Depois de algum progresso moderado, o instrumento de perfuração da sonda de fluxo de calor da InSight em Marte não está mais conseguindo cavar o Planeta Vermelho. A NASA decidiu dar uma pausa nesta parte da missão por enquanto, liberando o braço robótico da InSight para outros trabalhos importantes.

A saga da sonda de calor começou no final de fevereiro de 2019, cerca de 13 semanas após a chegada do módulo de aterrissagem da InSight em Marte.

O instrumento não conseguia cavar através do rígido regolito marciano, então os engenheiros conceberam um plano no qual uma pá, localizada na ponta do braço robótico do InSight, prenderia a sonda de fluxo de calor para permitir que voltasse a cavar sem escapar lateralmente. Isso funcionou por um tempo, mas a NASA relatou que a o mecanismo parou de cavar novamente.

Construído pelo Centro Aeroespacial Alemão (DLR), o Pacote de Fluxo de Calor e Propriedades Físicas foi construído para medir a temperatura precisa de Marte a profundidades que atingem 3 metros, mas o instrumento não chegou perto disso. A sonda de calor de 40 cm mal ultrapassou a superfície, apesar de meses de trabalho e centenas de marteladas.

Para escavar em Marte, o instrumento precisa ser envolvido por regolitos soltos, mas o material de superfície nesta área parece ser mais rígida, com algo chamado de duricrust, uma mistura de materiais similares com o cimento na qual os grânulos ficam grudados.

Imagens capturadas durante uma sessão de marteladas em 20 de junho mostraram pedaços de solo marciano saltando na pá – um possível sinal de que o instrumento não estava mais cavando e passou a bater no solo e atingir a pá da InSight. Em um post recente, o líder de instrumentos da DLR, Tilman Spohn, descreveu a situação:

[Quando] olhamos as imagens que haviam sido enviadas para a Terra após a sessão de marteladas […] tivemos que concluir que ter o instrumento de dois a três centímetros abaixo da superfície não estava proporcionando o atrito necessário, mesmo com a ajuda do regolito. O instrumento se movia para frente e para trás e depois para a esquerda, revertendo grande parte de seu progresso.

No meio do filme, é possível ver que as partículas de poeira recomeçaram a se mover. Duas partículas parecem até estar saltando alguns centímetros. Mas, em uma inspeção mais atenta, é possível vê-las avançando a partir do interior do furo em vários deslizamentos. As partículas de poeira em movimento implicam que o instrumento tinha recuado novamente e estava batendo no lado plano do furo.

O resultado do nosso “teste livre do instrumento” não foi, é claro, exatamente o que esperávamos, mas não podemos dizer que foi completamente surpreendente. Afinal, continuamos lutando contra o atrito perdido no casco do instrumento. O teste apoia nossa conclusão anterior de que o duricrust coesivo e duro é anormalmente espesso – pelo menos com base no que sabíamos anteriormente sobre o Marte – e que deve ser bastante rígido.

Não ajuda muito o fato de os engenheiros não conseguirem ver o instrumento ou o interior da cavidade, já que estão escondidos pela pá.

A NASA agora irá pausar esta parte da missão, disponibilizando a pá para outras tarefas. Enquanto isso acontece, Spohn e seus colegas vão refletir sobre os próximos passos possíveis, “embora reconheçamos que não é provável que a tarefa se torne mais fácil”, escreveu ele.

Com o braço do InSight retraído, a equipe fará imagens estereoscópicas da cavidade com o instrumento lá dentro, medindo a profundidade do equipamento e visualizando como a forma da cavidade pode ter mudado por causa das últimas sessões de marteladas. Isso determinará se a atividade da sonda de fluxo de calor alterou a distribuição e composição da areia no buraco.

Um próximo passo possível poderia ser usar a pá da InSight para colocar o material solto de volta ao buraco, o que poderia proporcionar o atrito necessário. A pá voltaria então fazer com que o instrumento não saísse do buraco.

Spohn disse que preencher a cavidade não será uma tarefa fácil, e provavelmente levará algum tempo. Ele estima que 300 centímetros cúbicos de areia serão necessários. Descobriremos mais em agosto, quando a equipe se reunir novamente.

Agora liberada de sua missão de escavação, a InSight será comandada a tirar uma fotografia de si mesma usando uma câmera presa a seu braço. Em particular, a NASA gostaria de ter uma foto dos painéis solares da máquina para ver quanta poeira se acumulou em cima deles. Isto dará à NASA uma noção de quanta energia diária permanece disponível para a sonda estacionária.

A InSight também usará o braço para realizar alguma astronomia. Ao inclinar a câmera para cima, a sonda capturará imagens de meteoros que se espalham pelo céu noturno marciano, permitindo aos cientistas determinar a velocidade com que os meteoritos atingem a superfície nesta região de Marte. Estas observações serão então cruzadas com dados coletados pelo sismômetro do InSight, que tem o dever principal de detectar terremotos.

É preciso dizer que a situação com a sonda de fluxo de calor não parece boa. Obviamente, a equipe deve continuar tentando até que nenhuma outra opção esteja disponível. Em algum momento, entretanto, eles podem ter que desistir e dedicar mais tempo a outros aspectos da missão, o que, para ser justo, tem sido um sucesso em geral. Por exemplo, o primeiro ano de dados revelou que, assim como a Terra, Marte está constantemente tendo tremores. Outro achado interessante: pulsos estranhos no campo magnético marciano.