Sem Tempo para Morrer, o 25º filme de James Bond, parece combinar 25 filmes em um. Tanta coisa acontece nessa história – preenchida com cenários amplos e variados – que, quando a gente chega ao fim, os eventos do início parecem ter acontecido há meses.

Não se esqueça: o único motivo pelo qual o público teve que esperar seis anos entre os filmes de James Bond foi a pandemia. Agora, porém, essa espera prolongada quase funciona a favor do filme. Seus 163 minutos de duração e enredo labiríntico nos dão mais do que estávamos esperando. Esperamos muito por Sem Tempo para Morrer. Mas, felizmente, o filme entrega.

Enquanto a maioria dos filmes de James Bond são independentes, Sem Tempo para Morrer é muito mais uma sequência das produções anteriores. Ele conta com eventos não apenas do penúltimo filme, Spectre, mas de Cassino Royale e de outros também. Não é necessário lembrar ou assistir novamente esses filmes. Mas fazer isso pode ajudar imensamente, já que vários personagens e histórias retornam às telas.

As coisas melhoram com James Bond (Daniel Craig), agora aposentado, vivendo uma boa vida com sua namorada Dra. Madeleine Swann (Léa Seydoux). O passado de Swann, um mistério no filme anterior, volta a tona, e James é forçado a tomar decisões difíceis, que o trazem de volta ao serviço.

Bond não sabe, mas muitas dessas escolhas se devem às ações de um terrorista chamado Lyutsifer Safin (Rami Malek). Desde a primeira cena do filme, fica muito claro que Safin é o grande malvadão da vez. Quase instantaneamente, o filme se afasta dele. Bond está de volta, lutando contra agentes Spectre e resolvendo mistérios envolvendo o vilão anterior, agora encarcerado, Blofeld (Christoph Waltz). Safin, por outro lado, aparece em apenas mais uma cena antes do ato final. Bond passa mais tempo lutando com o agente que assumiu o título de 007, interpretado por Lashana Lynch, do que brigando com o vilão do filme.

Que nós, o público, saibamos que Safin está por trás de tudo pode, às vezes, fazer a narrativa parecer inchada. Um exemplo é uma grande cena de ação em Cuba envolvendo uma agente da CIA chamada Paloma (Ana de Armas). Ela e Bond se unem para obter certas informações e matar diversos bandidos de forma espetacular. Isso faz com que o público instantaneamente se apaixone por sua personagem. Aí ela diz “adeus” e pronto, vai embora.

A missão que ela e Bond completam é essencial para a trama, então a cena não é exatamente um desperdício. Mas ainda assim, parece um pouco exagerada. E esse padrão se repete ao longo de todo o filme: cena após cena, o desenvolvimento do personagem e do enredo avançam ligeiramente, enquanto as cenas em si aumentam exponencialmente, como uma dúzia de “mini-filmes” de 007. O estilo lento e repetitivo pode ser um pouco cansativo.

No entanto, este é um filme de James Bond — que é bom quando é exagerado. Mais armas, mais carros, mais motocicletas, mais engenhocas, e mais martinis. Essas coisas são a força motriz de toda a franquia. E Sem Tempo para Morrer tem tudo isso e mais um pouco — ainda que, às vezes, seja um pouco demais.

Isso se deve ao empenho do diretor Cary Joji Fukunaga (True Detective), trabalhando a partir de um roteiro que ele escreveu em autoria com Phoebe Waller-Bridge (Fleabag) e Neal Purvis e Robert Wade (Skyfall). Pela primeira cena, fica evidente que Fukunaga está encantado em experimentar nesse mundo.

Quase todas as cenas acontecem em um local diferente, com novas roupas, ambientes e obstáculos, todos contribuindo para dar profundidade à história. Há uma cena na neve, uma subaquática, na floresta, em uma cidade… é sempre algo novo. Os gêneros também se misturam um pouco. Existem elementos de terror, uma tonelada de comédia e um pouco de drama. Tudo isso é 100% necessário? Na verdade, não. Mas é uma grande homenagem, ao mesmo tempo que reforça a franquia.

Outra coisa que Sem Tempo para Morrer faz muito bem é humanizar James Bond. Não se preocupe. Ele ainda é um “fodão imparável”, subindo escadas enquanto arrasa bandidos com uma metralhadora na mesma cena. Só que Fukunaga usa a história e os personagens de outros filmes para fazer você se importar com ele (como pessoa), não apenas torcendo pelo sucesso dele (como um herói).

O fato de Bond ter uma história com Blofeld e Madeleine, assim como com M (Ralph Fiennes), Moneypenny (Naomie Harris), Q (Ben Whishaw) e outros, o torna mais verdadeiro. Há amigos, inimigos. Tudo isso adiciona uma tonelada de possibilidades ao filme — até que a trama finalmente volta ao que, exatamente, Safin está tramando.

Craig combina arrogância com humanidade aqui, retratando um Bond tão tridimensional quanto jamais o vimos. O carisma de Lynch e sua presença na tela se tornam instantaneamente  aliadas de Bond — a química fica clara nas cenas que eles compartilham. Seydoux, também, dá a Sem Tempo para Morrer um coração, equilibrando vulnerabilidade com força de uma forma muito realista.

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Somando essas performances, a forma como a história escala e os links com os filmes anteriores e Sem Tempo para Morrer tem muito a cobrir — mas faz tudo isso bem. Você sente sua profundidade, porém, vê uma daquelas histórias que é legal de descobrir e que servem como uma boa forma de passar o tempo. O próximo filme de James Bond não será com Daniel Craig, mas ele pode sair dizendo que deu ao público provavelmente o maior — e definitivamente o mais emocionante — filme de Bond de todos os tempos.

Sem Tempo para Morrer será lançado nos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira (30).