A decisão sobre quem deveriam ser os primeiros da fila a receber a vacina contra COVID-19 tem sido amplamente discutida nos últimos meses. Com algumas exceções, a maioria dos países prioriza profissionais de saúde e idosos. Em uma emergência de saúde como a atual, há quem questione se essa é realmente a melhor abordagem para controlar a pandemia. E a resposta é: depende do contexto, mas na maioria das vezes é melhor priorizar os idosos.

Pesquisadores da Universidade do Colorado em Boulder, nos EUA recorreram à matemática para saber em quais situações idosos devem ser priorizados. O artigo publicado na Science mostra as projeções baseadas em diferentes cenários e estratégias de distribuição de vacinas em países ao redor do mundo.

Os pesquisadores criaram, inclusive, uma ferramenta para você fazer diferentes simulações. Se nós considerarmos que a taxa de contágio seja de 1,2; que 0,1% da população seja vacinada por dia; com uma vacina que tenha 60% de eficácia (é a mais baixa com que a ferramenta trabalha),  aplicar as vacinas em idosos primeiro diminui mais as taxas de mortes.

As informações coletadas que foram levadas em consideração na pesquisa incluem os dados demográficos de cada país, número atualizado de quantas pessoas já testaram positivo para COVID-19, o quão rápido o vírus está se espalhando, a velocidade com que as vacinas estão sendo aplicadas e a sua eficácia estimada.

A partir disso, os pesquisadores decidiram simular cinco cenários diferentes em relação a qual grupo seria vacinado primeiro: crianças e adolescentes; adultos entre 20 e 49 anos; adultos a partir de 20 anos; adultos a partir de 60 anos (considerando que cerca de 30% deles podem se recusar a receber a injeção); e, por fim, qualquer pessoa que quisesse a vacina enquanto os estoques durarem.

O artigo apresentou o resultado encontrado nos Estados Unidos, Bélgica, Brasil, China, Índia, Polônia, África do Sul, Espanha e Zimbábue. As estratégias funcionaram de maneira diferentes em cada país, tendo em vista as peculiaridades locais de cada um. Ainda assim, na maioria dos cenários, a decisão de priorizar adultos acima de 60 anos foi a que resultou em menos mortes.

Os autores observaram que a maioria das vacinas apresenta uma eficácia de 90% a 95% em proteger contra casos graves de Covid-19. No entanto, ainda não há um consenso sobre como elas poderão impedir a infecção ou transmissão do vírus. Caso elas não consigam bloquear isso e o número de pessoas assintomáticas aumente, também faria mais sentido vacinar os mais idosos para que, pelo menos, eles estejam protegidos contra casos graves da doença.

Apenas no caso de o vírus já estar sob controle e a vacina ser capaz de bloquear a infecção e transmissão é que faz sentido colocar os mais jovens no início da fila. Mas isso não é o que acontece na maioria dos países.

Em comunicado da Universidade do Colorado em Boulder, a autora principal do estudo, Kate Bubar, declarou que “para os profissionais essenciais que possam estar se sentindo frustrados por não serem os primeiros, nós esperamos que esse estudo ofereça algum esclarecimento. Nós sabemos que é um grande sacrifício a se fazer, mas o nosso estudo mostra que isso pode salvar vidas”.

Outra solução para poupar o maior número de vítimas possível é acelerar a distribuição de vacinas, é claro. De acordo com o estudo, se o ritmo atual de aplicações dobrasse, a taxa de mortalidade por Covid-19 poderia ser reduzida em 23%, ou 65 mil vidas, nos próximos três meses.

Outra sugestão feita pelos autores com base no estudo é que, no caso de países em que o vírus já infectou uma grande parcela da população e não há vacinas suficientes, talvez faça sentido colocar os mais jovens que já testaram positivo para Covid-19 no final da fila.

Os autores ainda ressaltam que as vacinas não devem ser a única estratégia para combater a pandemia de Covid-19. Daniel Larremore, coautor do estudo e biólogo computacional do Instituto BioFrontiers da universidade, afirmou que “para permitir que a vacina chegue às pessoas antes do vírus, precisamos não apenas distribuí-la rapidamente e levá-la às pessoas mais vulneráveis. Temos também que manter o vírus sob controle com máscaras, distanciamento e políticas inteligentes”.