Eu costumo ter sonhos muito vívidos. Recentemente, sonhei que acertei um home run no Wrigley Field, como jogadora do meu time de beisebol favorito, o Chicago Cubs, por exemplo. Mas também sonhei que o palhaço de It: A Coisa veio me assombrar o tempo todo enquanto eu andava por um cassino lotado.

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Sempre me perguntei por que sonho com tais coisas, e, agora, um novo estudo pode trazer algumas informações sobre isso. A pesquisa liga sonhos alegres a paz de espírito enquanto acordado e sonhos ruins com sentimentos de ansiedade durante o dia. O artigo poderia ser útil para explicar por que sonhamos e, um dia, ajudar a tratar condições de saúde mental associadas com sonhos perturbadores.

“Existe um princípio que remonta ao psicólogo Alfred Adler, de que sonhamos o que vivemos e vivemos o que sonhamos, e acho que ele estava certo”, disse Stanley Krippner, psicólogo da Universidade Saybrook, que não esteve envolvido no novo estudo, em entrevista ao Gizmodo. Krippner acredita que os sonhos são uma espécie de melhores momentos, que nos lembram quais coisas na vida real nos deixaram felizes ou ansiosos. “Quando você está feliz durante o dia, tem sonhos felizes de noite. A função dos sonhos é adaptativa — lembrar o que nos deu paz de espírito e reproduzir isso repetidamente. É isso que as descobertas desse estudo nos mostra também.”

Várias pesquisas sugerem que os sonhos podem ser subprodutos do armazenamento de memórias e da aprendizagem do nosso cérebro, uma estratégia para nos preparar para perigos na vida real ou um escape para as nossas mentes trabalharem em meio a experiências emocionais pesadas.  Eles também são ligados à saúde mental — pessoas com ansiedade e depressão frequentemente têm altas incidências de pesadelos.

“Saber a natureza das emoções nos sonhos e como elas estão relacionadas ao nosso bem-estar enquanto acordados pode ajudar a jogar luz sobre as possíveis funções dos sonhos”, disse Pilleriin Sikka, uma das autoras do estudo, psicóloga e neurocientista da Universidade de Turku, na Finlândia, em entrevista ao Gizmodo.

Para medir como o conteúdo dos sonhos está ligado ao estado emocional e ao bem-estar, uma equipe de pesquisa pediu a 47 voluntários que realizassem alguns questionários padronizados para avaliar o bem-estar de cada um deles. Eles fizeram perguntas relacionadas a ansiedade, depressão, satisfação com a vida — tanto no todo como em certos campos, como trabalho e relacionamentos — e paz de espírito.

Para medir a paz de espírito, a pesquisa pediu que os participantes pontuassem o quanto concordavam com declarações como “tenho paz e harmonia em minha mente” e “é difícil para mim me sentir resolvido”.

Para relacionar o mal e o bem-estar geral com os sonhos, cada voluntário também manteve um “diário dos sonhos” por três semanas, no qual anotou os detalhes de seus sonhos imediatamente depois de acordar. Voluntários e pesquisadores classificaram os sonhos separadamente para certas emoções positivas e negativas, como diversão, gratidão e amor e desprezo, nojo e ódio.

Usando esses dados, os pesquisadores descobriram que as pessoas com altas pontuações para a paz de espírito tinham sonhos mais agradáveis ​​e positivos, como observado no estudo publicado na sexta-feira (24) na Scientific Reports. Por outro lado, as pessoas que tinham notas altas de ansiedade tinham muitos sonhos negativos mais perturbadores.

O estudo é preliminar e tem suas limitações — ele confia quase que exclusivamente em dados autorrelatados. As pessoas podem ter, de propósito ou acidentalmente, deixado algumas coisas de seus sonhos de fora dos registros, como sonhos que julgassem constrangedores, por exemplo. “O diário dos sonhos é uma limitação”, disse Krippner. “Mas nos dá muitos dados e é certamente um bom começo.”

Outros estudos descobriram que até 80% das pessoas que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático têm pesadelos relacionados a seu trauma e que pessoas que têm ansiedade relacionada à esquizofrenia têm sonhos mais hostis e apreensivos. Portanto, os resultados desse estudo não são assim tão surpreendentes — pessoas ansiosas tendem a ter sonhos ansiosos.

Ainda assim, Krippner disse ao Gizmodo que estudos que focam em como pessoas saudáveis sonham são tanto cruciais quanto escassos. A maioria das pesquisas sobre sono é feita com pessoas que sofrem com vários problemas psicológicos.

“Estudos como esses têm consequências muito práticas”, afirmou. “É importante descobrir o que torna saudáveis as pessoas saudáveis.”

[Scientific Reports]

Imagem do topo: Pexels