Nesta terça-feira (18), o governo japonês anunciou que começará testes clínicos de tratamentos contra o novo coronavírus, que se originou na China e se espalhou por vários países. Em vez de usar drogas novas, eles estão cogitando utilizar medicações existentes usadas para tratar pacientes com AIDS e outras doenças virais. Mas por que exatamente os pesquisadores esperam que esses medicamentos possam ser redirecionados para o novo coronavírus e qual a probabilidade de eles funcionarem?

O novo coronavírus, recentemente denominado SARS-Cov-2 devido aos seus estreitos laços genéticos com o coronavírus SARS (síndrome respiratória aguda grave), é feito de RNA. Outros vírus de RNA incluem os que causam ebola, hepatite C e, sim, AIDS/HIV.

Vírus RNA vêm em todas as formas e tamanhos, e os que infectam humanos podem fazê-lo de diferentes maneiras. Mas muitos dos medicamentos usados contra HIV e hepatite visam amplamente atacar as fraquezas encontradas em todos os tipos de vírus. A ribavirina, aprovada para tratamento de hepatite C, por exemplo, interfere em algo chamado RNA polimerase dependente de RNA, uma enzima essencial para que muitos vírus — incluindo os coronavírus — produzam mais de si mesmos dentro de uma célula. Medicamentos para o HIV como o lopinavir inibem outras enzimas que permitem que os vírus quebrem certas proteínas, o que prejudica sua capacidade de infectar células e se replicar.

Medicamentos antivirais amplos como o lopinavir devem ser capazes de funcionar contra o SARS-CoV-2, teorizam os cientistas. E já existem evidências circunstanciais que isso pode acontecer. Alguns desses medicamentos foram testados com sucesso para SARS e MERS, por exemplo, outro dois desagradáveis coronavírus que surgiram nos últimos anos.

Estes estudos foram realizados apenas em laboratório ou em animais, o que significa que seus resultados não serão necessariamente os mesmos em pessoas. Embora o SARS e o MERS estejam intimamente relacionados ao novo coronavírus, isso não garante que esses medicamentos funcionem nele. Ainda assim, dado o tamanho do surto — com mais de 72 mil casos em todo o mundo e quase 2.000 mortes desde o final de dezembro — os governos estão lutando por possíveis opções de tratamento.

Em janeiro, o governo chinês anunciou um teste de 41 pacientes em Wuhan que usaria um tratamento combinando o lopinavir e outro medicamento para HIV, o ritonavir. Em fevereiro, o governo chinês também iniciou um teste com um medicamento experimental testado para HIV e ebola, chamado remdesivir.

Remdesivir já foi usado durante este surto do novo coronavírus, com resultados aparentemente impressionantes até o momento. No mês passado, o primeiro paciente norte-americano com o vírus foi tratado com remdesivir, após uma semana de agravamentos dos sintomas que se desenvolveram em pneumonia total. No entanto, um dia depois de receber o medicamento por via intravenosa, os sintomas do homem começaram a melhorar e ele acabou sendo liberado do hospital.

Mas um caso não é um tratamento infalível para todos. E mesmo que o remdesivir ou outras drogas se mostrem eficazes contra o SARS-CoV-2, eles desempenharão apenas um pequeno papel para impedir que esse surto atual se agrave.

A maioria dos casos de COVID-19 (o nome oficial da doença causada pela SARS-Cov-2) ainda é leve e não será muito beneficiada por medicamentos antivirais. Em termos de prevenção da próxima pandemia, é mais importante impedir que as pessoas contraiam o vírus, em vez de encontrar medicamentos para tratá-los quando o fizerem.