Novos e-mails e mensagens liberadas pela Boeing para investigadores do Congresso dos EUA revelam diálogos chocantes entre os funcionários da empresa, tanto sobre seus próprios aviões quanto sobre os reguladores que estavam supervisionando a segurança da aeronave.

Em uma das mensagens mais alarmantes, de abril de 2017, um funcionário da Boeing escreveu que “esse avião foi projetado por palhaços, que por sua vez são supervisionados por macacos.”

Os novos documentos, que foram obtidos originalmente pelo Washington Post e New York Times no fim da noite de quinta-feira (9), foram entregues ao Congresso, que está investigando o que causou as duas quedas dos aviões Boeing 737 Max — o voo 302 da Ethiopian Airlines bateu na Etiópia no dia 10 de março de 2019, matando todas as 157 pessoas à borda e o voo 610 da Lion Air caiu perto da Indonésia no dia 29 de outubro de 2018, matando as 189 pessoas à bordo.

“Você colocaria sua família em um avião treinado com o simulador Max? Eu não colocaria”, escreveu um funcionário da Boeing em fevereiro de 2018, mais de seis meses antes do acidente da Lion Air. O outro funcionário da Boeing concordou que eles não colocariam a sua família num dos aviões. Traduzimos os trechos das mensagens abaixo (você pode conferir o material original aqui.)

03:49: Obrigado, meu amigo. Não sei como me dirigir aos muito, muito poucos de nós no programa que estamos interessados apenas na verdade. Mas é deprimente que sejam tão poucos.

03:50: A honestidade é a única saída neste trabalho — a integridade quando há vidas em risco na aeronave e os programas de treinamento não devem ser tomados com cautela. Você colocaria sua família em um avião treinado com o simulador MAX? Eu não.

03:51: Não

Outra mensagem, de maio de 2018, diz: “Ficarei chocado se a FAA [Administração Federal de Aviação] passar essa merda”, levando outro funcionário a responder: “Eles estão fazendo toda essa merda de última hora. Realmente preciso estar lá para ter certeza de que não estragaram muito as coisas”.

Não está claro quem são “eles” nesta troca de mensagens.

Muitos dos e-mails recém-divulgados estão relacionados a uma discussão de se os pilotos teriam que receber treinamento especial para o 737 Max. O do Boeing 737, cujo nome foi retirado nos documentos, diz diversas vezes que os pilotos não deveriam ser obrigados a realizar uma sessão de treinamento de 3 horas na nova aeronave.

Em 6 de junho de 2017, o piloto técnico chefe enviou um e-mail para outro funcionário da Boeing dizendo que “Não há absolutamente nenhum motivo para exigir que seus pilotos exijam um simulador do MAX para voarem no MAX. Uma vez que os motores ligam, há apenas uma diferença nos procedimentos do NG e MAX, e que é que não há posição OFF na alavanca do trem de pouso.”

Não há absolutamente nenhum motivo para exigir que os seus pilotos exijam um simulador MAX para começar a pilotar o MAX. Uma vez que os motores são ligados, há apenas uma diferença nos procedimentos do NG e MAX, e que é que não há posição OFF na alavanca do trem de pouso. A Boeing não entende o que se deve ganhar com uma sessão de 3 horas de simulador, quando os procedimentos são essencialmente os mesmos.

Talvez devêssemos discutir o mais breve possível. As autoridades da FAA, EASA, Transport Canada, China, Malásia e Argentina aceitaram a exigência do CBT como o único treinamento necessário para começar a voar no MAX. Eu ficaria feliz em compartilhar a apresentação das diferenças operacionais com vocês, para ajudá-los a entender que um simulador MAX é ao mesmo tempo impraticável e desnecessário para os seus pilotos.

Por favor, diga-me quando seria o melhor momento para uma videoconferência.

Obrigado.

Também parece haver uma troca de mensagens em que um dos funcionários fala sobre acidentes durante sessões em simulador e o empregado diz que “é isso que me assusta sobre mostrar tudo isso” aos reguladores.

[7:58] desenvolvendo a apresentação para a reunião com os Reguladores em junho sobre o jammed elevator/DLC [aparentemente, este é um codinome para o MAX] e como faremos a sessão do MCAB.
e eu estava no MCAB na quarta-feira

[7:59] Ok legal, como foi isso? Alguma grande surpresa?

[7:59] Eu não presto para voar com o jammed elevator sem DLC

[7:59] É difícil, não é? Eu bati em cheio nas minhas primeiras vezes, é isso que me assusta em mostrar tudo isso. Você consegue melhorar depois de 3-4 tentativas, mas as primeiras são zoadas.

As mensagens também revelam pelo menos dois funcionários desabafando sobre a cultura na Boeing, observando que levaria anos para que as coisas mudem.

8:59 AM: Eu realmente gosto do [nome suprimido] como pessoa. Mas dizer que usar o AMM foi um teste muito aprofundado???? Que porra é essa. O AMM só descreve como o sistema funciona. Quais são os benefícios codificar o software para um comportamento diferente do sistema real e do AMM? É uma questão de cultura. Leva 5-12 anos para mudar a cultura. É melhor não perder tempo fazendo mudanças.

9:00 AM: É um problema de cultura, com certeza. Se uma coisa que a Boeing sabe fazer é perder tempo haha! E isso na empresa como um todo, não só T&PS

9:02 AM: Isso é verdade. Perdemos tanto tempo e dinheiro com isso. E era completamente evitável… Tenho usado muito as palavras “enganoso” e “descaracterização” nos últimos dois anos em relação ao programa dele. Poderia ser ainda mais honesto ao usar outro sinônimo que descreve ainda melhor o que tem acontecido. [nome suprimido] precisa fazer mudanças antes do 777X.

As mensagens foram editadas pela Boeing, provavelmente para proteger os nomes dos funcionários, mas também há algumas mensagens que estão tão editadas que se tornaram incompreensíveis.

11:56 AM: Temos que escolher a opção de menor impacto. Não fazer nada não parece ser uma opção.

11:58 AM: Eu não vejo nenhuma destas opções de auxílio de sinalização que não vá desencadear o treinamento da simulação!

11:58 AM: Concordo

11:58 AM: Isso aqueles engenheiros espertos vão ter que descobrir

11:59 AM: Yep

A Boeing não informou a FAA sobre essas mensagens quando elas foram descobertas, segundo relatos de outubro, o que irritou as autoridades da agência americana que têm investigado as falhas sistêmicas que levaram a Max a obter aprovação. Uma descoberta chave foi que a FAA supostamente permitiu que a Boeing fizesse uma grande parte da sua própria certificação.

O novo software responsável pelas duas colisões foi o Maneuvering Characteristics Augmentation System (MCAS) que forçaria automaticamente o nariz do avião para baixo porque os computadores acreditavam que a aeronave estava em ângulo de ataque.

A Administração Federal de Aviação (FAA) não respondeu imediatamente a um e-mail do Gizmodo na manhã desta sexta-feira (10). A Boeing, que demitiu seu CEO Dennis A. Muilenburg no mês passado, após os acidentes do 737 Max, também não respondeu a um pedido de comentários do Gizmodo, mas enviou ao Congresso uma declaração obtida pelo New York Times.

“Essas comunicações contêm uma linguagem provocadora e, em certos casos, levantam questões sobre as interações da Boeing com a FAA. em relação ao processo de qualificação do simulador”, informou a Boeing numa declaração. “Tendo revisto cuidadosamente a questão, estamos confiantes de que todos os simuladores Max da Boeing estão funcionando de forma eficaz”.

A Boeing também lamentou os e-mails e pediu desculpas tanto à FAA como ao Congresso.

“A linguagem usada nestas conversas, e alguns dos sentimentos que elas expressam, são inconsistentes com os valores da Boeing, e a empresa está tomando medidas apropriadas”, continuou a Boeing. “Isto incluirá, em última análise, uma ação disciplinar ou outra ação pessoal, uma vez concluídas as análises necessárias.”

O Washington Post publicou um PDF dos e-mails, mas não incluiu uma versão pesquisável. O Gizmodo fez o OCR (reconhecimento ótico de caracteres) do documento e enviou para Archive.org, onde ele pode ser pesquisado.

Os novos e-mails provavelmente serão recebidos com raiva e frustração pelas famílias das 346 pessoas que morreram nos desastres com os aviões Boeing 737 Max. E eles têm todo o direito de ficar chateados.

Soubemos que a Boeing tentou usar vários atalhos para diminuir os custos, a FAA sabia o que estava acontecendo, e agora sabemos, por meio desses e-mails, que os funcionários da Boeing tinham desdém pelo processo que supostamente deveria manter os passageiros seguros.

A Boeing pode estar prometendo ações disciplinares, mas as mensagens apontam claramente para problemas mais amplos. As pessoas mentiram para pôr um avião no ar e os reguladores estavam fazendo vista grossa. Como resultado, centenas de pessoas perderam as suas vidas.