Um neurocientista italiano quer realizar o primeiro transplante de cabeça em humanos no ano que vem. Agora, ele afirma ter feito experimentos radicais na medula espinhal de ratos, camundongos e um cachorro. Especialistas dizem que os resultados são vagos e incompletos, e que a ideia de uma cirurgia desse tipo em humanos ainda é muito prematura.

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Em uma série de estudos publicados no periódico Surgical Neurology International, o neurocirurgião Sergio Canavero descreve experimentos com o polietilenoglicol, ou PEG, que promove o crescimento das células que formam a medula espinhal.

A equipe dele usou o PEG para religar medulas severamente danificadas. Um vídeo mostra um camundongo se arrastando pelo chão; outros vídeos mostram um rato e um cachorro em vários estados de recuperação.

Em um dos experimentos, Canavero e C-Yoon Kim – da Konkuk University em Seul (Coreia do Sul) – romperam a medula espinhal de 16 camundongos. Eles injetaram PEG nas áreas danificadas em metade dos ratos, enquanto a outra metade recebeu uma solução salina.

Um mês após a cirurgia, cinco dos oito camundongos que receberam o PEG recuperaram alguma mobilidade, enquanto os outros três morreram. Nenhum dos ratos que receberam a solução salina foram capazes de se mover.

Em um segundo experimento com resultados semelhantes, ratos receberam uma versão turbinada do PEG com nanofitas de grafeno – um material eletricamente condutor – que serve como um andaime ao longo do qual neurônios podem crescer.

Infelizmente, os resultados deste experimento ficaram incompletos, porque uma inundação no laboratório matou quatro dos cinco ratos tratados com o PEG turbinado.

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Estágios da recuperação do cachorro: (a) 10 dias (b) 14 dias (c) 17 dias (d) 20 dias e (e) 24 dias pós-operação. (Fotos por C-Yoon Kim et al., 2016)

Para o experimento no cachorro, os pesquisadores romperam 90% da medula espinhal dele. Duas semanas depois, o animal foi capaz de arrastar as patas traseiras; e após a terceira semana, ele conseguia andar, pegar objetos e balançar a cauda. Ele foi o único cão do experimento, então não havia controle; foi um estudo de um caso só.

Como informa a New Scientist, os especialistas não estão impressionados com os resultados. Eles criticam os pequenos tamanhos de amostra, a ausência de controles no experimento do cachorro, e provas insuficientes de que a medula espinhal do canino foi danificada no grau informado.

As objeções são sérias, pois Canavero quer realizar um transplante de cabeça em um humano em 2017. Um russo que sofre de uma doença degenerativa já se voluntariou para o procedimento, e um hospital no Vietnã ficará disponível para a cirurgia controversa – assumindo que ela realmente acontecerá.

Apesar destes estudos recentes com animais, não há nenhuma evidência convincente para acreditar que um transplante humano irá funcionar, ou que isso dará ao paciente russo um corpo melhor ou mais duradouro do que ele já tem. Este ano, a mesma equipe disse ter realizado um transplante de cabeça em um macaco, mas os resultados não foram publicados em um estudo.

Dado o prazo exíguo que esses pesquisadores colocaram para si próprios, está claro que eles estão indo muito rápido. De forma realista, demora cerca de uma década para que um experimento de laboratório se traduza em uma técnica real.

[Surgical Neurology International I, II, III, IV via New Scientist]

Foto por Global Panorama/Flickr