Grandes incêndios na Amazônia brasileira têm sido registrados e em um ritmo sem precedentes. Novos dados de satélite do Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP, na sigla em inglês) mostram que, entre 28 de maio e 25 de agosto de 2020, mais de 500 incêndios florestais devastaram cerca de 369.000 hectares.

O MAAP define a gravidade dos incêndios com base em seu índice de aerossol, em conjunto com uma medida da presença de níveis de partículas de fumaça e cinzas no ar. Surpreendentemente, quase metade desses incêndios florestais aconteceu apenas nas últimas duas semanas. O maior dos incêndios documentados foi no norte do Brasil, em 17 de agosto, quando foram perdidos quase 10.500 hectares de terra,

Ao contrário de incêndios que atualmente têm atingido outras partes do globo, como é o caso da Califórnia (EUA), esses incêndios florestais não foram causados ​​por raios. Em vez disso, foram criados por pessoas, principalmente aquelas que buscavam limpar terras para mineração, pecuária e indústrias de cultivo de soja. E a maior parte dessa limpeza é feita de forma ilegal, por pessoas ligadas a uma rede criminosa que há anos opera no país.

“O desmatamento hoje tem laços muito fortes com o crime organizado”, disse por e-mail Claudio Angelo, chefe de comunicações do Observatório do Clima do Brasil.

A taxa de desmatamento na Amazônia brasileira aumentou com o presidente Jair Bolsonaro. Em meio a críticas, no mês passado Bolsonaro instituiu uma proibição de quatro meses para fiscalizar atividades ilegais na floresta e, em maio, enviou tropas militares para combater o desmatamento.

No entanto, ativistas ambientais dizem que essas medidas não estão relacionadas a políticas públicas contra o desmatamento. Na verdade, representam o contrário: são usadas apenas para aumentar o esquema de abrir ainda mais a Amazônia para os negócios. Entre março e maio, o governo Bolsonaro emitiu 195 portarias e decretos para desmantelar ações de proteção ambiental no Brasil.

Este desmatamento desenfreado tem afetado os ecossistemas da Amazônia brasileira, que são alguns dos mais biodiversos do mundo. Também está destruindo as terras às quais as comunidades indígenas locais têm direito – e das quais dependem para viver.

Pesquisas recentes da Human Rights Watch, organização internacional não-governamental que defende e realiza pesquisas sobre os direitos humanos, mostram que os incêndios estão poluindo o ar que milhões de pessoas respiram, já que a fumaça que eles criam está repleta de partículas. O relatório estima que, em 2019, os incêndios causaram 2.195 hospitalizações devido a doenças respiratórias no Brasil, afetando quase 500 crianças com menos de 1 ano de idade e mais de mil pessoas com mais de 60 anos.

Os incêndios também têm consequências terríveis mesmo para quem está fora do país, uma vez que estão destruindo um dos sumidouros de carbono mais importantes do mundo. Estes sumidouros armazenam naturalmente o dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, tornando o ar mais limpo e puro. As árvores das florestas tropicais estão perdendo sua capacidade de “sequestrar” CO2, e as que pegam fogo estão liberando carbono na atmosfera. Em 15 anos, a Amazônia poderia começar a emitir mais carbono do que inspira, piorando ainda mais a crise climática.

Mesmo se esse desmatamento parasse agora, não está claro se a Amazônia poderia se recuperar totalmente de todos esses danos. Mas se os líderes quisessem, eles poderiam começar a remediar a situação desde já, restabelecendo as proteções ambientais e parando o crime desenfreado contra o meio ambiente.

Inúmeras pesquisas também mostram que reconhecer os direitos de propriedade aos povos indígenas do Brasil ajudaria (e muito) a conter o desmatamento – além de ser uma medida extremamente importante para os direitos humanos. As soluções são claras. Agora tudo que precisamos é um pouco de vontade política do governo Bolsonaro.