Esse ano promete muito para a exploração espacial. O rover Perseverance, da Nasa, deve pousar em Marte no próximo mês. O Telescópio Espacial James Webb deve ser lançado no Halloween. E o Space Launch System, o mais poderoso foguete da Nasa já construído, pode estrear ainda este ano. Além disso, devemos ver novidades sobre o programa Artemis, que deve levar uma mulher e um homem à superfície lunar em apenas três anos.

Nas próximas semanas e nos próximos meses, teremos mais informações sobre qual será a política de Joe Biden para a Nasa e o que o seu governo acredita ser o melhor caminho para o programa espacial do país. Enquanto isso, procuramos especialistas e fizemos uma pergunta aparentemente simples: quais deveriam ser as prioridades da Nasa de Biden?

John Logsdon, professor de ciência política e assuntos internacionais do Space Policy Institute da George Washington University, disse: “Acho que o importante para o presidente Biden e sua administração é indicar desde o início um compromisso de sustentar uma iniciativa de exploração espacial humana, com um retorno à Lua como seu primeiro objetivo. Os detalhes do plano atual da Artemis provavelmente mudarão, mas já passou da hora de os Estados Unidos enviarem mais uma vez humanos para destinos distantes.”

A Nasa está trabalhando a todo vapor nas próximas missões Artemis. A agência espacial havia planejado originalmente um pouso lunar para 2028, mas o governo Trump adiantou o prazo para 2024. Suspeita-se que Biden vai voltar ao cronograma original, mas, por enquanto, isso é só especulação.

Howard McCurdy, professor de relações públicas do Departamento de Administração Pública e Política da American University em Washington, D.C., espera que Biden fique de olho neste prêmio — e em outros que virão. “Sua principal prioridade espacial deve ser estabelecer um plano de exploração lunar ou para Marte que dure mais de cinco anos — e também determinar o futuro do Boeing Starliner, lançar o telescópio espacial [James] Webb e cimentar o destino da Estação Espacial Internacional”, disse McCurdy. “Ele terá muitas prioridades científicas, mas a Nasa não está nem perto do topo da lista.”

Certamente vale a pena pensar em toda essa coisa do Boeing Starliner, já que este projeto — uma espaçonave para levar astronautas à ISS — tem enfrentado problemas e atrasos. Não há nem uma previsão de quando será feito o primeiro teste tripulado do sistema.

Por outro lado, a SpaceX entregou com sucesso o CrewDragon. A nave transportou os astronautas Robert Behnken e Douglas Hurley para a ISS no ano passado. McCurdy também faz muito bem em mencionar Marte — o programa Artemis Moon é um passo intermediário para a primeira jornada humana ao Planeta Vermelho, que poderia acontecer na década de 2030.

Jessica West, oficial de programa do Project Plowshares e editora-chefe de Space Security Index, disse o seguinte: “O futuro do programa Artemis é essencial. Os parceiros internacionais da Nasa vão querer garantias e clareza sobre o escopo do compromisso e do cronograma dos EUA. A cooperação é a chave para o sucesso na exploração do espaço e para garantir que o nosso planeta e a humanidade compartilhem os benefícios. Isso começa com a diplomacia. A Nasa elaborou os Acordos Artemis como uma ferramenta para o desenvolvimento de normas para a exploração espacial. Mas não está claro qual o papel deles com a comunidade internacional em geral para transformar isso em um processo mais inclusivo, em um momento em que outros países também têm ambições lunares.”

“A administração Biden também deve ser sensível aos efeitos que a Força Espacial — e sua ênfase retórica em guerra e dominação — têm na Nasa e nas percepções globais de suas ambições lunares”, acrescentou West.

West levanta um ponto muito bom sobre os Acordos Artemis. Os tentáculos da humanidade no espaço estão ficando cada vez mais numerosos a cada ano que passa, tornando as coisas mais complicadas de uma perspectiva geopolítica. Seria bom obter o apoio da comunidade internacional nessas questões, o que pode ser difícil com países como a Rússia e a China.

Peter Singer, estrategista da New America e autor de Ghost Fleet and Burn-In, também comentou sobre a Força Espacial, o mais novo braço das Forças Armadas dos EUA. “Trump criou o Comando Espacial, principalmente porque o viu como uma forma de obter apoio de sua base eleitoral”, disse ele. “Então, como a Nasa e essa nova organização militar vão coexistir a longo prazo? Eles precisarão trabalhar juntos quando fizer sentido, mas também para garantir que não arriscamos a real ou apenas aparente militarização do espaço em nossas atividades civis.”

Ah, sim — a ameaça contínua de que os EUA podem militarizar o espaço. Isso é complicado, especialmente porque o país tenta acompanhar o ritmo de seus adversários agressivos e como a Força Espacial trabalha para alcançar “poder espacial” neste domínio de guerra em potencial.

Moriba Jah, engenheiro aeroespacial da Universidade do Texas, recomendou o seguinte: “O Conselho Espacial Nacional — uma organização que se concentra e informa sobre várias atividades nacionais com relação ao espaço, tanto no governo, na academia e na indústria — deve receber permissão para continuar no governo Biden. A Nasa tem uma presença no Conselho Espacial Nacional, e isso deve continuar. ”

Jah acrescentou: “Deve haver uma ênfase à segurança e sustentabilidade do espaço, inclusive no que se refere à gestão do tráfego espacial. Em 2018, Trump assinou a Diretiva de Política Espacial-3 [com foco no gerenciamento de tráfego espacial]. A administração anterior convocou o Office of Space Commerce para assumir o papel de liderança — e isso é bom. Quanto ao papel da Nasa, ela deve fornecer informações e supervisão para o governo em relação às necessidades de ciência e tecnologia da gestão do tráfego espacial. ”

O gerenciamento do tráfego espacial certamente será um problema no futuro. Da forma como está, as regras que definem o que e quanto poderá ir para o espaço são muito vagas. Desde 20 de janeiro, a SpaceX tem mais de 1.000 satélites Starlink em órbita, com planos de adicionar outros milhares. Os satélites possam colidir uns com os outros, criando nuvens grandes e perigosas de detritos e essa é uma possibilidade que aumenta com cada satélite adicionado à órbita baixa da Terra. O espaço vai precisar de guardas de trânsito e lixeiros.

Dante Lauretta, principal investigador da missão OSIRIS-REx e professor da Universidade do Arizona, espera que a administração Biden mantenha ou aumente o financiamento para a Diretoria de Missão Científica da Nasa. “Esta Diretoria realiza pesquisas essenciais para monitorar e prever os efeitos das mudanças climáticas, explorar o Sistema Solar e pesquisar o Universo”, disse ele. “Os orçamentos nos últimos quatro anos têm sido favoráveis, e esta é uma área do governo federal dos EUA em que as atividades científicas permanecem saudáveis. As incríveis realizações dos programas de ciências da Nasa servem como exemplos brilhantes do que podemos fazer como nação quando nos unimos e nos concentramos em uma visão comum.”

Seria triste desperdiçar todas as coisas boas que a Nasa tem no momento, incluindo satélites para nos ajudar a prever o clima espacial e o da Terra, pesquisas para monitorar o derretimento de geleiras e espaçonaves avançando para o Sol e o espaço interestelar. E, de acordo com os interesses de Lauretta, pegar amostras da superfície de um asteroide próximo.

Jonathan McDowell, astrofísico do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, deu muitos conselhos para o presidente Biden: “A Nasa é a única parte do governo dos EUA que não está pegando fogo agora, então em time que está ganhando não se mexe. O que o programa de voo espacial humano mais precisa é que a liderança política dê outro giro de 180 graus, então continue com a Artemis apesar de suas falhas, mas remova o prazo irreal de 2024 e nomeie líderes que não tenham medo de cobrar a Boeing.”

McDowell também recomendou firmar um plano para o fim da Estação Espacial Internacional, que já está em órbita há mais de 22 anos e mostra sinais da idade. “Mantenha a ISS funcionando por mais alguns anos para colher o investimento feito no CrewDragon e Starliner, mas é melhor decidir um plano de desligamento.”

“No lado robótico/científico, financie-o totalmente — apoiando os satélites de ciência climática e o trabalho educacional que a administração anterior tentou cortar, coloque o telescópio Webb para funcionar no espaço e deixe a comunidade científica escolher as prioridades daqui para frente”, McDowell disse. “Acima de tudo, não abuse do programa de ciências como uma justificativa para as coisas do espaço humano — por exemplo, forçando uma ênfase na ciência relacionada à lua para fornecer uma justificativa espúria para Artemis, que é o tipo de coisa que foi feita no passado.”

Também ouvimos de Avi Loeb, professor de astronomia da Universidade de Harvard. Suas recomendações foram filosóficas e práticas. “Dado o amplo interesse do público, da comunidade científica e do setor comercial na exploração do espaço, é essencial estabelecer uma nova e ousada visão que manterá a liderança dos EUA no espaço”, disse Loeb. “Isso vai muito além dos interesses de segurança nacional e remete à visão de JFK de 1962, ano em que nasci. O público está ansioso por iniciativas inspiradoras, e o espaço oferece um cenário ideal para uma visão empolgante que aumentaria a superioridade tecnológica de nossa nação. A importância de tal visão também se baseia nas necessidades imediatas de adicionar satélites que permitirão um melhor controle de nosso efeito sobre o clima e melhorar a conectividade com a Internet em todo o mundo.”

O investimento na pesquisa espacial é frequentemente considerado supérfluo ou indulgente, já que estamos cheios de problemas na superfície. O desafio para Biden será alcançar um equilíbrio preciso — um que atenda às nossas necessidades aqui na Terra ao mesmo tempo que continue a cumprir o legado e o potencial do programa espacial americano. Boa sorte, Joe.