Nesta terça-feira (22), a NASA e controladores de voo russos realizaram uma “manobra de evasão” para proteger a Estação Espacial Internacional de um pedaço solto de detrito espacial. Este episódio já é o terceiro do tipo no ano e destaca um problema crescente, bem como a importância de mitigar potenciais colisões no espaço.

A órbita terrestre baixa (LEO, na sigla em inglês) é vasta e quase vazia, mas quando você tem milhares e milhares de objetos girando a velocidades acima de 10 km/s, este “vazio” no espaço de repente parece muito menor.

Essa foi a preocupação no início desta semana, quando a NASA, junto com o Comando Espacial dos EUA, detectou um pedaço desconhecido de detrito espacial. Havia o risco de que ele se aproximasse da Estação Espacial Internacional. Para proteger o posto avançado e sua tripulação, a NASA e os controladores de voo russos programaram uma “manobra de evasão” improvisada para tirar a ISS da zona de perigo.

Para fazer isso, eles ativaram os propulsores da espaçonave de reabastecimento Progress 75 da Rússia, que atualmente está acoplada ao módulo de serviço Zvezda.

Como o aviso chegou em cima da hora, os controladores da missão tiveram que realocar temporariamente todos os três membros da tripulação da Expedição 63 — Chris Cassidy, Anatoly Ivanishin e Ivan Vagner — para o segmento russo para que pudessem estar próximos da espaçonave Soyuz MS-16. A NASA disse que isso foi feito “com muita cautela” e que “em nenhum momento a tripulação correu perigo”.

A projeção indicava que o pedaço de lixo espacial passaria a menos de 1,39 km da Estação Espacial Internacional, com a maior aproximação acontecendo na terça-feira (22) por volta das 17h21 (horário de Brasília). A manobra, que levou apenas 150 segundos para ser concluída, foi realizada cerca de uma hora antes. Os controladores de voo da NASA e da Rússia trabalharam em conjunto para que isso acontecesse.

Depois que tudo acabou, as escotilhas entre os segmentos dos EUA e da Rússia foram reabertas, e a vida voltou ao normal.

Em uma série de tuítes, o astrofísico Jonathan McDowell, de Harvard, identificou o objeto como lixo espacial do foguete H-2A F40, do Japão, que se desfez no ano passado. Ele disse que os destroços passaram a poucos quilômetros “da posição em que a ISS estaria se não tivesse manobrado”. Medições apontam que o pedaço errante estava a 146 km/s e voou cerca de 422 km acima das ilhas Pitcairn (próximas à Polinésia Francesa), no Pacífico Sul.

Este foguete japonês produziu 77 pedaços de lixo espacial, dos quais cinco deles já entraram na atmosfera da Terra, segundo McDowell, um especialista do ramo.

Pedaços de detritos espaciais, mesmo pequenos, representam um risco tremendo para os satélites, a ISS, os astronautas e qualquer outra coisa na órbita baixa da Terra devido às suas altas velocidades. Além do mais, uma colisão pode produzir ainda mais pedaços de lixo espacial, levando a um efeito bola de neve e ainda mais colisões.

John Bridenstine, administrador da NASA, disse que esta é a terceira vez que a ISS tem que mudar de posição para evitar detritos espaciais. Nas últimas duas semanas, “houve três conjunções de alto potencial de preocupação”, tuitou ele.

“Os detritos estão piorando!”, disse Bridenstine, acrescentando que é hora de o Congresso dos EUA liberar os US$ 15 milhões solicitados pelo presidente Trump para o Office of Space Commerce, em referência a iniciativa de comercialização da LEO e a priorização de “gerenciamento de detritos orbitais”.

Bridenstine está certo em chamar a atenção para a situação, pois o problema parece estar piorando. No início deste ano, dois satélites desativados quase bateram: sua colisão teria produzido milhares de novos fragmentos de lixo espacial.

Os satélites ativos estão constantemente tendo que ser reorientados para evitar colisões. Com milhares de novos entrando em órbita, como a constelação de satélites Starlink de Elon Musk (que teve risco de colisão em 2019), essas manobras se tornarão mais comuns. É apenas questão de tempo antes que uma colisão seriamente destrutiva finalmente aconteça.

Para reduzir os riscos, precisamos minimizar e reduzir o número de objetos na órbita baixa da Terra (como projetar satélites capazes de se desorbitar quando seu trabalho é concluído) e conceber formas criativas de limpar a LEO, como, por exemplo, com arpões.

Também precisamos rastrear todos esses objetos e executar cálculos continuamente para sinalizar colisões potenciais. Uma descoberta recente, em que lasers foram utilizados para detectar pequenos pedaços de detritos durante o dia, representa um passo nessa direção.

Em última análise, no entanto, precisamos limitar a quantidade de objetos que estão sendo enviados para a órbita (especialmente projetos de estimação supérfluos), elaborar leis sensatas e exigir melhor governança global das atividades baseadas no espaço.