A batalha pelas papilas gustativas das crianças já é notícia velha, mas deixa eu recapitular para você. Crianças gostam de açúcar. Empresas sabem disso. Elas colocam açúcar em tudo, até mesmo em cereais matinais supostamente saudáveis. Elas colocam jogos e quadrinhos nas caixas. Agora, estamos com um monte de crianças obesas, algumas das quais nunca comeram uma fruta saudável.

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Mas como consertar o problema? As empresas deveriam deixar as frutas mais doces, ou os legisladores deveriam tentar manter o açúcar longe dos alimentos da garotada?

Uma equipe do Monell Chemical Senses Center, na Pensilvânia, tem trabalhado na tentativa de entender essa batalha. Seus primeiros resultados parecem mostrar que frutas mais doces podem ser o jeito de fazer as crianças de fato quererem comer frutas. A chave é o “ponto de êxtase” da criança.

“Vemos em vários açúcares que as crianças têm um ponto de êxtase maior que os adultos”, contou ao Gizmodo Julie Mennella, autora do estudo. “Sejam edulcorantes não nutritivos, frutose ou sacarose.” O ponto de êxtase é exatamente o que soa: a quantidade preferida de um ingrediente para se ter o melhor sabor. O trabalho de Mennella mostrou que os pontos de êxtase das crianças são maiores que os de adultos por coisas como açúcar e sal.

Seu novo estudo, publicado recentemente no Journal of Food Science, mira a mesma ideia de ponto de êxtase, mas nas frutas, em vez do açúcar ou do doce. Sem surpresas, crianças preferem as mais doces.

A equipe testou isso primeiro dando três tipos de mirtilos a um grupo de crianças e adultos. Todo mundo preferiu o mirtilo Keecrisp, que era de longe o mais doce. Cada grupo então testou soluções com diferentes concentrações de frutose, e as crianças preferiram as misturas mais doces em um nível improvável que fosse só por acaso. Mas, então, os grupos vieram e testaram uma segunda leva, em que um mirtilo diferente, o Arcadia, era apenas levemente mais doce. Desta vez, maioria das crianças preferiu essa fruta, enquanto os adultos não tiveram muita preferência.

Novamente, isso pode não parecer novo — já sabíamos que isso era verdade para a sacarose, ou açúcar de mesa. Mas o ponto de êxtase para a frutose é um dado importante de se ter em mãos para ajudar os pesquisadores a fazerem as crianças comerem mais frutas, disse Mennella. “Precisamos descobrir como podemos reensinar a paleta (de sabores) das crianças”, afirmou.

Por que as crianças são mais sensíveis ao açúcar e por que gostam mais dele? Mennella acha que pode ser apenas (um aspecto) evolucionário. Talvez as pessoas mais jovens prefiram frutas doce de alta energia durante os anos em que mais crescem. A preferência pelo sabor adocicado pode ter sido projetada especificamente para coisas como frutas ou leite materno. “Mas agora temos uma incompatibilidade no ambiente”, disse. “Temos muitas comidas que são doces e baratas, mas não necessariamente as melhores para as crianças.”

Perguntei a Michael Moss, autor do bestseller Salt Sugar Fat: How the Food Giants Hooked Us, o que ele achava do trabalho. “Acredito que esse seja um estudo extremamente importante”, ele disse. Mas o estudo o fez se perguntar se a melhor solução é realmente aumentar a quantidade de açúcar na fruta para que as crianças a prefiram, ou fazer com que todas as empresas diminuam a quantidade de açúcar adicionado em sua comida. O estudo de Mennella parece favorecer mais o primeiro.

Ainda assim, a obesidade infantil é uma questão complexa enorme. Não sabemos muito sobre os possíveis efeitos negativos da frutose, disse Moss, e ele não sabia aonde o aumento de níveis de açúcar nas frutas poderia nos levar a longo prazo. Pais já foram aconselhados a limitar a ingestão de sucos de frutas de crianças pequenas, já que eles perdem muitos nutrientes bons ou contêm açúcar adicionado. Mas a baixa ingestão de frutas parece estar correlacionada ao aumento de doenças não comunicáveis. Então, temos ainda uma questão de acesso — as crianças podem não ter frutas e vegetais frescos disponíveis. No estudo, 10% das crianças e dos adultos disseram que nunca provaram um mirtilo fresco antes.

Então, ninguém se importa com o quanto você come. Porém, se você tem um filho, talvez seja a hora de pensar em apresentá-los a frutas mais frescas. “Acho que a coisa mais importante é que preparemos as crianças para um início (de vida) saudável”. disse Mennella.

[Journal of Food Science]

Imagem do topo: Gloria Cabada-Leman/Flickr