Todos os dias, surgem novas ideias científicas sobre a COVID-19 e o coronavírus que a causa. Aqui estão alguns dos mais recentes estudos e desenvolvimentos, incluindo pesquisas sobre a taxa de mortalidade e os impactos do vírus em crianças.

Como o distanciamento social extremo desacelerou o surto da China

A maioria dos países implementou o distanciamento social para manter a COVID-19 controlada, uma vez que atualmente não existem vacinas disponíveis ou medicamentos aprovados para tratá-la. E finalmente estamos começando a entender o que é preciso para esses bloqueios retardarem ou até impedirem a propagação do vírus.

Um novo estudo publicado na Science nesta semana tentou medir como as pessoas em duas regiões da China se movimentavam e interagiam com outras quando o governo começou a impor restrições estritas às viagens. Pesquisadores entrevistaram mais de 1.000 pessoas no total em Xangai e Wuhan — primeira região a relatar casos de COVID-19 — no início de fevereiro, quando o surto na China estava no auge, e o bloqueio, em andamento.

Os entrevistados em Wuhan disseram que, em dezembro de 2019, interagiam com cerca de 14 pessoas por dia, em média, enquanto os da área de Xangai disseram que entraram em contato com 20 pessoas. Mas durante o lockdown (quando as pessoas são impedidas de saírem de casa), o contato social foi reduzido drasticamente, com pessoas nas duas cidades relatando que viam, em média, apenas cerca de duas pessoas por dia, que geralmente eram pessoas que moravam em sua casa.

Os pesquisadores descobriram que essas mudanças sociais nas duas cidades levaram a uma diminuição drástica na capacidade do vírus de criar novas infecções. Embora alguns tenham criticado a validade da contagem oficial de casos e mortes na China, o surto do país parece ter diminuído consideravelmente. Outros países atingidos, como Itália e Espanha, tiveram um declínio nos casos relatados após restrições ao contato social.

Os EUA, no entanto, continuam em um platô. Nem o número de novos casos relatados nem as mortes caíram muito durante o mês de abril. Portanto, o nível de distanciamento social do país pode estar apenas fazendo o suficiente para impedir que o surto se espalhe exponencialmente, mas talvez seja pouco para fazê-lo diminuir. Apesar disso, vários estados agora estão diminuindo as restrições de viagens e negócios presenciais.

Uma ligação entre a COVID-19 e a doença de Kawasaki

No final de semana passado, os médicos na Europa começaram a alertar sobre uma possível consequência inesperada da COVID-19 em crianças. Eles notaram um aumento nas crianças desenvolvendo duas raras condições inflamatórias que podem atacar fatalmente o corpo: doença de Kawasaki e síndrome do choque tóxico. Algumas dessas crianças apresentaram resultado positivo para o vírus por trás da COVID-19, e suspeita-se que as outras sobreviveram a uma infecção anterior.

Na quarta-feira, o primeiro caso conhecido de doença de Kawasaki nos EUA possivelmente ligado à COVID-19 foi relatado por médicos do Stanford Children ‘s Hospital, na Califórnia. A menina de seis meses havia sido diagnosticada com a doença de Kawasaki logo após uma visita a um atendimento de urgência. Mais tarde, ela teve um diagnóstico positivo para COVID-19. Felizmente, a doença de Kawasaki pode ser tratada com sucesso, sem efeitos a longo prazo, se detectada precocemente. O bebê foi tratado, colocado em quarentena por 14 dias e parece ter se recuperado completamente.

Embora a doença de Kawasaki tenha sido associada a infecções virais, inclusive de um coronavírus humano relacionado ao SARS-CoV-2, os pesquisadores ainda sabem muito pouco sobre exatamente por que a condição acontece — a genética pode ter importância. O tempo dirá se a conexão entre a COVID-19 e qualquer condição em crianças é real, mas há mais evidências de que as pessoas mais jovens não são impermeáveis ​​a essa pandemia.

COVID-19 e medicamentos para o coração

Um novo estudo publicado na sexta-feira (1º) é o último a sugerir que a COVID-19 é especialmente prejudicial ao coração.

Os pesquisadores analisaram dados de mortalidade de 169 hospitais na Ásia, Europa e América do Norte, abrangendo quase 9.000 pacientes com COVID-19. Eles encontraram um padrão consistente: pacientes infectados com problemas cardíacos pré-existentes, como doença arterial coronariana ou arritmia, eram mais propensos a morrer do que aqueles sem problemas cardíacos.

Uma teoria que explica por que a COVID-19 é mais letal para estas pessoas envolve os medicamentos prescritos para estes problemas, particularmente os inibidores da enzima de conversão da angiotensina (ECA, ou ACE) e os bloqueadores dos receptores da angiotensina (BRAs, ou ARBs). Ambas as drogas interagem com o receptor ACE2, que o coronavírus usa para sequestrar as células.

Devido a esse vínculo compartilhado, alguns médicos argumentaram que os pacientes podem precisar interromper esses medicamentos como precaução. Mas organizações como a American Heart Association se opuseram à ideia, afirmando que não houve nenhuma evidência conclusiva de dano por tomar qualquer um dos medicamentos ao contrair o vírus.

Neste estudo, os pesquisadores não encontraram relação entre o uso desses medicamentos e um maior risco de morte. Dado o quão importantes eles são para o gerenciamento de doenças cardiovasculares, é uma ótima notícia, desde que os resultados do estudo se sustentem.

Uma estimativa básica da taxa de letalidade de COVID-19

Por fim, um pouco de matemática.

Uma minoria barulhenta de pessoas continua subestimando a seriedade da COVID-19. Muitos ainda insistem que ela, depois de levar em conta casos não relatados, provavelmente não será mais mortal que a gripe.

Ainda vai levar algum tempo para descobrirmos qual a taxa de letalidade do COVID-19. Mesmo assim, podemos definitivamente descartar que ela será próxima à da gripe sazonal. Um artigo preliminar da semana passadas fez isso simplesmente pegando o número de mortes na cidade de Nova York, em Madri, Espanha, e na Lombardia, Itália — cerca de 35.000 na época — e dividindo-o pelos 25,1 milhões de residentes que moram nessas três áreas. Isso resultou em uma taxa de mortalidade em torno de 0,14%, superior à taxa estimada de 0,1% associada à gripe típica.

Mas esse número é generoso demais, como o artigo admite, pois pressupõe que todas as pessoas da Lombardia, Nova York e Madri tenham pego o vírus e que não haverá mais mortes. Evidências anteriores sugeriram que talvez um quarto dos nova-iorquinos tenha tido COVID-19. Além disso, muitas mortes pela doença continuam acontecendo, e muitas não foram registradas.

Uma das melhores maneiras de descobrir a taxa de mortalidade de COVID-19 é medir quantas pessoas carregam anticorpos para o coronavírus em uma área afetada. Este número pode, então, ser comparado ao das mortes relatadas. Muitos desses estudos ainda estão em andamento e alguns foram criticados por sua metodologia. No geral, porém, suas descobertas iniciais sugerem uma taxa de mortalidade que varia de 0,5% a 1%. Esses números já seriam suficientes para tornar a COVID-19 muitas vezes mais letal que a gripe.