O ano de 2018 foi um dos que mais escrevemos sobre o Facebook. Fizemos centenas de publicações sobre a rede social mais popular do mundo. A razão? Bem, foi um ano bastante complicado da plataforma: a companhia enfrentou grande escrutínio de autoridades, do público e da mídia.

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A rede de Mark Zuckerberg parece que foi percebendo a importância da frase clichê do tio Ben (“com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”), em Homem Aranha, com o passar do ano, com escândalos mais ou menos graves. Pior que o problema não foi só no Facebook, mas também na família de aplicativos da empresa, com destaque para o WhatsApp e uma ou outra coisa envolvendo o Instagram.

De modo geral, parece que perceberam na influência que a empresa e seus aplicativos podem exercer no mundo. Lógico, estar conectado com centenas de amigos e ter a oportunidade de manter contato com eles está de um lado da moeda. No outro, tem interferência em eleições e participação em massacres de minorias, por exemplo.

Antes de falar um pouco do que rolou com o Facebook, é importante notar que a meta para o ano de 2018 de Mark Zuckerberg era se concentrar na empresa — no ano passado, após a eleição de Trump, o cofundador da rede decidiu sair em um tour pelos Estados Unidos. Então, aí vão alguns dos principais fatos:

Cambridge Analytica

Em março, estourou a bomba Cambridge Analytica. A empresa de dados do Reino Unido utilizou dados obtidos por um aplicativo “thisisyourdigitallife” para moldar narrativas durante as eleições presidenciais dos EUA em 2016. Isso gerou um problema para o Facebook, pois os dados de usuários foram obtidos para um propósito e utilizados para outro. No caso, o objetivo do app era ser uma espécie de teste de personalidade, mas acabou sendo usado para fins políticos. Ao todo, dados de 87 milhões de pessoas foram obtidos pela Cambridge Analytica, segundo o próprio Facebook.

A companhia, então, passou a ser pressionada por autoridades. Nesse processo, começou-se a discutir sobre a responsabilidade da rede e o cuidado que a companhia deve ter, dada sua influência e sua base com quase 2 bilhões de usuários. O Facebook depôs nos EUA e, no Reino Unido, enviou um representante — não foi o suficiente, e o país exigiu que a companhia pagasse uma multa, que não deve ter doído nem um pouco no bolso da companhia.

Saída de cofundadores do WhatsApp e do Instagram

2018 também foi um ano esquisito para donos de empresas compradas pelo Facebook. O ano começou com o anúncio da saída de Jon Koum, o último cofundador do WhatsApp que ainda restava na companhia. No ano anterior, Brian Acton, que ajudou a criar a plataforma de conversa, deixou a empresa e, após os escândalos da Cambridge Analytica, pediu inclusive em seu Twitter que as pessoas deletassem suas contas do Facebook.

Outra perda importante para a companhia ocorreu no Instagram em setembro. Os dois cofundadores, Kevin Systrom e o brasileiro Mike Krieger, anunciaram que deixariam a companhia e que se concentrariam nos próximos passos de um novo empreendimento.

O motivo das saídas não foi esclarecido publicamente. No entanto, as especulações dão conta de que o Facebook queria monetizar mais as plataformas, mas os os cofundadores, muitas vezes, empacavam o processo.

Eleições no Brasil

Toda a história da Cambridge Analytica acendeu um alerta vermelho do uso de redes sociais para fins políticos. Por essa razão, o Facebook se dedicou bastante a analisar perfis com atividade fraudulenta. Nas eleições presidenciais no Brasil, tivemos o banimento de páginas dos dois lados da torcida política. De um lado, uma agência estava pagando pessoas pró-PT para falar bem do partido ou de pautas suportadas pela sigla. Do outro, foi descoberto que páginas ligadas ao MBL usavam perfis falsos para impulsionar publicações.

Na rede social, pelo menos, parece que o Facebook fez o que podia ser feito durante o pleito. Enquanto isso, no WhatsApp, foi descoberto que empresas usavam CPFs de idosos para registrar chips de celular e transmitir o que fosse necessário durante as campanhas. O mais interessante é que esses gastos não foram declarados pela campanha, geralmente eram custeados por terceiros — o que não é permitido pela lei eleitoral do país.

A investigação ainda está em aberto, mas tudo indica que esse tipo de tática [contratação de empresas para compartilhamento de conteúdos por vias obscuras] foi usada por boa parte das campanhas do país.

Redução do chorume pelo WhatsApp

Se no Facebook as coisas foram até que bem, tirando os casos de vazamento ou uso indevido de dados de usuários por terceiros, o WhatsApp ainda é um grande desafio. Neste ano, a plataforma de mensagens foi bastante usada para compartilhar notícias falsas. Das mais inocentes às mais mortais.

Alguns casos emblemáticos rolaram na Índia. Por lá, pelo menos duas pessoas foram linchadas depois do compartilhamento de notícias falsas. O script era mais ou menos assim: grupos compartilhavam materiais dizendo que determinadas pessoas andavam pelos vilarejos do país para traficar crianças. As pessoas, então, acreditavam na história e tentavam fazer justiça com as próprias mãos. O problema é que o tiro saiu pela culatra: as vítimas eram inocentes.

Como a troca de mensagens pelo WhatsApp é criptografada, restou para a rede passar a limitar o número de compartilhamentos para tentar conter a disseminação de conteúdos em grupos.

Em outra notícia envolvendo o uso indevido de redes sociais, o Facebook admitiu ter tido influência no genocídio de Myanmar. Os militares do país usaram a internet para promover uma limpeza étnica do grupo minoritário rohingya, de maioria muçulmana.

E pra 2019?

O Facebook teve um ano difícil, mas é a maior rede social do mundo com mais de 2 bilhões de pessoas — portanto, ninguém tem um banco de dados tão completo de hábitos de usuários da internet do mundo. Mark Zuckerberg, em meio a um dos escândalos, disse que a rede se concentraria em melhorar a segurança dos usuários.

A companhia está numa situação curiosa. Com boa parte dos usuários de internet já cadastrados nela, o Facebook parece estar trabalhando em algumas frentes. Uma que está clara é melhorar o apelo da rede. Por aqui, por exemplo, a companhia está concentrada em oferecer transmissões de futebol (Libertadores e Liga dos Campeões), além de outros conteúdos via Facebook Watch e foco em comunidades e grupos.

O Instagram está cada vez mais se tornando uma ferramenta de compras de itens, sem contar as iniciativas de vídeo, com o IGTV, e o formato Stories que, inegavelmente, é um sucesso — o Snapchat que o diga. No WhatsApp, a empresa deve lançar em breve propagandas na ferramenta Status (o Stories do WhatsApp) e trabalha em uma criptomoeda para que os usuários possam fazer transações financeiras.

Os três aplicativos são separados, mas me parece que parte dos esforços do Facebook será em retomar a confiança dos usuários, de modo que eles se sintam seguros para postar mais na rede e tenham consciência do que está sendo feito com seus dados. Da forma como essas plataformas estão presentes na vida das pessoas, me parece difícil que um problema no Facebook, por exemplo, faça com que elas deixem também o Instagram e/ou o WhatsApp.

Sempre nos primeiros meses, Zuckerberg fala dos seus planos para o ano. Que em 2019 seja fazer com que a rede não use malabarismos e deixe claro para os usuários o que é feito com os dados coletados. Caso contrário, o próximo ano tende a ser mais um em que a rede terá de ficar se explicando e sendo alvo de escrutínio de governos, dos usuários e da mídia. Esses escândalos ainda não pesaram no bolso da empresa, mas talvez no próximo ano vejamos algo nesse sentido se nada for feito.