Um biólogo que trabalhava no Mar de Ross, na Antártica, encontrou uma variedade de restos mortais de pinguins-de-adélia. Alguns deles parecem ter morrido recentemente, só que, na verdade, eles são bastante antigos, e só foram revelados recentemente pelos efeitos do aquecimento global.

Quatro anos atrás, o biólogo Steven Emslie estava examinando a costa da Antártica no Cabo Irizar do Mar de Ross quando encontrou os restos mortais dos pinguins-de-adélia. Ele os reconheceu não por sua aparência, mas pelo número incomum de seixos empilhados na área, que esses pinguins usam para fazer ninhos. Muitas das carcaças, a maioria de filhotes, pareciam degradadas e bastante velhas, mas algumas aparentavam ter morrido recentemente.

Emslie não achava possível encontrar restos mortais dos pinguins-de-adélia recém-falecidos no Cabo Irizar. Hoje, o Mar de Ross hospeda quase 1 milhão de pares reprodutores da espécie, mas nenhuma colônia de pinguins ativa foi observada neste local desde que foi explorado pela primeira vez pelo explorador britânico Robert Falcon Scott, no início do século 20.

“Em todos os anos que tenho feito pesquisas como esta na Antártica, nunca vi um lugar assim.”

Enquanto continuava a explorar a área, Emslie encontrou um monte de ossos de pinguins espalhados pela superfície, mas também carcaças de filhotes ainda cobertos de penas. O grau de degradação visto nesses filhotes foi consistente com o que se poderia esperar de carcaças encontradas em colônias modernas. Ele também encontrou manchas de guano, que mais uma vez apontavam para uma ocupação recente.

Restos de um pequeno pinguim. O aspecto das penas está razoavelmente preservado, assim como o bico e as patas.Os restos mortais de um antigo filhote de pinguim, com muitas de suas penas e tecidos ainda intactos. Imagem: Steven Emslie.

Imaginando ter encontrado algo importante, Emslie convocou seus colegas ao local. Eles extraíram amostras dos montes de seixos.

Como ele explicou em um comunicado divulgado pela Geological Society of America, sua equipe “escavou em três desses montes, usando métodos semelhantes aos dos arqueólogos, para recuperar tecidos preservados de osso, penas e cascas de ovo de pinguim, bem como partes duras de presas no guano”.

Emslie disse que o solo estava “muito seco e empoeirado, assim como outros locais muito antigos em que trabalhei no Mar de Ross”, de onde foi possível coletar muitos restos de pinguins.

A datação por radiocarbono dos restos mortais confirmou as suspeitas de Emslie — apesar de sua nova aparência, os restos mortais eram muito antigos. O que ele não esperava era a idade.

Os resultados mostraram que “os vestígios são realmente antigos e que estão representados três períodos de ocupação dos pinguins-de-adélia”, sendo que a mais antiga data de cerca de 5.000 anos atrás, enquanto a ocupação mais recente terminou há cerca de 800 anos, segundo o artigo publicado na revista Geology.

“Em todos os anos que tenho feito pesquisas na Antártica, nunca vi um local como este”, disse Emslie no comunicado.

Vários ossos de diversos tamanhos sobre um solo rochoso de cor bege. Há um pequeno pedaço de gelo no canto inferior esquerdo da imagem.Ossos de pinguim-de-adélia na superfície e uma variedade de seixos, que as aves usavam para fazer ninhos. Imagem: Steven Emslie

Emslie disse que as condições para os pinguins eram ideais entre 4.000 a 2.000 anos atrás, pois foi um período quente de “maior produtividade marinha”. Eventualmente, no entanto, cada uma das três ocupações documentadas terminou, provavelmente devido ao aumento da cobertura de neve sobre o cabo ou à invasão do gelo marinho causado por temperaturas de resfriamento. Os pinguins pegos bem no final de suas ocupações deixaram cadáveres que ficaram cobertos de neve e gelo, preservando-os até agora.

Esses antigos pinguins mortos só recentemente apareceram na neve e no gelo, o que explica sua nova aparência. Sem surpresa, Emslie, o único autor do artigo, disse que isso pode ser atribuído às mudanças climáticas. Como o jornal aponta, a temperatura anual no Mar de Ross aumentou de 1,5°C a 2°C desde os anos 1980, enquanto imagens de satélite da área tiradas desde 2013 mostram que o cabo rochoso está aparecendo cada vez mais conforme a neve e o gelo derretem.

A mudança climática resultou em algumas descobertas científicas interessantes recentemente, mas a triste realidade é que todo esse aquecimento está prestes a fazer mais mal do que bem quando se trata de estudar o passado.