O Facebook realizou uma reunião aberta às 10h da manhã desta terça-feira (20), em Menlo Park. Toda a empresa foi convidada a se reunir e fazer perguntas sobre o recente — e bastante furioso — escândalo em torno da Cambridge Analytica, uma empresa de dados privada contratada pela campanha de Trump que adquiriu e tirou proveito de informações sobre mais de 50 milhões de usuários do Facebook. O conselheiro-geral do Facebook, Paul Grewal, esteve na reunião para dar algumas respostas. Mark Zuckerberg, não.

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Não fique surpreso. Mark Zuckerberg nunca aparece quando o mundo exige sua resposta a algo. Por que ele deveria começar agora?

Aliás, Sheryl Sandberg, chefe operacional do Facebook, também esteve ausente da reunião desta terça-feira. Ela e Mark estão supostamente ocupados demais tentando descobrir como remediar a reputação arranhada do Facebook e, possivelmente, impedir que o preço das ações percam bilhões de dólares a mais no abismo. Depois que a história da Cambridge Analytica foi divulgada no fim de semana, o valor de mercado do Facebook despencou em impressionantes US$ 50 bilhões.

“Mark, Sheryl e suas equipes estão trabalhando 24 horas por dia para reunir todos os fatos e tomar as medidas adequadas, porque entendem a gravidade deste problema”, disse um porta-voz do Facebook ao Daily Beast, que foi o primeiro a noticiar a ausência de Zuckerberg e Sandberg. “A empresa inteira está indignada por termos sido enganados. Estamos comprometidos a aplicar vigorosamente nossas políticas para proteger as informações das pessoas e tomaremos todas as medidas necessárias para garantir que isso aconteça.”

Teria sido bom ouvir tamanha indignação saindo da boca de Zuck. Mas o cara de 33 anos que abandonou a faculdade não gosta de admitir quando é enganado. Zuckerberg também não gosta de sugerir que as políticas do Facebook permitam qualquer coisa senão uma mudança global positiva. Este é o fundador do Facebook, CEO e garoto gênio que escreveu seis mil palavras sobre o Facebook estar “construindo uma comunidade global” no ano passado e não mencionou a palavra “publicidade” uma vez sequer. Se você apenas tivesse lido esse ensaio abrangente, poderia presumir que a rede social de Zuckerberg continuou de pé a base de abraços e sorvete.

Esse, obviamente, não é o caso. O Facebook é uma empresa de dados e, independentemente de seus executivos admitirem ou não, a companhia opera cada vez mais como uma empresa de mídia.

O combustível que mantém seus mecanismos em funcionamento são os dados de usuários: curtidas, cliques, amigos, curtidas dos amigos, cliques dos amigos e assim por diante. Na verdade, graças a uma tecnologia de rastreamento sorrateira, você nem precisa estar no site do Facebook para que ele registre sua atividade online. O Facebook pode usar esses dados para segmentar melhor os anúncios e ganhar mais dinheiro. Empresas como a Cambridge Analytica conseguem — ou pelo menos conseguiam — usar esses dados para ajudar em campanhas políticas, como a de Donald Trump (vale ressaltar aqui que, em 2015, o Facebook encerrou a API que permitiu que o Cambridge Analytica e outros coletassem dados não apenas de usuários, mas também de seus amigos).

Mas Mark Zuckerberg não quer ficar nesse papo desagradável de dinheiro. Não há nada de aconchegante e reconfortante em uma corporação global enorme reunindo tantos dados sobre seus usuários que até mesmo seus próprios engenheiros não sabem o quanto os algoritmos estão coletando. Mark Zuckerberg é um cara descolado que está ocupado viajando pelos Estados Unidos para conhecer as pessoas e aprender o que o país realmente é. Mais recentemente, ele passou a ser o tipo de CEO sensível que está dedicando esse ano inteiro à melhoria do Facebook, o que é o seu trabalho, mas devemos aplaudi-lo por fazer isso, não é?

É essa é a imagem pública em que Zuckerberg quer que você se concentre. O outro detalhe importante a ser lembrado agora que o Facebook pode realmente estar ferrado é o simples fato de Mark Zuckerberg ser muito ruim em controlar os danos.

No rescaldo da eleição de 2016, por exemplo, Zuckerberg ridicularizou publicamente a ideia de que notícias falsas no Facebook tivessem contribuído para a eleição de Trump. “De todo o conteúdo no Facebook, mais de 99% do que as pessoas veem é autêntico”, escreveu ele em um post no Facebook. “Apenas uma quantidade muito pequena é notícia falsa e hoaxes. As fraudes que existem não se limitam a uma visão partidária, ou mesmo à política.”

Dois dias depois, um dos tenentes de Zuck surgiu com um plano para reduzir as notícias falsas e as fraudes no Feed de Notícias. Essa solução, na verdade, acabou criando ainda mais notícias falsas, mas esse não é o ponto.

Quando confrontado com um escândalo ou algo que manche seu discurso idealista de construir uma comunidade global, Zuckerberg apenas negará o óbvio: o design do Facebook sofre de falhas fundamentais que favorecem a coleta de dados em detrimento da privacidade, e esse modelo ameaça os próprios pilares do discurso democrático. A empresa Facebook na verdade iniciou um diálogo sobre esse tema no início deste ano. Notavelmente Mark Zuckerberg estava ausente desse diálogo, pelo menos publicamente.

Esse escândalo da Cambridge Analytica parece diferente. Pela primeira vez na história recente, parece que uma indignação pública contra o Facebook e sua prática de coleta de dados desleixada pode na verdade obrigar o governo a responder. Os líderes do Senado norte-americano estão até mesmo pedindo que Mark Zuckerberg deponha sobre o que aconteceu em vez de enviar uma equipe de lacaios e advogados, que é o que o CEO do Facebook costuma fazer.

Vai saber se Mark Zuckerberg realmente vai a Washington. Não conte com isso, por enquanto. Se Zuckerberg não pode sequer encarar sua própria equipe, como é que você vai esperar que ele se sente sobre os fortes holofotes do Comitê de Inteligência do Senado dos Estados Unidos?

Imagem do topo: Getty