Um ex-gerente de parcerias estratégicas do Facebook para influenciadores globais, Mark S. Luckie, enviou um memorando de 2.500 palavras para todos os funcionários da empresa antes de sua saída em novembro, dizendo que a companhia tem “um problema com pessoas negras”, noticia o Guardian.

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No memorando, que Luckie também postou publicamente no Facebook na terça-feira (27), o ex-funcionário escreve que as pessoas negras “estão ultrapassando de longe outros grupos na plataforma em uma série de métricas de engajamento”, compreendendo um dos grupos demográficos mais ativos nos Estados Unidos. Ainda assim, ao mesmo tempo, seus interesses são amplamente ignorados pela empresa, e tentativas de resolver a situação consistentemente acabam em poucas mudanças, escreve Luckie.

Luckie apontou vários incidentes de usuários negros tendo seu conteúdo removido ou contas sendo suspensas “com pouco recurso”, enquanto em outros casos seus pedidos de ajuda são ignorados “até virem uma grande história na imprensa”, como no caso de uma grande página do movimento Black Lives Matter (“Vidas Negras Importam”) que mais tarde foi revelada como sendo administrada por um australiano branco escondido atrás de nomes falsos. Ele acrescentou que os funcionários negros do Facebook são frequentemente tratados com desrespeito e que, embora o Facebook tenha progredido na contratação de mais funcionários negros, “os esforços que promovem a inclusão, não apenas a diversidade, estão sendo interrompidos a nível administrativo”:

É importante para qualquer empresa de tecnologia ter uma equipe que reflita as comunidades que a plataforma busca empoderar se ela quiser ser bem sucedida. Um enorme parabéns para as equipes que ajudaram a aumentar o número de funcionários negros de 2% da força de trabalho em 2016 para 4% em 2018.

… Embora mudanças incrementais estejam sendo feitas, o fato é que a população de funcionários do Facebook não reflete sua base de usuários mais engajada. Muitas vezes, há mais diversidade em apresentações de palestras e produtos do que nas equipes que as apresentam. Em alguns edifícios, existem mais pôsteres do “Black Lives Matter” do que pessoas negras. O Facebook não pode alegar estar conectando comunidades se essas comunidades não estão representadas proporcionalmente em sua equipe.

“A privação de direitos das pessoas negras na plataforma por parte do Facebook reflete a marginalização de seus funcionários negros”, escreveu Luckie. Ele apontou que ouviu falar de “muitas histórias de funcionários negros” sobre desrespeito ou marginalização por parte de colegas de trabalho, assim como relatos de que os empregados negros nas instalações da empresa sendo às vezes tratados com hostilidade pela segurança:

Durante meu tempo na empresa, ouvi muitas histórias de funcionários negros sobre um colega ou um gerente os chamando de “hostis” ou “agressivos” por simplesmente compartilhar suas ideias de maneira não muito diferente da dos membros não-negros da equipe. Alguns funcionários negros relataram serem especificamente dissuadidos por seus gerentes de se tornarem ativos no grupo Black@ ou de fazer “coisas de negro”, mesmo fora do horário de trabalho. Muitos funcionários negros podem contar histórias sobre terem sido agressivamente abordados pela segurança do campus além do necessário.

Como outro exemplo, Luckie escreveu que pelo menos duas ou três vezes por dia colegas na sede do Facebook em Menlo Park, na Califórnia, “olhavam diretamente para mim e tocavam ou seguravam a carteira ou colocavam as mãos no bolso para segurar apertado até que eu passasse”. Ele acrescentou que o departamento de recursos humanos do Facebook parecia mais inclinado a defender “o gerente e o status quo do Facebook” quando questões sobre o tratamento desigual eram levantadas, escrevendo que muitas vezes essas “experiências são racionalizadas, ou tentam nos fazer acreditar que esses padrões desanimadores são frutos da nossa imaginação”.

Luckie incluiu dez recomendações no final de seu post, incluindo que qualquer equipe com pelo menos um quadro de funcionários dedicado à diversidade deve apresentar um “plano estratégico de como esse trabalho será incorporado em metas maiores para a equipe”. Outras recomendações incluíam a criação de metas direcionadas por dados para garantir que vários departamentos “reflitam a demografia do Facebook”, implementando mais “treinamentos de competência cultural para equipes de operações” envolvidas com moderação em vez de “algoritmos ou IA” e mais grupos de foco dedicados à experiência de usuários negros e latinos. Luckie também escreveu que a administração deveria criar sistemas internos para que os funcionários “denunciem anonimamente microagressões”, como linguagem racialmente codificada, críticas negativas desproporcionais a subordinados femininos e minoritários e policiamento de “atividades culturais” fora do trabalho.

Um ex-funcionário negro do Facebook disse à CNBC que eles não ficaram surpresos ao ler a nota, dizendo que a empresa “prega a diversidade e a inclusão como se fosse uma oportunidade de marketing, e talvez seja genuinamente significativo para eles na superfície. Mas, quando se trata de integração tática e cotidiana de seu treinamento de ‘viés inconsciente’, a empresa ainda mostra ser um grupo de pessoas brancas extremamente privilegiadas que fazem escolhas igualmente enviesadas e discriminatórias como outros líderes brancos do setor”.

O porta-voz do Facebook Anthony Harrison disse à CNN em comunicado que a empresa está tentando:

O crescimento na representação de pessoas de grupos mais diversos, trabalhando em muitas funções diferentes em toda a empresa, é um fator-chave para nossa capacidade de ter sucesso. Queremos apoiar totalmente todos os funcionários quando há problemas denunciados e quando podem haver microcomportamentos que se somam. Vamos continuar fazendo tudo o que pudermos para ser uma empresa verdadeiramente inclusiva.

Como a CNN apontou, Luckie trabalhou anteriormente em outras empresas de tecnologia, como Reddit e Twitter, e, depois de deixar a segunda plataforma, escreveu um artigo no Medium, observando que o maior obstáculo para uma maior diversidade era a ideia de um “ajuste cultural”:

Os americanos brancos têm 91 vezes mais amigos brancos do que amigos negros, de acordo com o Public Religion Research Institute. Três quartos dos brancos têm redes sociais inteiramente brancas, sem qualquer presença minoritária. Se os funcionários atuais não conhecem pessoas de cor, eles não têm quem recomendar.

Luckie disse à CNN que escolheu o caminho de tornar público o memorando porque “o Facebook não faz nenhuma mudança significativa a nível de empresa, a menos que seja responsabilizado publicamente”. Ele acrescentou que “não houve resposta da liderança executiva. Isso é estranho para algo que gera tanta conversa assim. Eu sei que eles estavam falando sobre isso”.

Como apontado pelo Guardian, Luckie também tuitou uma captura de tela de uma conversa com o diretor de parcerias estratégicas, Ime Archibong, que lhe disse que ele tinha sido “egoísta e dissimulado” e que postar o memorando servia a uma “agenda egoísta”.

O Facebook tem passado por uma série interminável de escândalos ultimamente, incluindo acusações de que suas plataformas têm sido usadas para esforços desenfreados de desinformação e para minar a democracia por atores políticos. A empresa também está sendo culpada por administrar de forma imprudente os dados dos usuários, além da acusação de que contratou uma empresa republicana de pesquisa em cima de concorrentes para atacar críticos como o filantropo bilionário e sobrevivente do Holocausto George Soros.

Em sua nota, Luckie escreveu que ele e outros funcionários negros com quem conversara acreditavam que a discriminação que enfrentaram na companhia era “um padrão de comportamento profundamente conectado com a cultura no Facebook”.

“… Seguir testemunhando e estar no centro da sistemática privação de direitos de vozes sub-representadas, embora não intencional, é mais do que eu estou disposto a sacrificar pessoalmente”, concluiu Luckie. “Perdi a vontade e o desejo de defender em nome do Facebook.”

A nota completa (em inglês) pode ser lida abaixo:

[Mark S. Luckie via The Guardian/CNN]