Como você assiste ao Netflix? É provável que principalmente em sua TV — ou pelo menos em um notebook. Mas graças a recursos como o modo offline e planos de dados móveis mais generosos, o uso do aplicativo em smartphones cresceu. Isso é especialmente verdade em mercados como Índia, Coreia do Sul e Japão. O desafio, entretanto, é que quase todo programa ou filme a que você assista no Netflix foi projetado para ser visto em uma tela maior.

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Mas isso pode mudar. Em coletiva de imprensa em San Francisco, na quarta-feira, o diretor de produto do Netflix, Neil Hunt, contou ao Verge que “não é inconcebível que você possa ter uma (cópia) master e fazer um corte diferente para dispositivos móveis”, acrescentando que “é algo que exploraremos ao longo dos próximos anos”.

A ideia, aparentemente, é que poderia haver versões diferentes de um filme ou programa de TV, dependendo de qual dispositivo eles fossem vistos. Imagine que você tem uma tomada bem larga, projetada para ter um aspecto ótimo em uma televisão de 55 polegadas. No smartphone, seria muito mais difícil de ver. Pode fazer mais sentido que seja uma tomada panorâmica para alguém assistindo ao conteúdo em uma tela de 5,5 polegadas.

Francamente, desde que os criadores estejam envolvidos na criação desses “cortes múltiplos”, a otimização de conteúdo para mobile é uma ideia boa e que já passou da hora. A criação de conteúdo deveria se alinhar com a maneira como as pessoas estão consumindo esse conteúdo.

É claro, algumas pessoas não estão animadas com a ideia de criar mais trabalho para telas menores. Cerca de uma década atrás, o famoso autor David Lynch reclamou de espectadores assistindo a filmes em suas “drogas de iPhone”, lamentando que isso era uma “grande tristeza” e que esses espectadores estavam sendo “enganados” e tirados da experiência de verdadeiramente apreciar um filme. Lynch fez declarações parecidas em 2013, chamando o ato de assistir a um filme em uma tela de celular “patético”. E, em 2015, Spike Lee descreveu a ideia de que pessoas assistissem a filmes como Star Wars ou Amor, Sublime Amor em um smartphone como “de partir o coração”.

De uma perspectiva puramente artística, isso pode ser verdade, mas a realidade é que estamos em 2017, e as pessoas assistem a filmes e programas de TV em seus celulares. E isso não vai mudar, só aumentar. Além disso, várias outras indústrias já adaptaram seu conteúdo a plataformas específicas: um grande tema na mídia na última década, por exemplo, tem sido a reembalagem de conteúdo e sua apresentação em diferentes formatos.

Se cuidado da maneira correta — idealmente, você poderia se abster da experiência “mobile”, se tal coisa existisse —, esse cenário poderia ser benéfico para os criadores serem mais inventivos com conteúdo, assim como para espectadores que estão acostumados a consumir esse conteúdo principalmente em dispositivo menores. É claro, também é possível que os criadores sejam deixados de lado completamente no processo (isso já aconteceu anteriormente: Ted Turner notoriamente “coloriu” filmes preto e branco clássicos dos anos 1980 como uma forma de tentar torná-los mais palatáveis ao público).

Esperamos que, se o Netflix estiver falando sério sobre esse plano, que trabalhem com seus criadores para tornar a experiência melhor para todos.

[The Verge]