O estereótipo da vida típica do neandertal é que era difícil, violenta e traumática. Mas uma análise comparativa de restos de neandertais e humanos contemporâneos está finalmente mudando estas suposições.

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Décadas atrás, neandertais eram retratados como brutamontes mal-intencionados, que passavam o dia espancando uns aos outros. A visão moderna deles, ainda que tenha melhorado, continua a perpetuar a ideia de que estes hominídeos extintos tinha vidas violentas e perigosas — uma suposição baseada apenas na descrição dos esqueletos.

Uma nova pesquisa publicada nesta quarta-feira (14) na Nature está finalmente mudando isso, mostrando que os neandertais e humanos do paleolítico superior tinham níveis similares de traumas na cabeça. Sim, a vida era dura para os neandertais, mas a nova pesquisa sugere que a vida não era tão dura ou violenta como a do Homo sapiens contemporâneo.

Esta ideia, de que os neandertais tinham vidas brutais, era baseada em lesões observadas nos ossos e crânios nos restos encontrados deles. Quando se compara o trauma em neandertais com as vistos anatomicamente em humanos modernos, cientistas observaram níveis maiores de lesões na região da cabeça e do pescoço nos primeiros, o que é atribuído ao estilo de vida deles.

Os neandertais, diziam, se envolviam em comportamento social violento frequentemente e tinha um estilo de vida caçador em ambientes perigosos da Idade do Gelo, onde as oportunidades de acidentes eram bem maiores; além disso, eles eram propensos a ataques de carnívoros perigosos, como ursos e hienas; e, como caçadores, dependiam de armas de curto alcance — como instrumentos de esfaqueamento e lanças — para abater suas presas, o que exigia que elas entrassem em confronto com grandes animais.

Katerina Harvati, a principal autora do novo estudo e arqueólogo pela Universidade de Tübingen, na Alemanha, disse que estes estudos anteriores eram baseados em uma abordagem descritiva, e eram concentrados em lesões individuais e padrões de avaliação de traumas em esqueletos em vez de taxas de lesões. Esforços recentes tentaram ser mais sistemáticos e quantitativos em sua abordagem, mas Harvati afirma que esses estudos eram limitados em escopo e, portanto, inconclusivos.

Esqueleto do neandertal (esq.) e esqueleto de um humano moderno. Crédito: Ian Tattersall

“Nosso estudo é o primeiro a abordar a questão das taxas de ferimentos na cabeça em nível populacional de neandertais e europeus do paleolítico superior ao examinar tanto pessoas lesionados como não lesionadas, além de usar o maior conjunto de dados disponível que compilamos da literatura sobre o assunto”, explicou a autora ao Gizmodo. “Usamos modelamento estatístico sofisticado, levando em conta o viés de preservação e outros fotos. Nosso estudo é o primeiro a abordar esta questão da taxa de traumatismo craniano em neandertais e humanos modernos do paleolítico superior.”

O conjunto de dados ao qual Harvati se refere contém mais de 800 espécimes coletados em toda a Eurásia ocidental e datados entre 80 mil e 20 mil anos atrás. Os neandertais viveram na Eurásia entre 400 mil e 40 mil anos atrás, e os humanos modernos se juntaram a eles por volta de 175 mil anos atrás. Como observado, estas amostras representam um recorte específico de neandertais e de humanos do paleolítico superior, alguns com lesões e outros sem. Lesões cranianas são relativamente fáceis de detectar, pois elas são meio óbvias em casos fatais, pois contam com grandes rachaduras ou buracos, mas os crânios também podem mostrar sinais de recuperação, deixando lesões visíveis após uma recuperação completa.

Para o estudo, os pesquisadores da Universidade de Tübingen documentaram incidentes de trauma craniano, sexo, morte por envelhecimento, grau de preservação e a localização geográfica de cada amostra. A frequência de traumatismo craniano o foi avaliada para os dois grupos. No total, 836 elementos cranianos foram analisados em 2014 indivíduos. Observando os dados, não foram detectadas diferenças nas taxas de lesões entre neandertais e humanos contemporâneos.

“O que nós sabemos agora e que não sabíamos antes é que a prevalência de lesão craniana em nível populacional é comparável entre os neandertais clássicos e os humanos modernos do paleolítico superior, sugerindo que as vidas do neandertais não eram tão perigosas quanto as do último grupo”, disse Harvati ao Gizmodo. “Isso tem implicações potenciais para hipóteses anteriores sobre o comportamento neandertal, desenvolvidas com base na suposição de altos níveis de trauma deles, como aqueles relacionados a práticas de caça perigosas ou altos níveis de violência interpessoal.”

Mergulhando mais a fundo nos dados, os pesquisadores notaram que os machos de ambos os grupos exibiam frequências de lesões mais altas do que as fêmeas — uma consequência provável de comportamentos e atividades específicas do gênero.

Chama a atenção, no entanto, as altas taxas de traumatismo craniano em neandertais comparadas com humanos, que exibiram taxas de lesões na cabeça consistentes em todos os grupos etários. Os neandertais podem ter sofrido lesões antes na vida do que os humanos do paleolítico superior, e/ou os neandertais tinham um elevado risco de mortalidade após sobreviver a lesões na cabeça comparados com humanos modernos do paleolítico superior.

“O último cenário poderia impactar diferenças em como os dois grupos cuidavam dos feridos, o que pode ter levado a uma melhor sobrevivência a longo prazo dos feridos entre os humanos modernos do paleolítico superior em relação aos neandertais”, disse Harvati. “No entanto, esta hipótese é preliminar e deve ser testada com análises adicionais.”

Na verdade, não temos razões para acreditar que o nível de cuidados de saúde prestados pelos neandertais fossem de algum modo deficiente em comparação aos cuidados do Homo sapiens. Estudos mostraram que os neandertais cuidavam de seus doentes e feridos, muitas vezes usando técnicas médicas sofisticadas e apoio social.

Outra explicação possível (que não foi considerada neste novo estudo) é que, como os neandertais levaram muito mais tempo para amadurecer do que os humanos, e porque experimentaram um período juvenil mais longo, eles foram expostos a um maior risco de lesão. No entanto, isto é apenas especulação, como aponta Harvati. São necessários mais estudos para entender essa descoberta peculiar.

Em termos de limitações, a equipe de Harvati só considerou crânios, e não analisou as partes restantes dos esqueletos.

“É concebível que nós pudéssemos obter resultados diferentes do restante do esqueleto; apesar de nossos resultados, eu começaria com a hipótese de que o resto do corpo também mostra níveis similares de lesões”, disse Harvati.

Uma outra possível limitação é de que os dados analisados vieram diretamente da literatura existente sobre o assunto. Em outras palavras, os pesquisadores não examinaram os espécimes. A essa altura, Harvati disse que a abordagem de sua equipe exigia a inclusão de indivíduos feridos e não feridos da população, então um grande número de espécimes teve de ser incluído. “Teria sido praticamente impossível examinar [todos os espécimes] pessoalmente e particularmente à medida que abrangem uma vasta área geográfica”, afirmou a líder do estudo.

Como última observação, nós pedimos à professora Harvati explicar a obra de arte (representação dos caçadores de neandertal mostrada acima), fornecida com os materiais de imprensa sobre o assunto e feita pelo artista Gleiver Prieto.

“Esta é uma imagem que eu encomendei para ilustrar ideias anteriores da vida perigosa dos neandertais”, disse. “Esta imagem em particular mostra a ideia de que os neandertais caçavam grandes animais a curta distância no pleistoceno usando lanças de pressão. A hipótese foi desenvolvida em parte sobre as altas taxas de traumatismo craniano de neandertais descritas anteriormente, algo que nosso trabalho não mostrava evidências.”

Um novo estudo e mais um mito desvendado sobre os neandertais. Conforme aprendemos cada vez mais, notamos que eles eram muito parecidos com os humanos modernos — mas foram extintos e nós continuamos aqui. As razões para isso ainda não estão claras e são ainda mais preocupantes, dado o quão semelhante éramos dos nossos primos hominídeos. A razão para a extinção do neandertal continua a ser uma das questões mais fascinantes ainda não resolvidas pela arqueologia.

[Nature]