É hora de olhar para o próximo ano e tudo o que acontecerá na exploração espacial. Com novas missões em Marte, uma sonda retornando à Terra com amostras retiradas de um asteroide e ainda mais lotes dos satélites Starlink de Elon Musk entrando em órbita, será outro ano fascinante.

Saberemos se a NASA voltará à Lua em 2024

No início deste ano, o governo Trump acelerou o cronograma para o retorno dos americanos à Lua. Foi dito à agência espacial, em termos bastante diretos, que a missão lunar de Artemis deve ser realizada até 2024, mas o Congresso levantou sérias preocupações com esse prazo bastante agressivo.

Concepção artística do estágio de ascensão de Artemis. Imagem: NASA

Para que a NASA seja capaz de fazer isso, ela precisa do financiamento necessário. O governo dos EUA aprovará seu orçamento fiscal para 2021 em março de 2020, quando saberemos quanto dinheiro a NASA receberá e quão viável será para a agência espacial levar astronautas à Lua até 2024.

Em termos específicos, a NASA sugeriu que precisará de US$ 25 bilhões adicionais nos próximos 5 anos para acelerar as coisas. Dito isto, a NASA não forneceu ao Comitê de Dotações da Câmara o orçamento total.

Caso o Congresso não forneça recursos suficientes — seja qual for o total real –, isso provavelmente significará o fim do ambicioso cronograma, mas não necessariamente da missão Artemis como um todo. Tanto o presidente quanto a Casa Branca veem uma missão à Lua como um importante passo para uma missão tripulada em Marte.

Em 2020, também devemos descobrir qual empresa privada conseguirá projetar e construir um módulo de aterrissagem lunar para a missão Artemis. Os concorrentes incluem a Boeing e a Blue Origin, com rumores de que a SpaceX também pode estar interessada.

Quanto ao teste inaugural do Sistema de Lançamento Espacial da NASA — o foguete que deve levar os astronautas e seus equipamentos à Lua — não deve acontecer até 2021. Isso torna o prazo de 2024 ainda mais apertado.

Novas missões para Marte

Devido à morte infeliz do rover Opportunity, resta apenas uma sonda móvel no Planeta Vermelho: o rover Curiosity (com todo o respeito ao módulo de pouso InSight, que não se locomove). Isso deve mudar, já que três novas missões de rover serão lançadas em Marte em 2020: o Mars 2020 da NASA (cujo veículo ainda sem nome), o Roscosmos ExoMars Rosalind Franklin da Agência Espacial Europeia e o rover chinês Small Mars.

Todas as três sondas serão lançadas no final de julho e início de agosto para aproveitar uma janela de lançamento de três semanas conhecida como órbita de transferência Hohmann, na qual Marte e Terra estão perfeitamente alinhados em suas respectivas órbitas. Todos os rovers devem chegar a Marte em 2021.

O veículo espacial da Mars 2020 da NASA pousará na cratera Jezero, onde vasculhará um lago em busca de sinais de vida microbiana antiga. A sonda será capaz de extrair amostras da superfície e deixá-las em esconderijos para futuras missões coletarem e entregarem na Terra. O Mars 2020 está equipado com um drone chamado Mars Helicopter Scout, então finalmente teremos uma visão aérea do Planeta Vermelho.

Sonda Mars 2020 da NASA durante teste. Imagem: NASA

O Rosalind Franklin também procurará sinais de vida antiga, mas um local de pouso ainda não foi escolhido para esta missão. O veículo espacial será implantado pela sonda russa Kazachok. A missão pode ser adiada devido a problemas em andamento com o paraquedas, que deve transportar com segurança a sonda através da atmosfera marciana e até o solo marciano. Perder a janela de transferência Hohmann resultaria em um atraso de 26 meses.

Sabemos menos sobre a missão chinesa, que supostamente envolverá um orbitador, um veículo espacial de 240 kg e 13 cargas científicas, de acordo com a SpaceNews. O orbitador será equipado com uma câmera de alta resolução, e o veículo espacial será capaz de realizar espectroscopia, entre outras tarefas científicas.

A Administração Espacial Nacional da China (CNSA) selecionou dois locais preliminares perto da Utopia Planitia, e uma decisão final está pendente, de acordo com o IEEE Spectrum.

Para não ficar atrás, os Emirados Árabes Unidos lançarão sua Missão Hope Mars no Planeta Vermelho no próximo ano. Será a primeira missão interplanetária liderada por um país árabe-islâmico, relata o Space.com, e o orbitador será lançado no topo de um foguete japonês.

Uma vez em órbita em torno de Marte, o satélite estudará o clima marciano, as razões pelas quais Marte vazou tanto oxigênio e hidrogênio e possíveis conexões entre a atmosfera superior e inferior, de acordo com o Space.com. Assim como as outras missões, ele não chegará antes de 2021.

Muitos satélites Starlink, da SpaceX

Até o momento, a SpaceX lançou 120 de seus satélites Starlink para baixa órbita terrestre, mas isso é apenas a ponta do iceberg. Espera-se que a mega-constelação de banda larga consista em 42 mil satélites individuais, um número que a SpaceX espera alcançar em meados da década de 2020. Obviamente, isso exigirá muitos lançamentos de foguetes do Falcon 9 — muitos dos quais acontecerão no próximo ano.

Um trem de satélites Starlink da SpaceX, como visto em 24 de maio de 2019. Imagem: Marco Langbroek via SatTrackBlog

A empresa espacial privada espera lançar 24 missões Starlink no próximo ano, de acordo com a SpaceNews. Esse é um ritmo vertiginoso de dois lançamentos por mês, o que resultaria em aproximadamente 1.440 novos satélites Starlink em órbita terrestre até o final do ano.

Para se ter uma ideia, havia aproximadamente 4.987 satélites em órbita terrestre no início de 2019, muitos dos quais não são mais funcionais, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para os Assuntos do Espaço Exterior (UNOOSA).

Esses lançamentos da SpaceX e seus shows de luzes associados no céu noturno certamente atrapalharão alguns astrônomos, que preferem uma visão desimpedida do espaço. A SpaceX está ciente do problema e está supostamente trabalhando em um revestimento especial que vai escurecer os satélites para reduzir a sua refletividade.

Entre outras notícias da SpaceX que são esperadas no próximo ano, a empresa começará os testes orbitais de sua nave espacial de próxima geração. Uma vez pronta, a Starship “será o veículo de lançamento mais poderoso do mundo já desenvolvido”, segundo a SpaceX, capaz de transportar tripulação e carga para a órbita da Terra, Lua e Marte.

Lançar astronautas norte-americanos a partir do solo norte-americano

Se a NASA quiser enviar astronautas para a Lua, precisará da capacidade de lançar astronautas para o espaço — algo que ao EUA não conseguiram fazer de forma independente desde a aposentadoria do programa Space Shuttle em 2011.

Felizmente, 2020 poderia finalmente ser o ano da retomada disso, com ênfase em “poderia”. Atualmente, os dois participantes privados do Programa de Desenvolvimento de Tripulação Comercial da NASA, SpaceX e Boeing, estão atrasados.

Representação artística do CST-100 Starliner da Boeing. Imagem: Boeing

Mas há boas razões para sermos otimistas. Em 20 de dezembro, a Boeing finalmente lançou um CST-100 Starliner não tripulado, embora a espaçonave não tenha conseguido atracar na estação espacial devido a um aparente mau funcionamento do software de automação. O chefe da NASA, Jim Bridenstine, minimizou o incidente, dando a entender que um teste com tripulação poderia ser iminente.

Enquanto isso, a SpaceX planeja realizar um teste de cancelamento em voo do seu Crew Dragon no início do próximo ano, possivelmente em janeiro. A empresa liderada por Elon Musk teria então que realizar um teste não tripulado seguido de um teste com tripulação, presumindo que não haverá mais contratempos, como a anomalia de teste que aconteceu no início deste ano.

A OSIRIS-REx, da NASA, coletará amostras de um asteroide

Desde sua chegada a Bennu em 3 de dezembro de 2018, a sonda OSIRIS-REx da NASA mapeou o asteroide de formato estranho e estudou suas estranhas emissões na superfície. O objetivo principal da missão, no entanto, ainda está por vir.

A sonda está se preparando para pousar brevemente e extrair materiais de amostra da superfície do asteroide. Se tudo correr bem, o OSIRIS-REx será a primeira missão norte-americana a coletar amostras de um asteroide e trazê-las de volta à Terra para análise.

Depois de escolher quatro possíveis locais na superfície, a NASA selecionou uma zona livre de rochas chamada Nightingale. O asteroide é basicamente uma pilha de rochas — portanto, encontrar uma área com poeira facilmente extraível provou ser uma tarefa difícil.

No início de 2020, o OSIRIS-Rex voará sobre o local em altitudes mais baixas para tirar fotos com resolução mais alta e o pouso é esperado em julho de 2020. A sonda deve retornar à Terra com 60 gramas de Bennu em 2023.

Por falar em sondas que visitam asteroides e depois devolvem suas amostras à Terra, a sonda Hayabusa2 da JAXA deve chegar à Terra em dezembro de 2020 com materiais recolhidos do asteroide Ryugu. Essas amostras vão pousar em algum lugar no interior protegido da Austrália.

Primeira missão lunar de retorno de amostras da China

Com a bem-sucedida missão Chang’e 4 praticamente encerrada, a China está se preparando para sua próxima missão na Lua, que apresentará um novo elemento importante.

Concepção artística da missão Chang’e 5. Imagem: NAOC

Com a missão Chang’e 5, a China espera pousar uma sonda no Oceanus Procellarum e colher 2 kg de regolito lunar empoeirado, possivelmente a uma profundidade de cerca de 2 metros. Esta amostra será, então, devolvida à Terra para análise, uma façanha que a CNSA nunca havia tentado antes. Será a primeira missão de retorno de amostras da Lua desde a Luna 24, da União Soviética, em 1974.

A NASA diz que a missão consistirá em quatro módulos:

Dois dos módulos irão pousar na Lua, um projetado para coletar amostras e transferi-las para o segundo módulo, projetado para subir da superfície lunar para a órbita, onde atracará com um terceiro módulo. Finalmente, as amostras serão transferidas para o quarto módulo, também em órbita lunar, que as devolverá à Terra.

A missão Chang’e 5 será lançada no final de 2020, de acordo com a NASA.

Também se espera que a China inicie a construção de sua própria estação espacial, chamada Tianhe, mas isso pode demorar até 2021, pois a CNSA ainda precisa testar seu foguete Long March 5B, que tornará possível esse projeto.

Mais encontros estelares

Lançado em 2018, o Parker Solar Probe da NASA está se aproximando progressivamente do Sol a cada órbita que passa. A sonda está fazendo medições sem precedentes da coroa solar e, quanto mais perto, mais interessantes são os dados.

Concepção artística da Parker Solar Probe. Imagem: NASA

A Parker Solar Probe está programada para quatro periélios em 2020, quando a sonda se aproximará do Sol durante sua órbita elíptica: 29 de janeiro, 7 de junho, 11 de julho e 27 de setembro. Durante o periélio de setembro, o Parker Solar Probe chegará a 14,2 milhões de quilômetros do Sol, quando estará se movendo a 129 quilômetros por segundo.

A sonda continuará com esse padrão até 2025, quando se espera que fique a 6,9 milhões de quilômetros do Sol, momento em que a sonda provavelmente queimará.

Em notícias relacionadas, o Solar Orbiter da NASA/ESA será lançado do Centro Espacial Kennedy em 5 de fevereiro de 2020. O Solar Orbiter “estudará o Sol, sua atmosfera externa e o que impulsiona o fluxo constante de vento solar que afeta a Terra”, de acordo com a NASA.

Um olhar mais detalhado sobre exoplanetas distantes

Com o novo satélite CHEOPS da ESA agora no espaço, podemos esperar que surjam novos detalhes sobre planetas fora do nosso sistema solar.

Concepção artística do CHEOPS, com um sistema exoplanetário em segundo plano (sem escala, obviamente). Imagem: ESA

É importante ressaltar que o CHEOPS não estará em busca de novos exoplanetas. Em vez disso, ele examinará mais cuidadosamente os exoplanetas descobertos anteriormente para estudá-los com mais detalhes, particularmente planetas de tamanho entre o da Terra e o de Netuno. O CHEOPS também observará atmosferas exoplanetárias e gravará melhor seus trânsitos pelas estrelas hospedeiras.

Acontecimentos celestes perto de você

E, finalmente, para os observadores de estrelas amadores por aí, uma lista completa de eventos astronômicos para o próximo ano pode ser encontrada no Sea and Sky. Nada espetacular demais está programado para 2020 (bem, até onde sabemos – poderíamos receber a visita de outro objeto interestelar ou de um cometa surpresa, por exemplo), mas há algumas coisas legais que devemos estar cientes.

Vários eclipses solares parciais acontecerão em 2020, mas a possibilidade de aproveitá-los depende de onde você mora. Um eclipse solar total visível em partes da América do Sul acontecerá em 14 de dezembro. Uma rara lua cheia aparecerá no Halloween, e isso deve ser bem legal para quem gosta de sair em busca de doces ou travessuras — não acontecerá novamente até 2035. Uma conjunção de Saturno e Júpiter ocorrerá em 21 de dezembro, fazendo com que os gigantes de gás apareçam como um brilhante planeta duplo.

Portanto, teremos muitos eventos legais relacionados ao espaço para acompanhar em 2020. Como sempre, será um prazer para o Gizmodo relatar esses eventos à medida que eles se desenrolam.