos da Tesla, já existiam carros elétricos rodando pelas cidades brasileiras. Na verdade, essa história é mais antiga do que muitos imaginam, remontando há mais de 100 anos.

Vale lembrar que foram os franceses Charles Jeantaud, Gustave Trouvé e Nicolas Ruffard que desenvolveram os primeiros carros movidos a baterias elétricas, isso no ano de 1880 — antes mesmo da Proclamação da República e da Abolição da Escravatura no Brasil. Inclusive, o primeiro carro a ultrapassar os 100 km/h foi um veículo elétrico, desenvolvido pelo belga Camille Jenatzy, em 1899.

Parecendo um torpedo, mas nada aerodinâmico, o elétrico “La Jamais Contente” foi o primeiro carro a ultrapassar os 100 km/h.
Parecendo um torpedo, o elétrico “La Jamais Contente” foi o primeiro carro a ultrapassar os 100 km/h. Porém, o motorista e o chassi atrapalhavam a aerodinâmica do veículo.

Nos Estados Unidos, por exemplo, os automóveis elétricos viraram febre por volta de 1905. Como destaca a revista Época, Clara Ford, a esposa de Henry — o fundador da Ford –, por exemplo, utilizava um carro movido a baterias.

Carros elétricos no Brasil

Os primeiros veículos do tipo apareceram por aqui ainda no início do século passado. No ano de 1912, haviam 11 automóveis elétricos registrados na cidade do Rio de Janeiro (então capital do Brasil).

Naquela época, já existiam na cidade carioca revendedoras especializadas em automóveis elétricos importados, como a Ita Garage, representante da Detroit Electric, uma das marcas mais famosas de carros elétricos no início do século 20.

Folhetos apresentavam o "moderno" carro elétrico Milburn". Inclusive, a empresa dizia que até crianças poderia dirigí-lo.
Folhetos apresentavam o “moderno” carro elétrico Milburn. Inclusive, a empresa dizia que até crianças poderiam dirigi-lo.

A revendedora prometia carros com velocidade máxima de 40 km/h, autonomia de 144 km e baterias que duravam quatro anos. Eles eram conhecidos pela facilidade de operar, além do fato de serem silenciosos. A Ita Garage oferecia o serviço de buscar o carro elétrico à noite para recarregar as baterias e devolver o veículo ao cliente na manhã seguinte.

Durante a década de 1920, carros elétricos de pelo menos cinco fabricantes diferentes transitavam pelas ruas do Rio. Porém, como apontou o site Motor1, eles foram caindo em desuso com a adoção dos veículos movidos à gasolina, principalmente após a popularização do motor de arranque.

Veículo elétrico made in Brazil

O primeiro carro elétrico brasileiro que se tem notícia foi o construído pelo inventor Mauricio Lorencini. Em uma oficina na cidade de Jundiaí, no interior de São Paulo, ele criou o projeto com a ajuda de um mecânico para criar o que ele chamou de “carro do futuro”, em 1965.

Para isso, ele utilizou um chassi e rodas do Modelo A, da Ford, mas com um motor elétrico ligado ao câmbio. Para reduzir o peso o veículo, ele não tinha carroceria e utilizava baterias convencionais de chumbo-ácido, o que garantia alcançar os 70 km/h.

O inventor chegou a prever o fim da transmissão convencional e a instalação de um motor elétrico em cada roda traseira. Ele desejava produzir o veículo em série, mas acabou sendo derrotado pela indústria do petróleo. O carro elétrico de Lorencini nunca saiu do estágio de protótipo.

O carro do futuro do jundiaiesene Mauricio Lorencini
O “carro do futuro”, desenvolvido pelo jundiaiense Mauricio Lorencini

A curta história dos carros elétricos da Gurgel

A empresa Gurgel, do engenheiro paulista João Augusto Conrado do Amaral Gurgel, foi a primeira a produzir em série veículos elétricos no Brasil, em 1981.

A criação do Itaipu E-400 pela Gurgel atendia um desafio proposto pela Eletrobras para renovar sua frota. A ideia lançada pela estatal foi a de criar um veículo capaz de transportar 250 kg, viajar a até 60 km/h e ter autonomia mínima de 65 km.

O modelo da Gurgel tinha uma capacidade de carga de 400 kg, rodava por até 80 km e atingia 75 km/h. O veículo chegou a chamar a atenção do então presidente da República, João Figueiredo, que encomendou o E-400 para compor a frota de companhias estatais de energia elétrica e de telefonia. Além disso, ele deu origem a um irmão maior, o E-500.

Carros elétricos no Brasil
E-400, o primeiro carro elétrico produzido em série na América Latina.

Entre os anos de 1981 e 1983, foram produzidas 76 unidades do Itaipu E-400 e 11 do E-500. De acordo com a revista Quatro Rodas, apesar do baixo custo de operação e eficiência, não houve interesse do mercado nesse tipo de veículo, por conta do alto custo e vida útil muito curta das baterias.

Wee, o novo carro elétrico brasileiro

Aproveitando o renascer atual dos carros elétricos, a startup paranaense Kers anunciou recentemente o Wee, um veículo urbano de três rodas e com capacidade para dois passageiros. O modelo compacto promete ser um carro elétrico barato, custando em torno de R$ 95 mil.

Produzido em aço, ele pode atingir até 100 km/h e tem autonomia de até 200 km, após uma carga de bateria de 8 horas. A nova marca pretende instalar um parque industrial em Maringá e adotar o conceito de energia circular, que prevê a reciclagem do veículo e seus componentes. No vídeo abaixo, é possível acompanhar uma reportagem local sobre o novo carro elétrico.

Estima-se que o veículo da Kers tenha um custo 80% inferior ao de um carro comum, quando são somados os gastos com combustível e manutenção. Para rodar 400 km, o dono de um Wee gastaria apenas R$ 32, podendo ser carregado em uma tomada convencional ou eletropostos.

Já os carros elétricos da Tesla, ainda não são comercializados oficialmente no Brasil, mas podem ser encomendados por meio de empresas importadoras com preços a partir de R$ 470 mil. Outros veículos à venda no país incluem o chinês JAC E–JS1, por R$ 165 mil; o Renault Zoe E-Tech, por R$ 200 mil; o Volvo XC40, por R$ 400 mil; entre outros.

Errata: Diferentemente do que foi dito na primeira versão do texto, os primeiros carros elétricos chegaram ao Brasil no início do século 20, e não do século 19. A matéria foi atualizada. Pelo erro, pedimos desculpas.