Em 2019, meses antes de a palavra “coronavírus” significar qualquer coisa para a maioria das pessoas, uma misteriosa doença respiratória começou a surgir nos Estados Unidos, enviando mais de 2.800 pessoas, principalmente jovens saudáveis, ​​para o hospital e dezenas a uma morte prematura. O culpado não era uma doença infecciosa, mas um veneno: dispositivos de vaporização de THC vendidos no mercado paralelo que continham contaminantes oleosos que sufocavam e queimavam os pulmões das vítimas depois de inalados.

Mais de um ano depois – e que ano tem sido este – o Gizmodo decidiu dar uma olhada nessa crise. Será que realmente acabou, como você pode supor pela redução da cobertura da mídia dedicada ao assunto? Se sim, por quê? Como isso contribuiu para um debate ainda controverso sobre os riscos de cigarros eletrônicos para a saúde e a necessidade de regulamentação? E que lições, se alguma, aprendemos?

Os primeiros casos relatados da doença ocorreram no final de julho em Wisconsin, quando adolescentes do estado começaram a apresentar sintomas como tosse, falta de ar e fadiga, além de graves danos pulmonares visíveis em exames médicos de imagens. Os casos relatados aumentaram de forma constante durante o verão em estados de todo o país, enquanto investigações adicionais descobriram que algumas pessoas haviam experimentado a doença já em março.

No final do outono de 2019, os novos casos relatados começaram a cair significativamente, embora mais médicos já estivessem cientes do problema. Na última semana de dezembro, apenas 29 casos foram relatados aos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) – uma queda acentuada em relação aos mais de 200 casos reportados em uma semana durante setembro. Ao todo, em fevereiro de 2020, sabe-se que pelo menos 2.807 pessoas tiveram essa doença pulmonar relacionada a cigarros eletrônicos, e 68 pessoas morreram.

Quanto ao motivo pelo qual esses envenenamentos diminuíram, não há uma resposta única. Ficou claro desde o início que muitas vítimas haviam usado recentemente produtos para vaporizadores eletrônicos com THC, um ingrediente psicoativo da cannabis, que também continha acetato de vitamina E, uma forma oleosa da vitamina comumente encontrada em produtos domésticos como cremes para a pele.

Esse ingrediente era frequentemente usado para reduzir a quantidade de THC necessária por produto ou para fazer os clientes pensarem que o THC no produto era de melhor qualidade, tornando o fluído de vaporização mais espesso. É importante ressaltar que a vitamina E foi encontrada em produtos ilícitos – normalmente cartuchos de THC descartáveis ​​- e eles eram claramente responsáveis ​​pela maioria dos casos da doença.

Até o período do outono nos EUA, as agências de saúde pública, assim como os próprios usuários de cigarros eletrônicos e influenciadores, estavam alertando explicitamente as pessoas para não comprarem produtos nas ruas ou de amigos. Pelo menos uma empresa que parecia vender legalmente a vitamina E como agente redutor no Oregon retirou seu produto do mercado. E pode ter havido pressão sobre os fabricantes de dispositivos e cartuchos ilícitos para remover ou reduzir a vitamina E que usavam. Todos esses fatores provavelmente contribuíram para o declínio dos casos.

“Tivemos cerca de 40 casos ao todo, entre os meses de junho a dezembro de 2019. E então, assim como no resto do país, vimos uma queda bastante rápida, mesmo começando por volta de setembro, outubro”, disse Aleksandr Kalininskiy, pesquisador de cuidados pulmonares e intensivos na University of Rochester Medical Center, em Nova York. Kalininskiy e seus colegas foram alguns dos primeiros médicos a publicar relatos de casos de pacientes afetados pela doença.

Mas, de acordo com David Downs, chefe da sucursal do site focado em cannabis e de notícias Leafly, na Califórnia, os fatores subjacentes que deram origem a esses casos em primeiro lugar não desapareceram. Talvez mais do que qualquer outro veículo, a Leafly investigou extensivamente esses envenenamentos.

“O que descobrimos foi que a estrutura do mercado e os incentivos para adulterar os produtos não mudaram. A motivação do lucro ainda existe, você ainda ganha mais dinheiro enganando os consumidores e sendo injusto com eles, de forma que os riscos à saúde ainda existem”, disse Downs.

Embora o CDC tenha dito que iria parar de rastrear as notificações de doenças relacionadas a cigarros eletrônicos em fevereiro de 2020, as agências de saúde pública locais e os médicos continuam relatando seus próprios casos. Em junho, médicos da Califórnia descreveram oito pacientes que adoeceram por causa do uso desses dispositivos em abril.

Em julho, as autoridades de saúde de Minnesota enviaram um aviso aos profissionais de saúde após 11 suspeitas de vítimas terem sido recentemente identificadas. E Kalininskiy diz que o Centro Médico da Universidade de Rochester viu pelo menos seis casos prováveis ​​este ano.

Esses casos mais novos têm sido mais difíceis de encontrar, em parte devido à pandemia de COVID-19, uma vez que as duas condições podem apresentar sintomas semelhantes. A pandemia também é provavelmente uma das razões pelas quais o CDC decidiu parar de rastrear esses casos, limitado por recursos. A situação até gerou sua própria teoria da conspiração, com algumas pessoas argumentando que os casos relacionados a cigarros eletrônicos no ano passado foram na verdade casos de COVID-19 disfarçados (nenhum especialista ou fonte com quem falei endossou essa ideia).

Além da doença causada por esses produtos contaminados, a resposta de saúde pública resultante, de muitas maneiras, aprofundou a divisão entre consumidores, fabricantes e algumas agências e especialistas em saúde pública. Essa divisão é evidente até mesmo nas tentativas de nomear o que aconteceu exatamente com as vítimas.

No início, os médicos e outras pessoas costumavam usar o termo “lesão pulmonar associada a vaporizadores”, ou VAPI, para descrever a condição. Mas, em outubro, o CDC adotou o termo EVALI, abreviação de “lesão pulmonar associada ao uso de cigarro eletrônico ou vaporizadores”. O CDC também continuou a recomendar que as pessoas evitassem todos os produtos do tipo, embora tenha enfatizado o risco adicional do uso de produtos do mercado paralelo.

Àquela altura, era óbvio que os cigarros eletrônicos, ou e-cigarettes – um termo usado para produtos de vaporização à base de nicotina vendidos legalmente – não tiveram um papel substancial nas intoxicações. Algumas pessoas ficaram compreensivelmente confusas e irritadas com a decisão do CDC.

“Houve problemas mais amplos com o controle de qualidade de cigarros eletrônicos e seus aromatizantes, mas [o nome] estava tirando o foco desse problema agudo de lesão e de onde ele vinha no mercado, de modo a prestar um péssimo serviço aos leitores que precisam ser capazes de fazer uma escolha racional sobre sua saúde e o que estão consumindo”, disse Downs. A Leafly continua a usar apenas o termo VAPI em seus artigos.

A mudança de nome foi apenas o mais recente sinal para os usuários de cigarros eletrônicos, pessoas do setor e especialistas em saúde pública que veem o produto como uma alternativa mais saudável ao cigarro de que a crise estava sendo usada para reprimir a indústria sem justificativa. À medida que mais e mais casos de VAPI/EVALI surgiam no ano passado, estados, cidades e, eventualmente, o governo federal começaram a aprovar políticas mais restritivas, incluindo o aumento do limite de idade para comprar o produto para 21 anos e a proibição total de produtos vendidos legalmente, como essências com sabor. Às vezes, as autoridades chegavam a citar diretamente essas doenças como uma das razões para as proibições, apesar de não haver nenhuma conexão com a maioria dos casos.

O enquadramento parece ter funcionado um pouco bem demais. Uma pesquisa da Morning Consult em fevereiro de 2020 descobriu que dois terços dos americanos, pelo menos em parte, culparam os cigarros eletrônicos pelas mortes recentes relacionadas ao vaping causadas por danos aos pulmões, enquanto apenas 28% condenaram os produtos contaminados com THC. Na verdade, esses resultados foram piores do que uma pesquisa realizada em setembro de 2019, quando uma porcentagem menor culpou os cigarros eletrônicos e mais o THC.

Isso não quer dizer que os cigarros eletrônicos e os produtos à base de cannabis vendidos legalmente não acarretem seus próprios riscos. Houve relatos de reações graves anteriores ou não relacionadas a VAPI/EVALI ligados a cigarros eletrônicos e produtos legais, e muitos especialistas estão preocupados com os efeitos de longo prazo desses dispositivos na saúde, mesmo que não causem o mesmo nível de dano do tabaco.

O aumento do uso de cigarros eletrônicos entre adolescentes também alarma a comunidade de saúde pública, uma vez que não sabemos o que acontecerá com eles daqui a alguns anos caso se tornem usuários crônicos. Desde então, empresas como a Juul foram investigadas e processadas federalmente por comercializar maliciosamente seus produtos para adolescentes, apesar de a empresa insistir que eles são destinados apenas a usuários adultos que desejam abandonar o tabaco.

Mas até mesmo alguns pesquisadores e especialistas em saúde pública têm se preocupado com a relação com outras questões reais ligadas a VAPI/EVALI.

“Desde o início, eu estava tipo, espere um minuto. Estes não são os produtos regulamentados e bem fabricados de que estamos falando aqui”, disse Terry Gordon, pesquisador de poluição do ar e professor do Departamento de Medicina Ambiental da NYU que estuda os cigarros eletrônicos. “E-cigarettes não são saudávei, mas são menos piores do que cigarros.”

Se houver um termo comum a ser encontrado entre os entusiastas de cigarros eletrônicos e os críticos dessa prática, é provável que seja na regulamentação. Downs e sua equipe da Leafly descobriram que os casos de VAPI/EVALI eram substancialmente menores em estados onde a cannabis estava legalmente disponível, uma descoberta apoiada por outras pesquisas. E embora haja uma minoria de casos em que as vítimas não relataram um histórico de uso de THC, a investigação da Leafly até agora não foi capaz de rastrear de forma conclusiva nenhum caso de produtos legais, à base de nicotina ou não.

“Vimos alguns representantes da indústria levantarem a mão e dizerem: ‘Nós encorajamos o escrutínio, nós encorajamos a regulamentação. Estamos cansados ​​de falsificadores e envenenadores minando nossos esforços de boa fé’”, disse Downs.

Em novembro deste ano, cinco estados se tornaram os últimos a legalizar a cannabis de alguma forma, enquanto três – Arizona, New Jersey e Dakota do Sul – legalizaram o uso recreativo. Dezesseis estados agora têm legalização total. Algumas agências reguladoras locais começaram a implementar regras mais rígidas sobre o controle de qualidade de produtos legais de cannabis, não apenas nos ingredientes incluídos, mas também nos agentes químicos que eles realmente emitem quando usados. A indústria da cannabis também começou a melhorar suas práticas após estes casos.

Mas se a cannabis continuar ilegal em âmbito federal no futuro previsível, será muito mais difícil para agências como a FDA implementar diretrizes regulatórias universais. Downs observa que outras agências, como a Federal Trade Commission (FTC), provavelmente poderiam fazer mais para reprimir os produtos ilícitos enviados para os Estados Unidos do exterior (geralmente da China), mas eles simplesmente não têm vontade política ou recursos.

Enquanto o mercado paralelo tiver uma grande base de consumidores em estados onde a cannabis é ilegal, casos de VAPI/EVALI continuarão a aparecer, mesmo que o acetato de vitamina E seja totalmente removido do fornecimento. Os cientistas descobriram outros produtos químicos em produtos de cigarros eletrônicos (em grande parte ilícitos) e aromatizantes que poderiam causar o mesmo tipo de dano pulmonar visto em vítimas, como o esqualeno, segundo a Leafly. O potencial para outros contaminantes serem introduzidos com o tempo sempre vai existir.

Embora o ideal seria que os jovens que nunca fumaram não comecem a utilizar cigarros eletrônicos, essa não é a realidade. Portanto, no mínimo, os usuários deveriam ser direcionados a produtos legalmente regulamentados que possam ser mais seguros, disse Downs, em vez de adquirirem na rua. “Descobri que essa tecnologia é útil demais para desaparecer”, disse ele. “A questão é: quão limpo será – quão regulamentado?”

Quanto aos sobreviventes de VAPI/EVALI, as notícias são boas e ruins. A maioria dos pacientes que médicos como Kalininskiy atenderam meses depois dos sintomas iniciais parece ter se recuperado sem problemas persistentes. No entanto, ele observa que outros pesquisadores descobriram uma redução na função pulmonar em pacientes recuperados – o tipo de sequela que pode aumentar o risco de futuros problemas de saúde para os sobreviventes. De acordo com Matthew McGraw, médico e pneumologista pediátrico da University of Rochester Medical Center, é quase certo que é do interesse dos pacientes com VAPI/EVALI nunca mais voltar a utilizar cigarros eletrônicos.

“Acho que essa é a maior mensagem a transmitir: se você parar, há uma boa chance de não ter alterações persistentes da função pulmonar”, disse McGraw. “Uma coisa que temos feito muito bem aqui é fazer com que nossos pacientes parem de usar cigarros eletrônicos. Mas em outros lugares, não acredito que eles tenham tido o mesmo sucesso em tentar fazer com que os usuários parem de utilizar. ”