Assim como tudo em 2020, a ciência teve um ano bem agitado. Houve pontos altos emocionantes, como a velocidade recorde de criação de vacinas contra o coronavírus e nossa observação mais próxima já feita da superfície do Sol, mas também houve pontos baixos devastadores, como o número de vítimas de COVID-19, o agravamento da crise climática e o trágico colapso do icônico prato do Observatório de Arecibo.

Reunimos aqui os eventos científicos mais significativos de 2020. Eles mostram o melhor que os pesquisadores nos ofereceram, as perdas que experimentamos e as advertências de que a ciência não pode ser ignorada.

Escurecimento da estrela Betelgeuse

Crédito: ESO/M. Montargès et al.

Por um breve período no final de 2019 e início de 2020, parecia que poderíamos estar à beira de um dos espetáculos cósmicos mais incríveis que os humanos verão: a explosão de Betelgeuse, a estrela avermelhada e brilhante na constelação de Órion.

Esta estrela gigante vermelha, que deve se transformar em supernova em algum momento entre agora e daqui a 100.000 anos, de repente começou a escurecer. Alguns especularam que o escurecimento era um sinal de que a estrela estava prestes a morrer, uma explosão que a tornaria tão brilhante quanto a Lua no céu noturno e visível durante o dia. Infelizmente, parece que havia apenas um pouco de poeira bloqueando nossa visão.

Vespas assassinas

As vespas assassinas apareceram nos Estados Unidos em abril de 2020. Elas têm um ferrão desagradável, mas são mais conhecidas por sua capacidade de devastar completamente uma colmeia de abelhas em sua área nativa, na Ásia, embora pelo menos as abelhas de lá tenham desenvolvido algumas defesas. Nos Estados Unidos, porém, as abelhas não precisavam lidar com esses predadores, o que as deixou indefesas.

Os cientistas têm corrido para encontrar as vespas e erradicá-las antes que possam causar estragos em relação às abelhas norte-americanas, que já estão morrendo em um ritmo alarmante. Mesmo que os conservacionistas consigam capturar todas elas, ainda teremos que nos preocupar com outras criaturas bizarras, como uma lagarta peluda que induz vômitos.

Água na Lua

Em outubro, a NASA nos provocou com um misterioso comunicado à imprensa: em breve, a agência faria um “anúncio emocionante” sobre a Lua. Todos nós tínhamos algumas boas suposições sobre quais seriam as notícias e, sim, ficamos um pouco chateados por não serem alienígenas. No entanto, a notícia real — que os pesquisadores descobriram sinais de água congelada em toda a superfície lunar — foi impressionante também.

Vírus misterioso adoece pessoas na China

No início de janeiro de 2020, o Gizmodo escreveu sobre relatos de um vírus desconhecido que adoeceu algumas pessoas em Wuhan, na China. Felizmente, escrevemos, ainda não havia nenhuma evidência de que o vírus pudesse se espalhar entre humanos. Se os profissionais de saúde começassem a ficar doentes, haveria muito mais motivos para preocupação.

Enfim, sabemos o que veio depois, e ninguém quer rever as notícias sobre o coronavírus. Basta dizer que todos precisamos nos preparar melhor da próxima vez — porque haverá outra pandemia em nossas vidas e há uma boa chance de que ela seja pior.

Fim do segundo maior surto de ebola

Uma notícia de saúde mais animadora foi que o segundo maior surto de ebola da história finalmente terminou. Ao longo de quase dois anos, o surto na República Democrática do Congo infectou mais de 3.400 pessoas e matou 2.280.

Felizmente, essa onda teve uma novidade: uma vacina. A Organização Mundial da Saúde liderou uma campanha que inoculou mais de 300.000 pessoas, e o rastreamento de contatos e a testagem em massa também ajudaram a controlar o surto.

Temporada de furacões

Todos os sinais de alerta para uma temporada preocupante de furacões estavam presentes e, ainda assim, o ano de 2020 excedeu até mesmo as piores previsões. Começou no início do ano e se prolongou quase até o final, com fortes tempestades se formando até meados de novembro.

Ao todo, um recorde de 30 tempestades se formaram no Atlântico, Caribe e Golfo do México. Uma dúzia delas atingiu o continente nos Estados Unidos. Outra tempestade atingiu a América Central em novembro e também criou um desastre humanitário que ainda está ocorrendo. A temporada de furacões acabou oficialmente, mas os impactos permanecerão por anos ou mesmo décadas.

Recorde de incêndios

O ano de 2020 também trouxe incêndios monstruosos a todos os cantos do globo, da Austrália à Sibéria e aos Estados Unidos. A crise climática foi a principal culpada, fornecendo o aumento de calor necessário para secar a vegetação e criar incêndios. Na Austrália, a temporada de incêndios florestais começou em 2019 e se estendeu até 2020. As chamas iluminaram a Sibéria pela primeira vez em abril. E no verão, eles se espalharam pelo oeste dos EUA, engolindo cidades inteiras e cobrindo a região em uma névoa tóxica.

O fogo afetou os equipamentos de pesquisa destinados a ajudar na detecção de incêndios e a saúde de milhões de pessoas expostas à fumaça em todo o mundo. Só na Austrália, a temporada de incêndios florestais gerou um gasto com saúde de US$ 1,5 bilhão. Para alguns, as imagens de satélite de fumaça e florestas em chamas representavam um presságio do futuro. Mas a realidade é que elas também mostram como escolhas do passado estão nos afetando hoje.

Astronautas são lançados dos EUA

SpaceX lança astronautas em órbita em maio de 2020. Foto: Joe Raedle (Getty Images)

Um novo capítulo nas viagens espaciais dos EUA começou em 2020, quando a SpaceX lançou astronautas para a Estação Espacial Internacional em sua nave Crew Dragon.

Desde a aposentadoria do programa Space Shuttle em 2011, a NASA não tinha mais a capacidade de enviar astronautas ao espaço partindo de solo norte-americano. Em vez disso, pagava à Rússia por assentos em sua espaçonave Soyuz.

O lançamento bem-sucedido do Kennedy Space Center, na Flórida, em novembro, inaugurou oficialmente uma nova era das viagens tripuladas comerciais da NASA.

A perda de Arecibo

O Observatório de Arecibo, em Porto Rico, foi utilizado em algumas das pesquisas mais importantes de radiotelescópios, incluindo a busca por inteligência extraterrestre (SETI) e monitoramento de asteroides que representavam uma ameaça à Terra.

Os problemas começaram em agosto, quando um cabo caiu e despedaçou uma seção do prato principal. Ele foi atingido pela segunda vez com um cabo em novembro e toda a estrutura desabou em dezembro, para a tristeza dos cientistas e fãs da ciência em todo o mundo.

Entre suas muitas realizações, o observatório ajudou pesquisadores a refinar sua compreensão do que constitui um ano em Mercúrio, registrou os primeiros mapas de radar de Vênus e, a mais famosa de todas, buscou vida alienígena.

Um buraco negro colidiu com algo que não deveria existir

A era da astronomia de ondas gravitacionais está a todo o vapor e os resultados até agora são emocionantes. Em 2020, os astrônomos utilizaram o Laser Interferometer Gravitational-Wave Observatory (LIGO) e o detector Virgo para identificar ondulações no espaço-tempo que pareciam vir de um buraco negro colidindo com algo de tamanho incomum.

A pesquisa detectou “um objeto na ‘lacuna de massa’, que é uma espécie de intervalo vazio entre a estrela de nêutrons mais pesada e as massas de buracos negros mais leves que medimos”, disse a astrofísica Thankful Cromartie na época. Você pode ler sobre a descoberta aqui.

A NASA coletou pedaços de um asteroide

A espaçonave OSIRIS-Rex, que está rodeando o asteroide Bennu desde o final de 2018, finalmente reuniu coragem para colher algumas amostras em outubro. Apesar do problema com uma tampa emperrada, a espaçonave está a caminho de entregar esses pedaços de asteroide à Terra em 2023.

Missão lunar chinesa

Equipe recupera a cápsula de reentrada do Chang’e 5. Imagem: Xinhua/Lian Zhen

A missão chinesa Chang’e 5 colocou um módulo de pouso robótico na Lua em 1º de dezembro. A sonda recolheu algumas amostras e as enviou a uma espaçonave que aguardava na órbita lunar. Quando a cápsula de retorno pousou na Mongólia em 17 de dezembro, ela marcou a primeira vez em 44 anos que uma espaçonave trouxe material lunar à Terra. Agora, os cientistas têm uma rara oportunidade de estudar partes de nosso satélite natural de perto.

Transformação do Ártico

Parece uma coisa que acontece todos os anos, mas ainda é impossível ignorar o que está ocorrendo nas regiões mais ao norte do globo.

As pesquisas publicadas em 2020 mostraram que o gelo do Mar de Bering nunca esteve tão baixo em pelo menos 5.500 anos e que céus estranhamente ensolarados levaram à perda recorde de gelo da Groenlândia em 2019.

Os cientistas também empreenderam uma missão única ao Ártico, passando um ano inteiro a bordo de um navio atracado no gelo do mar — ou, conforme o verão avançava, apenas navegando em águas abertas.

A missão, batizada de MOSAiC, é um dos programas de pesquisa mais ambiciosos e abrangentes já realizados em ambientes hostis. Agora que acabou, a expedição promete oferecer dados para ajudar a entender o que acontecerá com o oceano Ártico, que está cada vez mais aberto.

Minilua detectada ao redor da Terra

No último ano, os cientistas descobriram uma minilua orbitando a Terra. Este pequeno pedaço de rocha espacial foi visto pela primeira vez em 15 de fevereiro por pesquisadores do Catalina Sky Survey da Universidade do Arizona.

Miniluas aparecem em raras ocasiões após serem capturadas pela gravidade da Terra. Mais ou menos do tamanho de um carro, a minilua ficou passeando ao redor da Terra por cerca de três anos, até que os astrônomos a identificaram. Felizmente, os cientistas a avistaram bem a tempo; em abril, ela escapou da atração da Terra e continuou sua viagem normal ao redor do Sol.

Rajada de ondas de rádio na Via Láctea

Os astrônomos detectaram pela primeira vez a chamada explosão rápida de rádio em 2007 e, desde então, catalogaram mais alguns desses pulsos incomuns, que às vezes são únicos e às vezes se repetem em padrões estranhos.

Ninguém sabia o que produzia esses sinais e nenhum deles jamais havia sido localizado vindo de nossa própria galáxia — até abril de 2020. A principal descoberta do ano de uma rajada rápida de rádio vindo de um magnetar na Via Láctea abriu toda uma nova fase de pesquisas sobre esses pulsos.

Imagens do Sol em alta resolução

Imagem de alta resolução do sol. Imagem: NSO/AURA/NSF

O telescópio solar Daniel K. Inouye, que mede 4 metros e fica no Havaí, capturou as imagens de maior resolução já vistas do Sol. Cada “célula” nesta imagem tem aproximadamente o tamanho do estado do Texas, nos EUA. Há um vídeo também. Os dados deste telescópio ajudarão os cientistas a aprender mais sobre como o Sol funciona e, com sorte, permitir que eles prevejam as erupções solares — também conhecidas como clima espacial — que podem afetar equipamentos tecnológicos na Terra.

Cometa NEOWISE

Não é sempre que os humanos veem a passagem de um cometa, mas acho que 2020 não poderia ser tão ruim. Um cometa de 4,8 quilômetros de largura conhecido como NEOWISE ficou visível a olho nu em julho, e tanto os observadores amadores como profissionais tiraram algumas fotos incríveis dele. Se você perdeu, é uma pena, porque esse cometa não voltará nos próximos 6.800 anos.