Centenas de atuais e ex-policiais, além de outras autoridades da lei, são membros de “grupos de milícias confederados, anti-islâmicos, misóginos ou contra o governo” no Facebook, de acordo com uma pesquisa do Centro de Jornalismo Investigativo Reveal News publicada na sexta-feira (14).

Os dados do Reveal são anteriores a 2018, quando o Facebook removeu uma função que permitia o download de listas de membros de grupos. O Reveal criou duas listas separadas de “membros de grupos extremistas e membros de grupos policiais”, em seguida, comparou-as e encontrou 14.000 correspondências. Eles então verificaram mais a fundo para saber quais dessas contas pertenciam a indivíduos com um histórico verificável de emprego em cargos de autoridade da lei (em oposição a pessoas com laços pessoais ou interesse na profissão), encontrando “quase 400 usuários que atualmente trabalham como policiais, xerifes ou guardas prisionais ou que já haviam trabalhado como agentes da lei ”.



O Reveal relatou que cerca de 150 dos policiais em questão estavam envolvidos com “grupos violentos contra o governo”:

Os grupos cobrem uma série de ideologias extremistas. Alguns se apresentam publicamente como sendo dedicados à discussão histórica benigna da Confederação, mas estão repletos de racismo dentro do grupo. Algum trocam memes anti-semitas e anti-imigrantes. Alguns são abertamente islamofóbicos. E quase 150 dos policiais que encontramos estão envolvidos com grupos violentos contra o governo, como os Oath Keepers e os Three Percenters.

Mais de 50 departamentos abriram investigações depois que o Reveal os informou de suas descobertas, acrescentou o site, “pelo menos um policial foi demitido por violar as políticas do departamento”.

Exemplos descritos pelo Reveal incluem o guarda Geoffery Crosby da Penitenciária Estadual da Louisiana (popularmente conhecida como Angola), que era membro de 56 grupos extremistas, incluindo um intitulado “BAN THE NAACP (National Association for the Advancement of Colored People)”, e o detetive James “JT” Thomas do Gabinete do Xerife do Condado de Harris em Houston, que era membro de um grupo fechado intitulado “The White Privilege Club” (“O Clube do Privilégio Branco”):

O grupo contém centenas de mensagens de ódio, racistas e anti-semitas; links para entrevistas com supremacistas brancos como Richard Spencer; e convida para eventos como a reunião do Unite the Right em Charlottesville. Os usuários postam regularmente memes com Pepe the Frog, o mascote alt-right, com legendas como “gente branca, faça alguma coisa”. E há piadas explicitamente racistas, como uma foto de frango frito e refrigerante de uva com a legenda: “Mamãe me mandou um niggable (lanche caseiro com comidas estereotipicamente associadas a negros) para a escola.”

Thomas uma vez postou o logotipo do Hall da Fama do Black College Football no grupo com a legenda: “Sério. Por quê?” Logo depois, ele postou um meme de uma mulher afro-americana idosa respondendo confusamente à pergunta de um repórter falando o nome de um restaurante de frango frito.

O Gabinete do Xerife do Condado de Harris demitiu Thomas em fevereiro, citando violações de um código de conduta de funcionários que proíbe comportamentos que possam causar “constrangimento indevido ou prejudicar a reputação de, ou corroer a confiança do público”, ao departamento. (Thomas insistiu em uma audiência que ele não estava ciente de que ele era membro do grupo e que o meme de frango frito que ele postou não era racista, de acordo com o Reveal).

Embora os departamentos de polícia geralmente mantenham registros disciplinares e outras informações relacionadas a reclamações de má conduta sob segredo, acrescentou o Reveal, eles conseguiram associar dois dos policiais em questão a supostos delitos. Um deles era um adjunto do Departamento do Xerife de Madison County e membro do grupo “White Lives Matter” (“Vidas Brancas Importam”) envolvido em um processo da ACLU (American Civil Liberties Union) alegando racismo e policiamento discriminatório, e que foi acusado de bater em um homem negro algemado e admitiu usar insultos raciais no trabalho. Outro tenente da polícia de Chicago, que havia postado conteúdo extremista no Facebook e era membro de um grupo islamofóbico, tinha 70 denúncias de má conduta.

O Facebook tem um problema de extremismo bem conhecido, variando de um dilúvio de grupos de extrema direita e grupos de supremacia branca, e alegações de que a rede social ajudou a conectar simpatizantes do ISIS, a acusações de cumplicidade no genocídio de Mianmar. Um dos incidentes mais marcantes ocorreu no início deste ano, quando o assassinato de 51 pessoas em duas mesquitas na Nova Zelândia foi transmitido ao vivo na plataforma.

A rede social tomou medidas contra alguns dos piores infratores com ondas periódicas de banimentos, incluindo uma recente mudança de política para proibir o “nacionalismo” e separatismo branco. Mas o recém-anunciado pivô de privacidade do CEO Mark Zuckerberg inclui uma ênfase no tipo de grupos fechados e privados que às vezes são usados ​​como câmaras de eco extremistas.

Como o Verge observou, essa mudança deixa em aberto a possibilidade de que grupos como os apresentados pelo Reveal possam passar ainda mais abaixo do radar, com menos visibilidade e, portanto, dores de cabeça para a assessoria do Facebook. O Reveal descobriu que cerca de 120 dos oficiais atuais ou aposentados estavam “postando em grupos [fechados] ou comentando em apoio a outros”, e que esse conteúdo tendia a ser mais extremo do que nos outros grupos. Por exemplo, seis oficiais faziam parte de um grupo chamado “Academia Piloto de Helicópteros Anti-SJW Pinochet”, uma referência à prática do ditador chileno de assassinar dissidentes atirando-os de helicópteros sobrevoando massas de água. Esse grupo frequentemente continha mensagens racistas e anti-semitas, de acordo com o Reveal.

[Reveal via the Verge]