Os cientistas estão debatendo um aspecto essencial do coronavírus que causa COVID-19: se o vírus permanece no ar por tempo suficiente e em quantidade suficiente para a transmissão pelo ar ser uma fonte comum de infecção. Parece uma pergunta bastante simples, mas na verdade representa um grande desafio para os pesquisadores.

Entendendo a complexidade do novo coronavírus

O novo coronavírus, chamado SARS-CoV-2, infecta o corpo principalmente através do trato respiratório de uma pessoa. O vírus atinge nossa garganta, pulmões ou nariz, se aloja confortavelmente dentro de nossas células e começa a produzir mais de si mesmo como uma copiadora enlouquecida.



Algumas dessas cópias infectam outras pessoas através de pedaços de líquido e outras substâncias sortidas que suas vítimas respiram ou tossem, além de superfícies e objetos contaminados por essas secreções.

Toda expiração contém partículas de umidade, algumas maiores, outras menores. Partículas maiores, ou gotículas, só podem percorrer uma curta distância antes de atingirem o chão. Partículas menores, no entanto, podem flutuar no ar por muito mais tempo antes de cair ou secar.

Então, quando os cientistas falam sobre um vírus que está no ar, como o sarampo, estão dizendo que ele pode sobreviver intacto dentro desses aerossóis menores. Portanto, ele pode infectar outros por muito tempo depois que uma pessoa doente sai da sala.

Sabemos com certeza que o SARS-CoV-2 se espalha facilmente por gotículas maiores — é por isso que passamos os últimos três meses tentando desesperadamente ficar a pelo menos um metro e meio de distância um do outro. Depois desse ponto, os especialistas geralmente concordam que o risco de pegar o vírus através de gotículas é significativamente muito menor.

Mas se o coronavírus puder ser transmitido rotineiramente através de aerossóis, essas precauções são insuficientes. Isso já seria ruim o suficiente para as pessoas comuns, mas é aterrorizante para os profissionais de saúde ou outros grupos de alto risco que passam mais tempo com pessoas infectadas.

Dúvidas sobre contaminação pelo ar

Em meados de março, os pesquisadores publicaram um estudo no New England Journal of Medicine. Alguns sites e jornais repercutiram esse trabalho como evidência firme de que o vírus poderia estar no ar. O experimento descobriu que, sob certas condições, o vírus poderia permanecer suspenso no ar por pelo menos três horas.

Mas, logo após a publicação, outros cientistas criticaram a cobertura da mídia sobre o estudo e suas implicações, bem como o estudo em si. Na semana passada, várias dessas críticas foram publicadas no NEJM como cartas editoriais.

“Queríamos apenas ressaltar que este artigo não confirma a transmissão do aerossol”, disse Sanjay Jain , especialista em doenças infecciosas da John Hopkins e um dos co-autores dessas cartas, por telefone ao Gizmodo. “Isso não quer dizer que não pode haver transmissão por aerossol — ainda estamos tentando descobrir isso”.

Por um lado, disse Jain, os pesquisadores do estudo publicado no NEJM não simularam condições do mundo real para estudar o potencial aéreo do vírus. Eles usaram um dispositivo conhecido como nebulizador para criar artificialmente partículas em aerossol. Essa decisão não era um segredo, mas significa que você não pode presumir que as mesmas circunstâncias estão acontecendo frequentemente fora de um laboratório.

Sabemos que certos procedimentos médicos realizados em pacientes com COVID-19, como ventilação mecânica, podem criar grandes quantidades de aerossóis infecciosos. Durante esses procedimentos, os profissionais de saúde precisam de equipamentos de proteção mais eficazes, principalmente uma máscara respiratória como a N95, para se manterem seguros. Mas em outros contextos importantes, as evidências sobre transmissão por aerossol são fracas, pelo menos até agora.

No início deste mês, por exemplo, cientistas da China publicaram um estudo de caso de um surto de 10 pessoas provavelmente ligado a um único cliente que comeu em um restaurante.

O paciente A1 estava sentado no meio de uma fileira de mesas na parte de trás do restaurante, enquanto os outros nove casos estavam sentados à direita ou esquerda da pessoa. Como essas mesas estavam todas relativamente próximas e na linha de visão de uma unidade de ar condicionado, os pesquisadores especularam que o aparelho carregava as gotículas de vida curta da primeira pessoa para as outras mesas.

No entanto, se o vírus pudesse ser transportado pelo ar, outros clientes mais distantes também deveriam ter ficado doentes, eles argumentaram. Só que nenhum ficou.

Mas não é que há ausência total de evidências de transmissão por aerossol. Alguns estudos encontraram a pegada genética (RNA) do vírus em amostras retiradas do ar dos quartos de hospital de pacientes infectados ou em locais onde o vírus só poderia chegar se permanecesse no ar, como em dutos de ar.

“Mas esses estudos têm suas próprias limitações”, disse Petros Karakousis, também especialista em doenças infecciosas da John Hopkins e outro co-autor de uma das cartas ao editor do NEJM. “Os testes de PCR geralmente usados ​​para detectar a presença do vírus geralmente não podem nos dizer se haveria o suficiente do vírus vivo no ar para infectar outra pessoa.” Portanto, esses testes podem estar apenas encontrando os traços quebrados e não infecciosos do vírus.

Outros estudos em quartos de hospital encontraram o padrão oposto: nenhum sinal de vírus no ar. E alguns estudos com profissionais da saúde sugeriram que as máscaras cirúrgicas podem oferecer tanta proteção contra infecções quanto as máscaras N95, mesmo durante procedimentos que podem gerar aerossóis. Em outras palavras, neste momento as evidências são claramente contraditórias.

Isso não significa que não devemos ter o maior cuidado possível ou que não são necessárias mais pesquisas. O CDC (Centro de Controle de Doenças dos EUA) e a OMS (Organização Mundial da Saúde) ainda aconselham que os profissionais de saúde usem máscaras N95 ao executar um procedimento em que há geração de aerossóis, por exemplo.

Enquanto isso, alguns profissionais de saúde argumentam que mais procedimentos, incluindo compressões torácicas para paradas cardiorrespiratórias, devem ser considerados geradores de aerossóis e requerem equipamentos de proteção adicionais.

Embora saber que o vírus não está no ar não mudaria a necessidade de distanciamento físico, ele pode fornecer uma margem adicional de erro quando começarmos a reabrir partes da sociedade. Para a maioria das pessoas, continua sendo verdade que a melhor coisa que você pode fazer para evitar pegar ou transmitir o vírus é ficar em casa o máximo possível, fugir de grandes multidões e evitar contato próximo com pessoas fora de sua casa.

Seja qual for a resposta sobre a possibilidade de transmissão do coronavírus pelo ar, esses são sempre bons conselhos para se proteger do coronavírus.