Google e Apple são concorrentes na área de software, hardware e serviços de streaming, para citar só alguns dos setores em que atuam. No entanto, por causa do novo coronavírus, as duas gigantes da tecnologia anunciaram nesta sexta-feira (10) uma parceria para tentar ajudar governos e agências de saúde pelo mundo na redução da disseminação do vírus.

Como é sabido, Google e Apple têm abordagens distintas na forma de lidar com os dados dos seus usuários, então no anúncio conjunto das companhias é citado com alguma frequência que a “privacidade dos usuários e a segurança serão centrais” para o desenvolvimento da solução entre as empresas.



De modo concreto, eles dizem que ajudarão as autoridades com uma solução que envolve APIs (interface de aplicação de programa) e tecnologia presentes em seus sistemas operacionais para contribuir no rastreamento de contatos.

Esta solução será implementada em dois passos. No primeiro, previsto para maio, Apple e Google criarão uma API de interoperabilidade entre dispositivos iOS e Android por meio de aplicativos de autoridades de saúde. De forma simplificada, pense em um aplicativo do Ministério da Saúde em que é possível haver comunicação entre um iPhone e um smartphone Android — não estamos falando aqui de facilidade para trocar arquivos entre as diferentes plataformas, mas em uma comunicação que, de alguma forma, deve fornecer informações para autoridades e saúde.

Num segundo momento, a ideia é a criação de uma plataforma de rastreamento de contatos baseada em Bluetooth, que deve permitir a participação de mais pessoas. Segundo o comunicado, as pessoas poderão consentir ou não a interação com este sistema de apps de autoridades de saúde dos países.

O anúncio não dá muitos detalhes técnicos sobre a parceria. No entanto, as empresas disponibilizaram uma documentação (em inglês) com as especificações do uso das tecnologias.

Um contexto sobre a concorrência entre Google e Apple

O anúncio pode ser considerado histórico, pois as empresas não se bicam há muito tempo. Para dar algum contexto, Eric Schmidt, ex-CEO do Google, fazia parte do conselho de diretores da Apple e ele teve de renunciar ao cargo em 2009 por conflito de interesses, pois a empresa que comandava ia investir pesado no Android, que, alguns anos depois, se tornaria a principal plataforma móvel do mundo.

Aparentemente, a Apple não gostou muito e passou a restringir alguns apps do Google que eram praticamente nativos no iOS. O YouTube, por exemplo, já vinha no sistema móvel da Apple, mas a empresa da maçã o removeu, o que obrigou o Google a fazer uma versão nova do aplicativo para iPhone e iPad.

O mesmo ocorreu na área de mapas. O Google Maps era padrão nos sistemas Apple, até que a empresa resolveu fazer sua própria plataforma de mapas, o Apple Maps, que, como a própria companhia já admitiu, não foi uma solução muito esperta.

Atualmente, a “briga” das empresas passou a ser no campo de privacidade. Enquanto o Google utiliza muitas informações dos seus usuários para melhorar seus serviços e para oferecer publicidade direcionada, a Apple passou a ter uma postura combativa contra a empresa, com aquele argumento de que “quando um serviço é gratuito, o produto é você”.

Por outro lado, os especialistas de segurança do Google costumam expor problemas de segurança em produtos Apple, do navegador Safari a falhas no iPhone.

Apesar disso tudo, parece razoável as empresas terem uma postura madura de tentarem ajudar a resolver um problema mundial. Faço votos que dê certo e que as promessas de “privacidade e segurança” sejam de fato levadas a sério.