O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) informou nesta terça-feira (27) que identificou os problemas relacionados a uma falha que interrompeu o acesso a seu site oficial e também à plataforma Lattes, que guarda currículos e publicações científicas, além de servir como um serviço de apoio a pesquisadores. Os dados estavam fora do ar desde sábado (24) e, segundo o CNPq, devem voltar a ser disponibilizados ao longo dos próximos dias.

Segundo o CNPq, o problema que causou a indisponibilidade dos sistemas já foi diagnosticado em parceria com empresas contratadas, e que os procedimentos para sua reparação foram iniciados. Sem dar muitos detalhes, tudo leva a crer que a migração de servidores foi a causa do apagão de dados. O conselho declarou que não há perda de dados na plataforma Lattes, uma vez que “existem backups cujos conteúdos estão apoiando o restabelecimento dos sistemas”.

A pasta também explicou que o pagamento das bolsas implementadas não será afetado. O que continuam suspensos são os prazos de ações relacionadas ao fomento do CNPq, incluindo a prestação de contas. Já os prazos de ofício serão prorrogados.

Nesta segunda-feira (26), o CNPq disse que o problema que provocou a queda dos serviços foi identificado já no sábado, atribuindo a indisponibilidade a um evento não especificado. Somente o site do conselho, que é hospedado no servidor central do governo federal, estava funcionando. Até o momento, o governo federal não se pronunciou sobre a paralização das plataformas da agência.

“O CNPq informa que segue em esforço conjunto com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI) para o restabelecimento dos sistemas após evento que causou a indisponibilidade das plataformas. A prioridade é restaurar o acesso aos currículos na Plataforma Lattes o mais rápido possível. Informamos, também, que todos os prazos estão suspensos e serão prorrogados”, disse a agência federal de fomento à pesquisa.

Cerca de 84 mil pesquisadores são financiados co recursos d CNPq. Outros órgãos do governo, entre eles a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), também realizam operações com auxílio do Lattes.

Queima em servidor seria a causa do problema

Em entrevista a Yahoo! Notícias, o presidente do Sindicato Nacional dos Gestores Públicos em Ciência e Tecnologia (SindGCT), Roberto Muniz, criticou a falta de atualizações e manutenção no Lattes. Isso justificaria as quedas constantes de acesso.

“A falta de manutenção do CNPq tem gerado esse tipo de problema. Faz anos que nós estamos com problema nas plataformas, que estão se tornando obsoletas. Os pesquisadores têm dificuldade de acessar o sistema, que cai com frequência e às vezes perde registro”, declarou.
O presidente do SindGCT disse que ainda é cedo para falar sobre perda de dados armazenados nesses sistemas, mas pesquisadores e funcionários do conselho estão apreensivos que informações podem ser perdidas caso as plataformas não voltem a funcionar o quanto antes.

Imagem: Divulgação
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A Folha de S.Paulo alegou mais cedo nesta terça-feira (27) que funcionários apontam para a queima de um dispositivo de um equipamento que tem a função de controlar os servidores onde as plataformas ficam hospedadas. A falha teria ocorrido durante a migração para um novo equipamento.

Marcos Pontes, ministro da Ciência e Tecnologia, disse à Folha que a resolução da falha tem sido liderada pelo CNPq para que a normalidade dos sistemas seja reestabelecida nos próximos dias. Pontes também afirma que “não há problemas de orçamento, apenas questão de tempo de manutenção para o retorno”.

Governo federal corta repasses para a pasta

Desde 2019, o governo do presidente Jair Bolsonaro tem feito cortes milionários nas pastas relacionadas a pesquisas científicas. Entre as principais estão os já citados CNPq e Capes, mas também houve redução de investimento no Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).

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Em 2020, o CNPq contou com apenas R$ 22 milhões para fomento à pesquisa, o que representa somente 18% do valor destinado em 2019. Também no ano passado, Capes perdeu R$ 1,2 bilhão em comparação com os R$ 4,2 bilhões no primeiro ano do governo Bolsonaro. No FNDCT, a situação foi ainda mais crítica: o corte para 2021 foi de R$ 4,8 bilhões.

Este ano, o CNPq teve o menor orçamento desde 2000. Segundo levantamento do jornal O Globo no Sistema Integrado de Operações (SIOP) do governo federal, a pasta tem R$ 1,21 bilhão de orçamento, contra R$ 2,35 bilhões de 21 anos atrás. O período com maior investimento para o setor foi em 2013, quando o valor chegou a R$ 3,13 bilhões.

[CNPq, Folha de S.Paulo, Estadão, Yahoo! Notícias, El País, O Globo]