Lançado em outubro do ano passado, o Windows 8 é uma aposta sem precedentes da Microsoft. Como toda grande aposta, o seu desempenho no mercado era uma grande incógnita na época. Agora, seis meses depois de ser disponibilizado aos consumidores, o silêncio da Microsoft só coloca mais desconfiança na capacidade do sistema reagir aos novos concorrentes da “Era Pós-PC”.

O Windows 8 é sistema híbrido com a pretensão de  atender usuários de computadores convencionais e tablets, teoricamente sem prejuízo independentemente do cenário em que ele for utilizado. Na prática ele carrega uma série de concessões e o discurso de não ter “comprometimentos”, falado à exaustão pela Microsoft durante o período de desenvolvimento, parece não se sustentar.

Seis meses após seu lançamento, o último número concreto de vendas que temos do Windows 8 é o de 60 milhões de cópias, de janeiro. Havia uma grande expectativa pela declaração de números atualizados com o relatório fiscal da Microsoft, liberado alguns dias atrás, mas estranhamente ele não trouxe esse dado — coisa que, no passado, era escancarado e fruto de muita festa em Redmond. E esse é o grande problema: o silêncio pode ser entendido como um atestado de que as coisas não vão bem.

A culpa é do Windows 8?

Há outros motivos que corroboram essa suspeita. Diversos parceiros de longa data da Microsoft amaldiçoam o Windows 8 e atribuem a ele as vendas fracas de notebooks e computadores. A Microsoft devolve a crítica e diz que a culpa é das fabricantes — mas depois, estranhamente, baixa o valor das licenças para parceiros OEM. Falta aplicativo e, ante a solidez e familiaridade do Windows 7, é difícil mesmo convencer uma base acostumada a 20 anos de um sistema que pouco mudou comprar um que some com o menu Iniciar (mesmo que, na prática, essa ausência não faça falta).

Apesar dessa situação delicada, talvez o maior problema do Windows 8 não seja ele mesmo, mas a nova safra de equipamentos leves, rápidos e móveis: os smartphones e tablets. Desde 2011 smartphones vendem mais que computadores e a previsão é de que agora, em 2013, os tablets sigam o mesmo caminho. A Microsoft sabe que o cenário é desfavorável para PCs, tanto que investiu na transformação do seu principal produto, o Windows, em algo “tablet-friendly”. Só que, com isso, ela comprometeu o que tinha de melhor e mais estabelecido no segmento de computadores convencionais — que, a despeito de vários prognósticos bem negativos, ainda vende bastante e não deverá sumir repentinamente, como ocorreu com os netbooks, a curto ou mesmo médio prazo.

O que dizem os analistas?

Surface

A gente sempre fica com um pé atrás quando se trata de previsões de analistas e consultorias como Gartnet, IDC e afins. O mercado de tecnologia é muito volátil, muda com extrema velocidade. Os netbooks, citados ali em cima, em 2008 eram o Santo Graal do segmento; no começo do ano, a categoria morreu com o anúncio de que a Asus tinha pulado do barco. Dito isso, vejamos os próximos números com cuidado.

A Gartner diz que a distribuição de computadores no primeiro trimestre de 2013 chegou ao nível mais baixo desde 2009. A IDC, que no mesmo período a queda na distribuição, de 13,9%, foi a mais profunda da história. Ambas computam tablets e híbridos, ainda que rodando Windows 8, em categorias diferentes, o que é um ponto bem importante e que foi muito bem explorado por Ed Bott. Todos esses dados são baseados em distribuição, não em vendas diretas aos consumidores.

Outra consultoria, a Strategy Analytics, disse que tablets com Windows alcançaram 7,5% do mercado — um número quase surpreendente para o período, mas bem distante dos líderes, iPad e Android, com 48,2% e 43,4%, respectivamente. Ela atribui o baixo desempenho à “distribuição muito limitada, escassez de apps de primeiro escalão e confusão no mercado”.

Windows Blue, um futuro incerto

O Windows Blue, ou Windows 8.1, será a primeira das prometidas atualizações anuais do Windows. Já vazaram algumas builds e, com elas, vimos que melhorias pontuais serão feitas, mas o que mais chama a atenção, não do ponto de vista técnico, mas em termos de mercado, é a possível volta do botão Iniciar e a possibilidade de pular a interface moderna. Alguns não hesitam em apontar dedos dizendo que se trata de uma confissão de que, afinal, a Microsoft errou ao remover o botão Iniciar. Para nós, parece mais uma adequação à demanda. Um erro, sim, então melhor corrigi-lo do que insistir em uma abordagem que não funcionou, certo?

Mas o problema é maior. Como dito acima, a Microsoft subjugou um segmento que domina mas que está em decadência, para apostar num outro em plena ascensão. Na ânsia de abranger tudo, ficou a sensação de “mais ou menos” nas duas plataformas. Saber como o sistema está se saindo comercialmente é importante para recobrar a confiança da indústria e no próprio Windows, aspectos vitais para que uma plataforma se consolide — e, considerando a guinada que foi o Windows 8, dá para considerá-la uma plataforma ainda em busca de consolidação. Tanto mistério, nesse caso, só atrapalha. [The Verge. Foto: Guillem Alsina/Flickr]