Desde que a linha 1000X de fones de ouvido com cancelamento de ruído da Sony foi lançada, lá em 2016 com o MDR-1000X, ela foi muito elogiada. Os sucessores, WH-1000XM2 e WH-1000XM3, também foram sucesso de público e crítica, e o aparelho se tornou referência na categoria. E agora a Sony lança a quarta geração do fone, o WH-1000XM4.

Além de aperfeiçoamentos incrementais — cancelamento de ruído melhor, conexão Bluetooth com vários dispositivos, algoritmos para aprimorar a qualidade do áudio — a quarta geração do fone de topo de linha da Sony traz novos recursos voltados para a praticidade. A ideia é que o usuário não precise apertar o pause para falar nem para guardar o fone — basta iniciar uma conversa ou tirar o aparelho da cabeça.

A pré-venda do WH-1000XM4 começa nesta quinta-feira (6) com preço de R$ 2.429. Sim, é bem caro.

Eu usei o WH-1000XM4 nas últimas semanas e conto como foi a experiência.

Design e ergonomia

O WH-1000XM4 (que eu vou chamar de XM4 ao longo do review, para facilitar e para driblar os péssimos nomes da Sony) não mudou muito no visual em relação ao seu antecessor, o XM3. Ele continua praticamente todo preto (há uma opção branca também). Alguns detalhes, como a marca Sony e os microfones externos, são em um tom bronze.

A construção parece bem firme, e o material usado é muito agradável ao toque — a título de comparação, eu tenho um WH-XB900N, que é um modelo inferior, e ele tem um plástico mais rugoso, não tão sofisticado.

As conchas têm um revestimento bem confortável. Aliás, o XM4 é um fone bem gostoso de usar, no geral. Ao contrário do que sempre acontece comigo, não senti que ele estava pequeno para minha cabeça e apertando meus ouvidos, e também não havia pressão excessiva do arco contra o topo da cabeça. Mesmo usando por muitas horas, eu não ficava cansado dele.

A concha esquerda tem a entrada para o cabo de áudio e os botões de liga/desliga e Custom. Esse último botão pode ser usado para alternar entre cancelamento de ruído ligado, som ambiente (que usa os microfones para captar e reproduzir os sons externos) e cancelamento de ruído desligado. Outra opção é configurá-lo para ativar um assistente de voz (Google Assistente ou Amazon Alexa).

Mesmo se você deixar o botão configurado para controlar o cancelamento de ruído — eu, particularmente, acho mais útil — dá para ativar o assistente do seu celular tocando por dois segundos na área sensível ao toque da concha direita.

Falando nela, a concha direita tem a entrada para o cabo USB-C que vem junto com o fone e uma superfície sensível ao toque. Os comandos básicos são simples: toque duas vezes para play/pause, deslize o dedo para cima ou para baixo para controlar o volume, deslize o dedo para os lados para trocar de música. Há alguns recursos especiais, como o Quick Attention e o Speak-to-Chat, de que falarei mais adiante.

A operação dessa superfície sensível ao toque está melhor no XM4, com respostas mais rápidas e precisas. Em outros modelos, ela é meio lenta, e às vezes o fone não entende muito bem se você quer aumentar o volume ou pular a música. No XM4, isso funciona sem problemas.

Ouvindo

OK, e o som? Eu gostei bastante. O XM4 é bem versátil, com graves pulsantes e médios e agudos bem detalhados. Você consegue perceber bastante a distribuição dos instrumentos musicais em diferentes posições, e sons com timbres parecidos não se misturam.

Em uma música como “Stay”, do David Bowie, você consegue ouvir muito bem o timbre da guitarra no fone direito e como ela ecoa em direção ao esquerdo. Em “Weird Fishes/Arpeggi”, você sente o bumbo da bateria ecoar e consegue perceber bem a voz ecoando e o que cada uma das guitarras toca. Em “Menina Mulher da Pele Preta”, do Jorge Ben Jor, dá para ouvir até uma cuíca que fica no fundo, bem baixinha. E em “Heartless”, do Kanye West, você sente muito bem todas as variações dos graves durante a música.

O app da Sony tem várias opções de equalização, incluindo dois espaços para você montar sua própria configuração — o equalizador tem cinco bandas mais um ajuste do Clear Bass, tecnologia de graves da marca.

Em outras questões sobre tecnologia de som, ele vem com um leque de recursos. Tem compatibilidade com o codec LDAC, que substitui o aptX do modelo anterior. Tem o DSEE Extreme, que promete fazer um “upscaling” de áudios de qualidade mediana e preencher as informações que faltam usando inteligência artificial.

Tem também compatibilidade com o Dolby Atmos, disponível em alguns smartphones, e com o formato 360 Reality Audio da própria Sony, que é oferecido pelos planos mais caros de Tidal e Deezer e promete criar uma experiência mais imersiva. A otimização para o 360 inclui até tirar fotos das suas orelhas.

Cancelamento de ruído

Um dos grandes argumentos de venda desses fones mais caros da Sony é o cancelamento de ruído. A empresa diz que o XM4 teve uma melhoria de 15% no cancelamento de ruído de turbina de avião (a referência de barulho para esse tipo de recurso) e de 20% para outros ruídos mais agudos e espaços. Isso foi possível, segundo a companhia, graças a um aperfeiçoamento no chip de processamento de áudio do fone, que é o mesmo do XM3.

Como estou trabalhando de casa, não estou nem andando de ônibus ou metrô, que dirá voar de avião. Por outro lado, o ambiente da minha casa e da minha vizinhança é bem caótico: tem cachorro latindo, gata miando, TV alta, vizinha cantando, carro do ovo, carro da cândida, carro do sorvete, máquina de lavar, obra na rua, reforma. Barulho aqui é o que não falta.

Eu achei que o XM4 fez um trabalho bem competente ao cancelar esses sons. As conchas ajudam bastante no isolamento, mas dá para perceber a diferença ao desativar e ativar o cancelamento de ruído. O recurso também é melhor do que o fone que eu uso regularmente — um WH-XB900N também da Sony, que não tem chip dedicado ao cancelamento de ruído.

O XM4 também inclui o modo de som ambiente, que usa os microfones do aparelho para captar os sons externos e reproduzi-los no fone. No aplicativo, você consegue configurar esse volume de 1 a 20 e optar por aumentar frequências de voz.

Eu achei a captação de som ambiente meio exagerada, e alguns ruídos parecem um pouco distorcidos e com eco excessivo. Isso é curioso porque outros fones da Sony que usei com o recurso, como o WF-1000XM3, são bastante fieis na hora de reproduzir o som ambiente — a sensação que dava nesses outros fones era bem mais natural. Por outro lado, certo exagero pode ser útil ao andar por ruas movimentadas. Evitar acidentes é sempre bom.

Um recurso interessante dos fones da Sony é o Adaptive Sound Control (“controle de som adaptativo”, em tradução livre). Ele usa o GPS do smartphone para identificar se você está parado, andando, correndo ou no transporte e também reconhecer lugares que você visita sempre, como sua casa, seu trabalho ou um terminal de ônibus.

Você pode definir configurações de cancelamento de ruído, som ambiente e até equalizador para cada um dos lugares ou situações. Isso é bem prático pois evita que o usuário precise ficar mexendo nas configurações do fone ao sair do metrô e andar pela rua, por exemplo.

Bateria

A Sony promete que a bateria do XM4 dura 35 horas com a bateria completa. Testar baterias de fones é um processo difícil porque, bem, eu nunca sei exatamente quanto tempo de música ouvi em cada dia. Sei que o XM4 chegou aqui em casa com bateria em 70% e isso durou mais de uma semana, sendo que eu ouço umas duas ou três horas de música por dia. Carregar o fone até 100% leva um pouco mais de uma hora com um carregador rápido de 15W. Ele não vem com carregador, apenas com cabo então você precisa usar um adaptador de tomada de smartphone ou ligar no computador.

O XM4 também tem carregamento rápido, que promete cinco horas de funcionamento com uma recarga de 10 minutos. Esse foi mais fácil de testar. Depois de 10 minutos cronometrados na tomada, eu consegui fazer uma reunião de uma hora de duração usando o XM4 e depois ouvir cinco álbuns (cerca de quatro horas de música) até ouvir o aviso de bateria fraca.

Ou seja, ele cumpre bem o que promete no carregamento rápido, e isso pode ser bem útil — dez minutinhos na tomada já garantem que você vai poder ouvir suas músicas a caminho do trabalho ou na volta para casa, por exemplo.

E mesmo que a bateria acabe, você não fica sem ouvir música ou podcasts. O XM4 vem com cabo P2, e ele funciona mesmo com a bateria descarregada (sem cancelamento de ruído, óbvio). Pessoalmente, acho que essa é a principal vantagem em relação aos fones totalmente sem fio, que não podem ser usados quando a bateria acaba.

O sensor do Wearing Detection lá no fundo.

Recursos

Parece que a intenção da Sony ao criar o WH-1000XM4 foi criar uma experiência sem interrupções, em que o usuário pode agir naturalmente sem pausar a música. Isso se reflete em dois novos recursos do fone: o Wearing Detection e o Speak-to-Chat.

O Wearing Detection é o que o próprio nome diz: um pequeno sensor que fica na concha esquerda e detecta quando o fone é retirado ou colocado. Ao tirar da orelha, ele pausa a música; ao colocar de volta, ele dá play de novo. Se você tirar e não colocar de novo, depois de um tempo ele desliga o fone para economizar bateria. Funciona bem, desde que você não se esqueça dele e levante a concha esquerda para dar uma coçadinha na orelha.

Já o Speak-to-Chat (em tradução livre, “fale para conversar”) serve para facilitar conversas rápidas sem que o usuário precise tirar o fone ou mesmo pausar a música. Ao perceber que o usuário falou alguma coisa, o fone pausa o que está sendo tocado e usa os microfones para captar o som externo. Há três opções de sensibilidade para ativar esse modo. No modo padrão, ele não foi ativado nenhuma vez ao detectar outra pessoa falando, só quando eu comecei a falar.

Assim, se você percebe que alguém falou alguma coisa ou ao precisar falar conversar com outra pessoa, basta… falar. É bem simples e funciona. A música volta a tocar depois de 30 segundos por padrão, mas há opções para ajustar esse tempo para 15 ou 60 segundos ou desativar a volta automática.

O Speak-to-Chat é, de certa forma, uma evolução do Quick Attention. Este recurso — presente nos fones anteriores da Sony e também no XM4 — abaixava o volume da música e abria os microfones externos quando o usuário colocava a palma da mão sobre a concha direita (à la José Rico, como disse o Guilherme em outro review).

Ele funcionava razoavelmente para conversas, mas vamos combinar que era meio ridículo ficar com a mão no fone durante uma conversa. O Speak-to-Chat é mais natural e fluido, e dá para usar o Quick Attention para ouvir melhor alguma coisa do ambiente, como um aviso do sistema de som de uma estação ou de um aeroporto, por exemplo.

O problema do Speak-to-Chat é quando você esquece dele e começa a cantar junto com a música — o fone ouve sua voz e para a música, estragando seu momento. Felizmente, dá para desativar e ativar de novo o recurso segurando dois dedos sobre a concha direita e pronto, cantoria liberada no home office.

Brincadeiras à parte, é bom lembrar de desativar o recurso antes de reuniões por vídeo usando o fone — caso contrário, ele não sabe fazer a distinção entre as situações e acaba desligando o som quando você fala.

Por falar em reuniões, aliás, eu não tive problemas com a captação de som durante ligações e chamadas de vídeo — quase sempre um ponto fraco dos fones da Sony. Faltou testar em um ambiente mais barulhento (o que talvez desrespeitasse as recomendações de distanciamento social), mas em casa ele funcionou muito bem.

O que eu não consegui fazer funcionar foi a conexão multiponto, que, em teoria, permite conectar o fone a mais de um aparelho (notebook e smartphone, por exemplo) e alternar entre eles com facilidade. Como o fone ainda não tinha sido lançado (isso mesmo, hoje é o lançamento mundial), não havia referências na ajuda e eu não sabia se estava fazendo alguma coisa de errado no processo.

Conclusão

A Sony tinha um produto que já era muito bom — dificilmente você conversa com um dono de WH-1000XM3 insatisfeito com o produto. Mesmo assim, a empresa conseguiu encontrar situações em que era possível melhorar a conveniência e a praticidade. O resultado é um fone muito bem acabado, de altíssima qualidade, que se adapta bem a várias situações e exige pouco esforço do usuário ao mesmo tempo em que dá opções para ele configurar a experiência.

Aí entra o preço, que é bem caro. O XM4 custa R$ 2.429 no Brasil e US$ 349 no exterior. O modelo anterior também custava US$ 349 e chegou aqui por R$ 1.599. A alta do dólar certamente influenciou o preço no mercado nacional. Se modelos anteriores chegavam aqui custando o mesmo de um smartphone intermediário, esse está até mais caro que esse valor de referência.

No fim das contas, é isso: um produto premium para um público exclusivo. Quem tiver todo esse dinheiro e optar elo WH-1000XM4 não vai ficar desapontado.