Um pequeno ponto positivo do desastre do coronavírus é que as pessoas que ficam doentes parecem ter uma imunidade pelo menos temporária ao vírus. Mas, no fim de semana, um artigo do Vox escrito por um médico da atenção básica em Washington DC, nos EUA, expôs um cenário iminente e assustador para a pandemia, com base em um de seus próprios casos: pessoas com um segundo caso de COVID-19 possivelmente pior que o primeiro.

As evidências de reinfecção no momento ainda são muito limitadas, no entanto, e há muitas questões importantes sobre imunidade ao COVID-19 que precisam ser estudadas ainda mais antes de podermos realmente confirmar a possibilidade de reinfecção e como ela poderia acontecer.

O artigo do Vox foi escrito por D. Clay Ackerly, clínico geral e médico de cuidados primários que trabalha em Washington, DC, nos EUA. Nele, ele detalha um paciente de 50 anos que supostamente testou positivo para o SARS-CoV-2, como é chamado o coronavírus que causa COVID-19, duas vezes ao longo de três meses, a mais recente no início de julho.

Ackerly disse que é improvável que seja uma infecção longa, pois o homem havia testado negativo para o vírus duas vezes após seu primeiro período de sintomas, que eram leves; ele também se sentiu perfeitamente saudável por quase seis semanas. Na segunda vez, os sintomas do homem eram muito piores, incluindo baixos níveis de oxigênio e problemas respiratórios, e ele procurou atendimento em um hospital várias vezes.

“Acredito que é muito mais provável que meu paciente tenha se recuperado completamente de sua primeira infecção e depois contraído o COVID-19 pela segunda vez depois de ter sido exposto a um parente jovem com o vírus”, escreveu Ackerly.

Ackerly não é o primeiro médico ou especialista a falar sobre a possibilidade de reinfecção. Durante meses, desde os primeiros dias da pandemia, houve relatos isolados de pessoas que testaram positivo para o vírus novamente após o que parecia ser uma recuperação inicial.

Dá para se infectar duas vezes?

As autoridades de saúde sul-coreanas relataram centenas desses casos “recaídos” em seu país no início de abril. No entanto, eles concluíram que a segunda rodada de amostras positivas que haviam encontrado provavelmente era o resultado de coronavírus mortos ainda presentes nos pacientes.

As preocupações com a reinfecção foram amplificadas ainda mais por estudos que sugerem que os níveis de anticorpos contra o vírus geralmente caem acentuadamente depois de dois a três meses.

Mas até agora, de acordo com a virologista Angela Rasmussen, da Universidade Columbia, não há dados concretos que deem suporte a essas preocupações.

“Até onde eu sei, não houve um caso documentado de reinfecção”, disse ela ao Gizmodo. “As pessoas que testaram positivo após a recuperação não foram associadas a novos casos, e as tentativas de cultivar vírus infecciosos a partir de suas amostras foram todas negativas, sugerindo que o resultado deu positivo por detectar RNA viral residual, não vírus real replicante.”

Isso não significa que a reinfecção por COVID-19 não é possível. Só que ainda não há consenso científico sobre como a imunidade natural ao SARS-CoV-2 funciona.

Tomemos, por exemplo, os estudos de anticorpos mencionados anteriormente. Definitivamente, pode ser verdade que os níveis de anticorpos específicos contra COVID-19 caiam dentro de meses. Mas também pode ser verdade que as pessoas ainda carreguem o suficiente dos anticorpos mais relevantes para prevenir a reinfecção — os chamados anticorpos neutralizantes — para que sua imunidade dure mais do que alguns meses.

Como já escrevi antes, a imunidade aos germes não se refere apenas a anticorpos: nosso sistema imunológico também depende de células, particularmente de certos tipos de células T, que reconhecem e perseguem ameaças familiares de maneira semelhante. E pesquisas estão mostrando que a resposta das células T no pós-infecção é robusta.

Embora não saibamos muito sobre o que determina a imunidade protetora de uma pessoa ao COVID-19, Rasmussen diz que a falta de anticorpos após alguns meses não significa necessariamente que uma pessoa é vulnerável à reinfecção.

Dado o que já sabemos sobre outros tipos de coronavírus que infectam pessoas regularmente, seria estranho se pelo menos alguns sobreviventes não estivessem suscetíveis a pegar COVID-19 novamente em algum momento. Mas com esses outros coronavírus, estudos sugerem que a imunidade começa a diminuir visivelmente mais perto de um ano ou mais após a primeira infecção.

A possibilidade de a doença ser pior na segunda vez é menos provável, uma vez que a reinfecção com qualquer germe em geral tende a ser mais leve. Há um efeito de empilhamento em algumas doenças, mais notoriamente dengue, e as pessoas imunocomprometidas provavelmente correm mais risco de ter uma segunda infecção tão ruim ou pior quanto a primeira, mas ambos os exemplos são exceções à regra.

Vacina poderia dar respostas duradoura

Outro ponto crucial é que a reinfecção não elimina a possibilidade de uma vacina eficaz. Algumas vacinas são capazes de evocar uma resposta imune melhor e mais duradoura do que a infecção natural, e esse é um objetivo expresso para os cientistas que estão desenvolvendo vacinas contra COVID-19. Doses de reforço também são usados ​​rotineiramente para atualizar nossa imunidade.

Mesmo as vacinas menos eficazes que temos, em particular a vacina contra a gripe, fornecem um benefício real na redução da gravidade e da mortalidade de sua doença alvo. Dito isto, os cientistas estarão observando atentamente para descobrir como nosso sistema imunológico responde a qualquer vacina que esteja sendo testada.

O caso anedótico de Ackerly e outros semelhantes certamente merecem atenção, disse Rasmussen. E é certamente possível que algum segmento de sobreviventes de COVID-19 perca sua imunidade rapidamente, principalmente se a resposta imune inicial não for forte. Mas ela não descarta a ideia de que o vírus realmente possa ter persistido no corpo do paciente nos últimos três meses, como alguns vírus podem.

Uma terceira possibilidade pode ser um falso positivo na primeira vez — Ackerly não indica se a primeira infecção foi confirmada com mais de um resultado positivo; ele também observa que seu paciente não foi capaz de fazer o teste de anticorpos. Sem mais evidências, porém, Rasmussen não está convencida de que esse tipo de caso seja amplamente aplicável à população em geral ou que precisamos nos preocupar com reinfecção generalizada.